Pedaços Transformados
83 Alguém, ninguém
alguém, ninguém
CALUM, 13 ANOS. LUKE, 12 ANOS.
—Eu gosto de você.
De todas as declarações que Calum esperava, uma romântica não fazia parte do pacote – e isso era tudo o que menos queria agora.
Ainda mais vindo de Berkeley.
Quando Berkeley o chamou para o telhado da escola, Calum deveria ter se ligado que essa era a intenção dela – essa sempre era a intenção das pessoas (nos animes) quando chamavam outras para o telhado da escola: se declarar. Romanticamente.
Mas devia ter algum erro.
Calum não havia aceitado essa possibilidade por uma razão: não era possível.
Não era possível que Berkeley tivesse se declarado para ele, logo para ele dentre tantas pessoas, dentre Luke, seu melhor amigo, que gostava dela.
Não era possível que ela preferisse ele a Luke, porque ele não era uma opção e, mesmo se fosse, Luke seria a melhor escolha.
Luke era sociável, amigável, bondoso... Bem, não realmente. Luke só era bondoso com Julie e com as pessoas que gostava, mas ele sabia ser educado e essa educação era impressionante.
Enganável.
Apaixonante.
Não era a toa que Berkeley estava apaixonada, só que... ela não estava.
Não por ele.
Calum queria saber qual era o problema dela, porque como ela gostava dele e não de Luke?
—Oi? – piscou ele, surpreso. – Você quer dizer que gosta de mim? Eu? Não... Lu... – Calum não iria dedurar seu amigo, jogá-lo na fogueira, por mais irritado que estivesse com ele. (Ele, ao menos, não estava tão irritado com Luke para fazer isso naquele momento.) – Não é outra pessoa? Alguém mais... Alguém gosta de você?
Claramente essa não era a resposta certa porque Berkeley olhou-o com olhos arregalados e lacrimejantes, lábios tremendo e saiu correndo.
Calum continuou ali, parado, temendo dar um passo em falso e cair no chão, ainda descrente de que isso tivesse acontecido. Era tudo o que faltava na sua vida, pensou. Mais uma coisa para deixá-la ainda pior.
Ele e Luke estavam brigado – ou talvez não mais. Calum não sabia. Assim que o jogo acabou, Berkeley o chamou para ali e ele a seguiu, porque... porque talvez ela fosse pedir sua ajuda para se declarar a Luke, ele a ajudasse, eles ficassem juntos e...
Calum não precisasse dizer.
Que ele gostava de Luke.
Mas Berkeley, a garota que Luke gostava, gostava dele.
Era tudo o que faltava na sua vida, para deixá-la ainda melhor, para que a amizade dele terminasse de vez, para que ele não precisasse dizer como se sentia, porque tudo o que tinham acabaria e Calum não iria precisar escolher, porque não teria nada a escolher.
Luke ficaria com raiva dele e Julie ficaria ao lado do seu irmão, e Liz e Andrew ao lado do seu filho – porque família era assim, porque eles eram uma família e se apoiavam, porque não importava quem estivesse certo, eles iriam ficar ao lado de Luke.
E Calum... Calum ficaria sem ninguém.
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