Pedaços Transformados
192 Melhor
Notas iniciais
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setembro, um dia depois
—Precisamos ir para o hospital – anunciou Julie, sentando-se na cama assim que se deitou, arregalando os olhos, assustada. – Oh, meu Deus – murmurou, empurrando Ashton para fora da passagem. – Oh, meu Deus.
Ela tremia quando colocou os pés no chão, gelado, tropeçando por cima de algum corpo desavisado.
Puxando o lençol que a cobria consigo, Julie enrolou-se completamente até que parecesse uma daquelas bruxas de antigamente, de desenho animado, aquelas que eram enrugadas e lançavam maldições se ninguém a fizesse feliz, aquela que deu uma maçã enfeitiçada a Branca de Neve, branca como a neve, ou talvez aquela que pediu a qualquer que fosse o nome da Fera para lhe comprar uma rosa, para ajudá-la.
Julie gostava de pensar que parecia uma daquelas videntes antigas que predizia o futuro e recordava o passado, antiga, misteriosa e mortal, mas...
Ela estava muito preocupada e ocupada com os próprios pés para se importar com o fato de parecer mais um esqueleto decrépito com frio, tremulando contra o vento como se fosse uma bandeira de pirata hasteada, velha, fina e completamente desfiada, por causa de todo vento, sol e água salgada que recebeu.
—Julie. – Ashton a pegou quando ela cambaleou. – Vá para a cama.
—Você não entende – sussurrou ela, virando-se para ele desesperada, com os olhos saltando das órbitas, suas pernas virando gelatina. – Nós temos que ir.
—Para a cama – completou Ash, suavemente, pegando-a pela mão com delicadeza e puxando-a para a cama.
—Agora – continuou Julie, não o ouvindo, seus pés firmes no chão e a cabeça em outro mundo. – Nós temos que ir agora. Temos que chegar o quanto antes, eu... – Ela engoliu em seco, nervosa, assustada, tremendo. O frio era tanto que Julie encolheu-se em si mesma, lamentando-se, protegendo-se, engaiolando-se dentro de suas asas. – E-eu tenho que ver se... se...
Seus olhos queimavam, sua visão brilhava em azul quando olhou para suas próprias mãos fracas, que não paravam. Parem, parem, parem, ela pediu desesperada, tendo um dejá vù ao contrário, porque antes pedia para suas pernas se mexeram e tudo o que mais queria agora que suas mãos parassem.
Medo, amaldiçoou sua mente.
Fraca, incrédula, mortal, citou ela suas falhas.
—Shii. – Ashton a abraçou antes que Julie se quebrasse na sua frente. – Shii. – Ele a embalou em seus braços protetoramente. Para frente, para trás. Para frente, para trás. Ele fechou os olhos, deixando-se acalmar-se também. Para dentro, para fora, respirou. Para dentro, para fora.
—Eu tenho que ir – murmurou Julie contra seu tórax.
—Você poderá ver isso depois de dormir – disse Ash, abaixando-se para pegá-la nos braços e não se sentindo tão satisfeito quanto pensou que estaria quando isso acontecesse, quando estivesse carregando-a no bom e velho estilo de noiva.
Os braços de Julie rodearam seu pescoço, agarrando-se a ele desesperada e tremendo tanto, como se tivesse sido resgata de um afogamento, que... Ashton a segurou apertado.
O coração dele quebrava-se por Julie estar se comportando desse jeito, sentindo-se de tal forma. O bolo em sua garganta deixava tudo difícil – respirar, chorar, contar até dez... Ashton a segurou apertado e, com cuidado, com muito cuidado, deitou-se com ela, nunca a soltando, nunca a deixando ir.
Julie também não o soltou, não o empurrou, não o mandou sair.
—Por favor – sussurrou ela.
Ashton a segurou mais ainda.
—Por favor – suplicou.
Ashton a apertou mais forte, mais perto, mais... Mais, mais, sempre mais.
—Por favor – chorou Julie.
Ashton fingiu não ver as lágrimas.
Porque era péssimo nisso.
Porque se sentia um inútil.
Porque Julie nunca chorava e quando chorava era por algo importante e Ashton nunca sabia o que fazer quando era importante.
Como agir.
Comportar-se.
Como ajudá-la.
Ser um bom namorado.
Contudo, mais do que isso, ser um bom amigo.
A última e única vez que Ashton a viu chorando, ele ficou parado, apenas observado, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto dela, seu corpo tremia de frio por causa da chuva, e suas mãos apertavam fortemente contra a cintura de Calum, as unhas cavando fundo na pele dele.
E Calum apenas a abraçou, a segurou apertado, não disse que tudo estava bem nem que ficaria, ele apenas ficou ali, com frio junto a ela, passando as mãos para cima e para baixo em seus cabelos, respirando calmamente e tentando fazê-la acompanhar inconscientemente.
Ashton tentou imitá-lo.
Tentou ser, ao menos um pouco, a pessoa maravilhosa que Calum Hood era.
É.
Ainda seria.
—Eu te amo – disse, porque não conseguia pensar em nada reconfortante para dizer. Ele empurrou o nariz contra seus cabelos e aspirou o cheiro. – Eu te amo.
Eu estou aqui, ele não disse, porque seria egoísta e estaria dando mais valor a si mesmo do que merecia – e Julie merecia o melhor.
Ela merecia Calum vivo e bem.
A respiração suave de Julie foi sua resposta, os dedos relaxados contra sua pele uma demonstração e o fato dela estar dormindo era... Ashton não sabia, mas ele acreditava que Calum estava bem e que Liz estava certa e que tudo que todos eles precisavam era de uma boa noite de sono.
Ashton sorriu para Julie, beijando seus cabelos e sussurrando uma promessa contra o ouvido dela antes de tentar voltar a dormir.
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