Pedaço De Lua Na Beira Da Estrada
1 one-shot de aniversário pro Aoi-san
Notas iniciais
Era muito tarde quando eu ainda dirigia pelas estradas muito desertas rumo à casa em que meus pais moravam desde que eu era criança para passar com eles a semana de folga que eu tivera do trabalho.
Chovia forte, como há anos eu não via chover... Quase não era possível enxergar a estrada diante de mim.
— E depois brigam comigo que eu não volto muito à Mie... Que palhaçada de chuva é essa? – resmunguei comigo mesmo, batendo furioso contra o volante, praguejando contra os céus.
Tudo a minha frente era uma massa escura e amorfa, portanto, eu decidi procurar por algum lugar pra passar a noite, até que a chuva passasse.
Uma pequena pousada na beira da estrada surgiu de repente em meu campo de visão e embiquei meu carro na direção dela. Parecia bem cuidada e acolhedora.
Diante da garagem, aguardava um senhor idoso, de expressão serena e gentil, segurava um imenso guarda-chuva que eu não sabia como ele fazia para suportar seu peso.
— Seja muito bem vindo, senhor! – ele sorriu pra mim ao me acompanhar do carro até a entrada da pousada. – Que chuva, hein? Não é uma boa noite pra dirigir, né?
— Com certeza, não... – ri, amargurado.
— Espero que aproveite bem sua estadia aqui, senhor...
— Arigato! – caminhei até o balcão do outro lado do aposento.
Olhei para os lados, a procura de alguém. A imagem acolhedora do lado de fora não chegava nem perto do interior. Tinha a aparência de uma casinha familiar, alguns quadros nas paredes, uma lareira de pedra, uma sala de TV... Fiquei algum tempo olhando ao redor e quando voltei meus olhos para o balcão a minha frente, uma garota baixinha, de cabelos castanhos com algumas mechas, presos num coque, me encarava com um olhar curioso.
— Konbawa! – sua voz meiga saiu sussurrada.
— Konbawa... – respondi ainda intrigado. Há um segundo, ela não estava ali... – Um quarto... Pra essa noite...
— Hai... O quarto 2022 está vago para o senhor! Haruka irá acompanhá-lo!
Às minhas costas, outra garota, mais alta que a primeira, de olhos e cabelos extremamente mais claros que a primeira sorria para mim ainda mais cheia de doçura do que a senhorita atrás do balcão.
— Seu quarto é por aqui, Shiroyama-san – pude ouvir a voz de Haruka também sair sussurrada e eu a acompanhei como se estivesse hipnotizado. Não conseguia me lembrar quando tinha dito meu nome...
Subimos dois lances de escada e ela abriu para mim a porta do quarto 2022. Era tão aconchegante quanto todo o resto que eu já tinha visto, uma cama grande, uma lareira, uma televisão... Deixei a pequena mochila de roupas que eu levava para a casa dos meus pais – e que tinha vindo muito a calhar – sobre a cama.
— Se o senhor está com fome, eu posso lhe trazer alguma coisa para comer... – voltei meus olhos para Haruka e arfei, assentindo emudecido. A garota sorriu. – Eu volto num instante...
Fui até o banheiro dar uma olhada. Era pequeno e sem muitos luxos, mas tinha uma banheira média e um espelho de corpo inteiro.
Retornei ao quarto e Haruka já estava de volta também, com uma bandeja nas mãos e um caldo fumegante. A lareira tinha sido acesa. Olhei-a surpreso e ela riu.
— Alguns hóspedes ainda estão jantando... – sua voz melodiosa explicou à minha expressão pasmada. – Vai lhe aquecer! – ela indicou o prato que trazia.
— Arigato – consegui pronunciar com muito mais esforço do que o habitual. Ela novamente sorriu lindamente.
— Qualquer coisa que precisar, pode me chamar! – Haruka se foi com uma graciosa reverência, fechando a porta do quarto.
Liguei a TV para quebrar aquele silêncio horroroso enquanto eu comia. Era um caldo simples de legumes, mas estava reaquecendo até meus ânimos, eu me sentia capaz de sair no meio da tempestade e dançar...
Mal terminei minha sopa, ouvi uma batidinha sutil na porta. Eu me levantei e dei novamente de cara com Haruka.
— Eu lhe trouxe uma toalha – a garota ofereceu o que trazia nos braços a mim, com um gesto gentil e humilde. – Já terminou de jantar? Posso levar seu prato?
— Ah... Arigato... – eu lhe dei passagem e ela entrou no quarto e pegou a bandeja. – As torneiras douradas têm água quente – disse, se encaminhando novamente para sair e a porta se fechou sozinha atrás dela.
Talvez ela tivesse puxado a porta com o pé num gesto tão sutil que eu não vira, mas eu podia jurar que acompanhara todos os seus mínimos movimentos... Tinha alguma coisa estranha por ali... Alguma coisa muito intrigante nela...
Fui para o banheiro e abri as torneiras douradas para encherem a banheira, um vapor denso e perfumado subindo pelo ar e inundando todo o ambiente. Retirei minhas roupas e entrei, deixando que a temperatura relaxasse minha tensão, aliviasse a dor de meus músculos...
Afundei a cabeça na água e quando retornei, me senti sonolento, como se tivesse bebido alguma coisa muito forte... Saí da banheira e retornei ao quarto, onde a TV ainda estava ligada, enrolado na toalha. Ouvi um novo barulho na porta e Haruka não me esperou abri-la para entrar de novo em meu quarto.
— Trouxe travesseiros e mais um edredom, Shiroyama-san – ela deixou sobre minha cama e deu uma risadinha ao me ver seminu.
— Vai ficar entrando e saindo do meu quarto? – eu perguntei, sem conter as palavras e ela riu.
— Quero garantir que tenha o máximo de conforto possível! – seu olhar intenso me fez ofegar. – Vou deixá-lo descansar em paz agora...
— Não! – novamente não me contive e ela riu.
Eu já tinha me acostumado com a presença dela e não me senti nada feliz ao ouvi-la dizendo que não voltaria mais...
— Não quis dizer que está me incomodando... – completei, me sentindo muito bobo.
— Não irei muito longe... – ela riu. – Não se preocupe... Meu quarto é o na frente do seu! Eu te trouxe um chá – seus olhos azuis pousaram na minha mesa de cabeceira. – Vai ajudar a dormir! Oyasumi!
— Como trouxe o chá? – eu perguntei, pasmo e ela se virou para mim com o mesmo sorriso que me deu ao me mostrar meu quarto. – Só vi os travesseiros em sua mão...
Haruka cobriu o espaço entre nós dois, ficando muito próxima de mim, tão próxima que eu temi que pudesse ouvir o martelar desenfreado de meu coração dentro do peito. Seus olhos eram tão azuis que eu quase me afogava dentro deles, sem conseguir me manter numa profundidade segura.
Sem nenhum aviso prévio, ela uniu nossos lábios, mas não me deu a oportunidade de aproveitá-los. Logo os separou e sussurrou, de olhos fechados, a resposta:
— Magia...
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