Pedaços Transformados
246 O que queria
o que queria
setembro, três dias depois
Luke sentia-se um pouco invejoso quando via alguém que sabia o que queria, porque ele não sabia. Devia ser tão bom ter essa certeza do que queria fazer pelo resto da vida, ter um plano, um objetivo... Ter algo pelo que lutar.
Luke não tinha.
Não importava qual fosse a profissão, ele não conseguia se imaginar nela. Ele não se via como nada, mas também não era como se fosse incompatível.
Ele poderia pensar em várias empregos e podia se imaginar neles, sabia que conseguiria se realmente quisesse, mas ele não se sentia animado com a idéia. E nem desanimado. Não tinha uma profissão que o deixava ansioso para desempenhar, que se via feliz no futuro, todas passavam a ele o sentimento que ele ficaria inerte para o resto da sua vida.
Não existia uma profissão que era sua paixão e nem uma que causava repúdio, era como se não fizesse diferença. E Luke odiava isso. Ele queria sentir aquele amor que seu pai tinha quando cuidava daquelas crianças, ter os olhos brilhando de sua mãe quando ensinava crianças pequenas, quando as via aprendendo a ler, a escrever o próprio nome sozinhas e sem ajuda (agora ela tinha uma determinação que ele não entendia)... Luke queria ter... algo.
Mas ele não tinha.
Luke não tinha um sonho, um desejo, uma paixão. Um propósito. O que ele queria da vida? O que ele gostava de fazer? Eram tantos "o que?" que Luke nem sabia por onde tinha que começá-los a responder, não que soubesse a resposta de algum.
—Oh, meu... — Luke sentou com um suspiro cansado ao lado de Calum, que balançou a colher com purê de batata de um lado para o outro antes de colocá-la na boca.
—Estou comendo — murmurou ele.
Luke sorriu um pouco, sentindo que poderia dormir e não acordar tão cedo. Ele estava tão, tão cansado, que seus neurônios cozinhavam e ele não queria fazer nada. Era bom saber que Calum estava comendo, ao menos algo bom em todo aquele dia tenebroso.
—Estou vendo.
—É horroroso — ressaltou Calum — mas estou comendo.
—Entendi.
—Você não sabe o quão péssimo é isso, mas...
—Já entendi, Calum, você gosta tanto de purê que está comendo um horroroso.
—E? — Calum levantou a sobrancelha, esperando o complemento, o que realmente esperava.
—Tudo bem — suspirou Luke, não se sentindo realmente... cansando sobre isso, isso em questão. — Vou fazer purê de batata hoje a noite.
—Obrigado — agradeceu ele antes de colocar mais uma colher de purê na boca.
—O que vocês estão cochichando? — questionou Julie, mastigando ruidosamente um pedaço de batatinha frita.
—Eu poderia perguntar o mesmo.
—Sim — concordou sua irmã. — Mas eu perguntei primeiro.
—Calum quer purê de batata.
—Eu quero batatinha frita — completou ela, a resposta na ponta da língua.
—Tem algo para pedir, Ashton? — questionou Luke, levantando a sobrancelha. — Estou aceitando sugestões.
—Purê de batata? Batata frita? — recordou Ash. — Ficaria bom com carne assada. Suculenta, má passada... Hum — gemeu ele, imaginando que aquele óleo que saia da batata era a suculência da carne. Hum...
—Eu gosto de bem passada — lembrou Julie.
—Eu gosto de passada na quantidade certa — disse Calum.
—Eu tenho um público rigoroso — murmurou Luke, abafando um bocejo.
—Sim. Então. Por que vocês estão sentado aqui? Eu não iria perguntar, mas já que faz... — Julie franziu a testa, a batatinha no ar. — Quanto tempo faz que voltamos a estudar?
—Quase... — começou Ash.
—Não importa — interrompeu ela, voltando a vida e ao movimento. — Vocês só se sentam na minha mesa desde que voltamos a estudar. Vão para sua mesa de atletas e populares e me deixem aproveitar minha solidão. Com Demi.
—Ingrata — comentou Ashton. — Se não fosse por nós, você iria ficar sozinha no intervalo durante quatro dias.
—Não é minha culpa que o meu horário e o da Demi de almoço não bate! — reclamou Julie.
—Mas é sua culpa que você não tem mais nenhum amigo.
—Eu discordo — bufou julie, cruzando os braços, deslizando no banco para longe de Ashton e então puxando o prato de batatas apenas para si. Esse era seu castigo.
—Eu concordo — concordou Calum.
—Com quem? — rosnou Julie. — Com Ashton ou com a minha discordância?
Bip, bip, soaram os alarmes. Não aceite, não recuse, não ofenda, lembrou Calum. A semelhança de Julie com aquelas fadas de contos de terror meio góticas era assustadoras e ele queria manter distância.
—Eu concordo com... A parte ingrata — lembrou ele. — Se não fosse por nós, você ficaria sozinha.
Julie não negou ou concordou.
—O que vocês estão fazendo aqui?
—Eu acho que um namorado deve sentar com a namorada. Principalmente quando ela está solitária.
—Você está aqui só por isso? Porque um namorado tem que ficar com a namorada? Se nós não namorasse, você não...
—Não — interrompeu Ashton antes que ela entrasse num... antes que aquilo não tivesse fim. Esticando a mão devagar, com cuidado, ele pegou o prato com as batatinhas e puxou-as para si de... va... gar. — Eu estou aqui porque eu quero.
—Horroroso — sussurrou Calum para si, impressionado.
—Boa resposta — assentiu Julie, deslizando para as batatinhas que por acaso a forçava a se aproximar de Ashton. — E vocês?
—Hum... — Qual era o problema com a verdade? — As coisas estão meio tensas naquela mesa desde que eu... Luke me... nós nos beijamos — decidiu por fim, decidindo também que poderia entrar em combustão espontânea, de tão quentes e vermelhas que sua bochechas ficaram.
—Uhh — zombou Julie. — Estão namo...
Calum desperdiçou uma batatinha nela.
—Cale-se.
—E você Luke?
—Ele está dormindo — observou Calum.
—Ele não está — discordou Julie entediada, sem duas olhadas.
—Não?
Calum podia conhecer Luke melhor do que si, mas ele ainda se surpreendia pelo "melhor do que si" da Julie ser realmente um "melhor do que si " — não era para ser tão... real, tão literal.
—Vá por mim. — Calum iria. — Ela te prensou na parede não foi? — divertiu-se Julie.
—Ela? — ecoou Calum e Ashton, surpresos, virando-se para Luke.
—A orientadora — respondeu. — Ela é terrível.
—É? — Ashton sentiu seus olhos crescerem tanto que eles poderiam saltar para fora da caixa.
—Por que? — questionou Calum. Era um elogio e tanto vindo da Julie.
—Vocês ainda não foram, não é? Ela estará preparada pelas respostas que demos nos questionários. Você sabe que eu coloquei várias coisas, certo?
—Eu ainda não sei como você fez isso — comentou Calum. — Só tinha dois espaços para responder.
Julie sorriu.
—Se-gre-do — silabou. — Então, ela me bombardeou com panfletos. Cadê a minha bolsa?
—Sem bolsa sobre a mesa — murmurou Luke.
—Você sobrevive — retrucou Julie, colocando a bolsa na mesa e puxando mais e mais papel de dentro dela. — Tem de tudo. Sobre maternidade.
—Como é? — Luke sentou-se para olhá-la, repentinamente acordado. — Ashton!
—Hum? — Agora, sim, seus olhos sairiam dos lugares, pensou Ashton. Que história era aquela?
Calum esticou a mão para pegar um e leu.
—Como ser a melhor astronauta, jardineira e dona de casa que você poderia pedir... Ela criou isso ou...
—Não faço a mínima idéia — respondeu Julie. — Mas é interessante. Estou pensando até de mudar de profissão.
—O quê? — balbuciou Ashton.
—Como se você fosse — murmurou Luke.
—Disse alguma coisa?
—Não.
—Eu pensei ter ouvido alguma coisa.
—Imaginação sua.
—Humm — Julie estreitou os olhos para o seu irmão.
—O que você quer ser? — questionou Ashton, curioso.
—Luke não sabe — respondeu sua irmã por ele.
—Eu posso falar por mim mesmo, Julie — murmurou Luke.
—Só confirmando.
—Hum.
—Eu estava falando com você, Julie — disse Ash. — Embora seja bom saber que meu cunhado está no mesmo barco que eu.
—Oh, não — discordou Julie — o barco de Luke já está afundado.
Luke murmurou novamente, querendo estar tão indiferente ao assunto quanto queria aparentar que estava. Era desconfortável não saber o que fazer mesmo que sua mãe dissesse que não tinha problema, que ele era muito jovem para saber o que queria para o resto da vida, que se ele decidisse uma coisa e depois outra era normal. Liz só queria que ele fosse feliz. Luke só queria que sua irmã não fosse a praga que era.
—Tente adivinhar — desafiou Julie.
Ashton não fazia a mínima ideia.
—Médica? — foi a primeira coisa que veio na sua mente. Julie era inteligente o suficiente para...
—Oh, não — gemeu Luke e Calum juntos.
—Você... — Julie piscou. — Não, não, não, você não está fazendo isso. Pode ser uma piada, Irwin, mas você acha o quê? Se eu sou inteligente, eu quero ser médica? Se eu não for médica, eu não serei inteligente o bastante? Minha inteligência apenas se mede se eu... Ei, espere. — Julie esperou, parou. — Você está falando sério? Você não sabe? — questionou ela, surpresa. — O que eu quero? Eu pensei que todo mundo soubesse. Eu falo isso direto.
—Todo mundo sabia, Julie — disse Calum. — Você só falava disso, mas... — Mas Andrew morreu e você não se importava mais com o que queria ser, apenas o que era. — Você superou.
—Graças a Deus — agradeceu Luke.
—Você superou... — disse Ashton, esperando que sua namorada completasse.
—Eu quero fazer direito — disse ela. — Eu quero...
—Sempre dizer que está certa — completou seus irmãos. — Nós sabemos.
—Só confirmando.
—Eu vou... namorar... — disse Ash devagar — uma advogada?
Julie deu de ombros.
—Não se terminarmos.
Ashton a ignorou. Ela via tentando fazê-lo terminar a um tempo, mas isso não aconteceria.
—E você, Calum? — questionou ele.
—Hum... bem... — Calum olhou para Julie, que o olhou desinteressado.
—Eu não ouvi — disse Luke.
—Eu quero ser médico — murmurou ele. -Como Andrew.
Julie assentiu.
—Você vai ser um bom médico — disse ela.
Calum sorriu, um pouco surpreso por ela estar sendo honesta e agradável — era duas coisas que não aconteciam com frequência.
—Obrigado.
—Não vai ser fácil — começou ela.
—Mas tem um pote de ouro no final do arco-íris — completou.
—Menos para Luke que não sabe o que... Ei, sem desperdiçar batatinhas!
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