Pedaços Transformados

69 Traição - P A R T E U M


Notas iniciais
Sabe a história da semana ser produtiva? Ela só começou a ser sexta, porque eu amo escrever essas fantasias loucas.

traição – parte um

CALUM, 13 ANOS. LUKE, 12 ANOS.

—Oi – sussurrou Calum, sedutor. Passando a mão no cabelo úmido de suor, ele pensou se não estava na hora de cortar novamente (talvez devesse pedir a Liz e se manter bem longe da Julie quando o fizesse), antes de colocar a mão ao lado do rosto de Luke e inclinar-se para frente e perguntar: –Você vem sempre aqui?

Abaixo de si, Luke riu, dando tapas no seu ombro que podia ser muito bem "se afaste" ou "tente novamente".

Calum afastou-se, rolando para o lado até que não estivesse mais sobre seu amigo e perguntou, seriamente, voltando ao trabalho:

—Você trouxe o binóculo?

—Quem você acha que eu sou? – ofegou Luke, indignado. Trazer um binóculo para um RPG meio que steampunk meio que medieval era seriamente contra as regras do local, então era claro que ele trouxe. – Aqui. – Luke o passou, porque não acreditava que pudesse ver sua irmã sendo torturada. – O que você está vendo?

—Troll, troll, ogro – contou Calum, entediado.

—Rainha? – pediu Luke, quase levando as unhas à boca. – Fada? – complementou, embora fosse desnecessário.

Quem mais era uma Rainha? Uma Rainha Fada? Sua irmã estava ali ou não? Fazia uma hora que o jogo começou e meia hora depois sua irmãzi... (Ops, pensou ele diante da mancada.) Sua rainha desaparecida estava desaparecida há meia hora e sem sinal dela ou de torturas ou pedidos de resgate. Era pior do que Luke imaginava – talvez fosse um golpe do estado, um levante.

—Oh – ofegou Calum, surpreso. – É... É o... Aquele é...

—O que? – questionou Luke, puxando o binóculo para si e tentando encontrar o que seu amigo viu .

—É o Malcom! – exclamou ele, olhando-o brevemente antes de puxar o binóculo de volta.

—O que?!

Luke não podia acreditar. Era... Era o... Aquele era... Malcom! Malcom havia traído-os como Julie tinha dito que ele faria, mas Luke ainda estava surpreso, porque ouvir alguém dizer e ver por si mesmo era duas coisas diferentes; Julie prever algo e esse algo acontecer eram duas coisas completamente diferente. Só que... o algo aconteceu exatamente como ela previu.

Luke odiava quando ela estava certa, mas ainda quando ela fez de tudo para estar certa – ele não duvidava que sua irmã havia enganado Malcom para traí-la, para que pudesse enganá-lo de volta e dar a volta por cima, para que ninguém ousasse desafiá-la ou não obedecê-la, para que todos soubessem que ela era Julie, a Rainha Fada, e que sua palavra era lei... Luke já tinha ouvido muito esse discurso, ele já sabia de cor e salteado e inverso.

E sabia que às vezes as coisas saiam foram do seu controle.

Aquela era uma delas, porque, no meio do acampamento inimigo, amarrada a troncos de árvores, pronta para ser queimada como uma bruxa, estava Julie.

Sua irmã.

Sua fada.

Sua rainha

Droga.

—O que vamos fazer? – questionou Calum, encarando-o curioso, a espera de ordens ou de uma declaração de que estava por trás disso, de tudo isso, que estava cansado de ser mandado e de não ter sido escolhido pela espada apesar de ser o mais velho, e que agora queria governar, ser o rei.

Seria um desfecho interessante para a história, na opinião de Calum.

—O que? Por que você está me olhando assim?

—Você não é o responsável por isso, é? Você pode me dizer, eu não vou culpá-lo...

—Calum! – exclamou Luke. – Não fui eu!

—Apenas me certificando – disse Calum, levantando as mãos e mostrando que elas não estavam nem limpas nem vazias.

Em suas mãos sujas de terra, tinha um binóculo proibido pelas leis imperiais – lei três, parágrafo único, se Calum não se enganava, declarava: "nada de objetos tecnológicos e/ou atuais; nada de nada inventado após a Caçada das Bruxas de Salém; nada que pudesse tornar o jogo mais fácil", porque, claro, tornar o jogo mais fácil significava que terminaria logo e tudo que todos ali menos queriam era que terminasse logo.

Não, nem Calum ou Luke queria isso, por isso eles claramente seguiam as regras. Sempre. Todas às vezes. Como agora.

—Qual é o plano? – questionou Calum.

—Nós temos um plano... – disse Luke, duvidoso. – Certo?

—Hum, sim, claro – concordou Calum com a mesma certeza. – Quer dizer...

—Nós sempre temos um plano – completou Luke vagamente, fracamente, incerto.

Eles sempre tinham um plano? Luke não se lembrava disso. Eles sempre tinham um plano, isso era certo, mas eles nunca o construíam, apenas seguiam. Julie tinha um plano. Sempre. Mas não dessa vez. Dessa vez ela estava prestes a morrer.

—Eu não faço a mínima idéia de qual é o plano – confessou Luke, girando e suspirando ao ver o sol ainda alto no céu. Eles tinham muito tempo, aquele RPG tinha muitas horas pelas frentes, mas talvez sua irmã não tivesse.

Calum o acompanhou, assentindo com a cabeça, sentindo-se bem melhor ao se deitar daquele jeito e por saber que não era o único e péssimo por não terem um plano.

Sem plano, sem Julie.

Sem Julie, sem Rainha.

Sem Rainha, sem motivos para jogar.

Até aquele momento ele não tinha percebido o quanto gostava de jogar, de ser um cavaleiro, guarda pessoal e amigo de infância da Rainha Fada.

—O que você quer fazer? – perguntou Calum, ficando de lado para vê-lo melhor.

—Eu quero... – Luke agarrou o cabo da espada com força e sentou-se, olhando-a como se ela fosse lhe responder, como se fosse a espada mágica da sua irmã com respostas igualmente mágicas. Não era, nem a de Julie era tão mágica assim, mas ele soube o que queria. – Eu não quero me arrepender – disse, convicto. – Eu quero morrer sabendo que fiz tudo ao meu alcance para salvar minha rainha.

—Sem plano? – questionou Calum, para ter certeza. Ele não iria para a morte certa se tivesse um jeito dela não ser certa.

—Sem plano.

—Você sabe que vamos morrer, não... Apenas me certificando! – interrompeu-se Calum, observando os olhos ameaçadores de Luke para si.

Não era como se ele estivesse ameaçando sua irmãzinha da morte, ele estava apenas sugerindo que ela morresse e eles não fizessem nada – não era a mesma coisa, não chegava nem perto.

—Você... – disse Luke, com dificuldade, a beira das lágrimas. – Foi o melhor... – Ele esticou a mão, colocando-a sobre o ombro do seu amigo, apertando-o, e então o puxou para si, para um abraço, para uma despedida. (Um abraço realmente estranho dado a posição deles.) – Parceiro que eu poderia pedir. Obrigado – agradeceu ele, beijando sua bochecha antes de deixá-lo ir. Para o fim do fim. – Que a paz esteja convosco.

Luke levantou-se.

—Amém – disse Calum, automaticamente, porque elas estavam gravadas na sua alma, porque Luke tinha beijado-o e ele estava sem palavras. – Você... – Calum piscou de volta para a realidade, encarando-o com raiva (ou com tanta raiva quanto você pode ter quando tudo é uma grande brincadeira) e então se levantou, porque aquela diferença de altura, não ser capaz de olhar Luke nos olhos, não ajudava sua situação. – Eu sei o que você fez – rosnou Calum já em pé.

—O que? – piscou Luke, sorrindo inocente, mas a sombra de um sorriso eu-sei-do-que-você-estava-falando ameaçava aparecer.

—Você quer que eu entre no personagem "oh, o que ele fez?", então você pergunta se eu não quero ficar aqui, em segurança, e eu estou muito na lua para perceber o que você perguntou e, antes que eu perceba, você me deixa aqui sozinho, mas adivinhe? – Calum cruzou os braços e bateu a perna, impaciente. – Eu não vou cair nessa.

—Eu não sei do que você está falando – disse Luke, devagar – Mas, só para ter certeza, qual é a chance de...

—Luke!

—Ok, ok. – Luke tropeçou para trás quando seu amigo avançou e se preparou para a queda, contudo o que sentiu foi uma mão quente segurando a sua. Surpreso, (Luke não se orgulhava disso) ele guinchou: – Acalme-se – embora fosse ele quem precisasse disso.

O coração de Luke batia rápido, suas mãos suavam e eles estavam próximos, tão próximos que mesmo quando Calum soltou sua mão, Luke sentia seu calor. E estava tão, tão quente; sua respiração tão, tão ofegante; Luke estava tão, tão...

—Luke Zach Hemmings! – disse Calum, olhando-o de uma forma estranha que fez Luke... piscar ao ouvir o seu nome.

—Eu odeio Zach – murmurou, desviando os olhos. – Embora eu tenha que concordar que Agnes é pior.

—Olhe para mim.

Antes que Luke olhasse, as mãos de Calum estavam sobre suas bochechas e seus olhos contra os seus, os narizes tão próximos que fez o estômago de Luke cair. Ele não imaginava que pudessem ficar ainda mais próximos. Ele não entendia porque estava se sentindo daquele jeito. Ele não sabia se queria se afastar ou se aproximar ainda mais – e nem entendia porque se aproximar ainda mais era uma opção que considerava ou como podiam se aproximar ainda mais, mas Luke se manteve parado, sabendo que concordaria com o que fosse, porque... Ele não conseguia pensar em nada. Ele não queria pensar em nada. Ele queria ficar mais um pouco ali, daquele jeito.

—Estamos juntos nessa — continuou Calum, ignorando... Tudo. (Ou talvez nada.) Luke não sabia, não queria, mas se concentrou em suas palavras. – Não importa se é um jogo ou não, você nunca mais vai fazer isso, entendeu?

—Eu estava apenas...

—Não estava – interrompeu Calum. – E nunca mais vai estar, entendeu? Não quero saber se é um jogo ou não, Luke – ele insistiu – se estamos brincando ou é verdade, não aja mais assim, ok? Ok – respondeu Calum a si mesmo antes que Luke pudesse. – Agora, vamos, temos uma rainha para salvar.