Pedaços Transformados
165 Acreditava – P A R T E D O I S
acreditava – P A R T E D O I S
setembro, hoje
O queixo de Luke caiu.
Seu coração caiu.
E então voltou com tudo, cheio de raiva, dor e indignação.
Luke queria gritar o quão errado era aquilo, o quão feio e indecente era.
Luke queria perguntar como Ash podia perguntar algo desse tipo naquela situação, com Calum naquele estado, com Julie sem cabeça para responder.
Luke queria relembrar a Ashton que eles só tinham 16 anos e que não tinham terminado nem o ensino médio e que nem sabiam o que iriam fazer pelo resto da vida.
Luke queria relembrar a Ashton que ele e sua irmã estavam namorando há três ou quatro meses apenas.
Luke queria...
Mas então sua irmã sorriu, cansada, triste, mas feliz, um pouco feliz, ao menos um pouco, e ele queria dar aos parabéns a ela, dizer o quanto ela ficaria linda vestida de branco, porque ela estava feliz, porque era uma notícia boa em meio há tantas ruins, mas...
—Ainda não – recusou Julie, grata por Ashton ter perguntado aquilo, sentindo seus olhos queimando e seu coração batendo.
Seu.
Coração.
Batendo.
Sem vozes que murmuravam desgraças, sem sensações de aperto e falta de fôlego, sem... sem...
—Shii – murmurou Ashton, embalando-a em seus braços. – Está tudo bem, querida – ele sussurrou em seu ouvido. – Meu coração só foi despedaçado.
—Hunf – bufou ela, cutucando-o de lado, nas costelas dele. – Sem querida.
—Sim, sim, sim... – Ashton revirou os olhos. – Querida.
—Eu te odeio tanto – cantarolou Julie, embora seu aperto firme negasse isso.
—E eu te...
—Ashton – avisou Julie numa respiração, de repente tensa em seus braços. – Eu já disse. – Ela se afastou, para olhá-lo, para mostrar o quanto era séria, antes de empurrar o rosto de volta contra seu peito, puxando-o para perto. – Ainda não – as palavras saíram abafadas contra sua camisa.
—Sem graça – murmurou ele.
—Que você ama – completou ela, solidária, num tom de pena.
—Oh – ofegou Ashton, falsamente, sendo quem se afastava agora para encará-la. Incrédulo. Ou tanto quanto possível quando era verdade. – Eu pensei que você tivesse dito sem...
—Uma coisa é eu dizer – interrompeu Julie, como se fosse óbvio (na cabeça dela deveria ser) – outra é você confirmar.
—Julie – disse Ash, exasperado. Ele não precisava mais fingir, porque, sinceramente, suas segundas intenções não estavam sendo entendidas? Ele pensou que havia uma piada particular entre eles, não que estivesse brincando, mas... – O que você acha que eu estava fazendo ao te pedir...
—Sem desespero, querido – zombou Julie, saboreando o apelido carinhoso ao se afastar daquele abraço demorado de mais, encostando-se novamente em seu segundo travesseiro preferido na falta do real (na falta do real, ela preferia o seu irmão em primeiro lugar). – Desespero não é nada bonito.
—E você é linda – zumbiu Ash, bufando.
—Ora, obrigada – murmurou ela, num bocejo sonolento, esticando os pés a sua frente e suspirando.
Julie acreditava em Deus e era isso que ela iria fazer: acreditar.
Acreditar em Deus.
Acreditar que coisas boas aconteciam com pessoas boas.
Acreditar que era uma fada e que realizava desejos (mesmo que fosse para si mesmo, mesmo que fosse contra as regras, mesmo que perdesse suas asas, mesmo que caísse).
Julie iria acreditar que um dia acreditaria em Ashton e aceitaria se casar com ele, se sentiria digna para fazê-lo merecê-la, para dizer sim e ouvi-lo dizer que a amava.
Julie acreditava no amor e que Ele era Deus e que essa era a resposta para tudo.
Julie iria acreditar e acreditava que tudo vinha no mesmo pacote, independente de qual fosse a categoria.
Acreditar – acreditar era uma palavra mágica, porque se não fosse Sininho não teria voltado a vida depois de ouvi-la.
Acreditar – acreditar era a chave.
Julie acreditava.
Fale com o autor