levantar

JULIE, 12 ANOS.

Não importa quantas vezes levar, Julie ouviu as palavras da música e repetiu-as num eco sem fim, você deve se levantar.

Ela devia se levantar.

Ela queria se levantar.

Levantar não era querer, mas querer era tentar e não importa quantas vezes fosse, ela tentaria.

Julie tentaria.

Não importa quantas vezes fosse.

Julie tentaria.

Julie se levantaria.

Julie andaria novamente.

Julie podia sorrir e voar e andar novamente.

Julie podia amar e ser amada e ser feliz e nunca dizer "eu estou bem", ela não era obrigada a nada disso, mas...

Ela era.

Julie sabia que era.

Seu pai morreu, ela não.

Seu pai morreu, ela não.

Seu pai morreu... Julie não queria que ele tivesse morrido, mas ela não morreu, ela queria viver e não estar morta, ela queria amar e ser amada e ser feliz e, talvez num dia, ela também pudesse dizer "eu estou bem" para si, porque queria, e não porque era obrigada.

Mas primeiro ela precisava se levantar.

Tentar.

Não desistir.

Cair e se erguer.

Cair e ser amparada.

Cair e tentar novamente.

Julie precisava cair para aprender a voar.

Julie precisava andar para aprender a voar.

Julie precisava tentar para aprender a voar.

Que tipo de fada ela seria se não aprendesse a voar?

Que tipo de rainha seria se não se levantasse depois que caísse?

Que tipo de irmã seria se deixasse seu irmão sofrer junto com ela?

Que tipo de amiga seria se deixasse Calum passar por isso de novo?

Que tipo de filha ela foi?

Julie fechou os olhos, inspirando e expirando e tentando não chorar, porque lágrimas eram sinais de fraqueza, porque se começasse não podia terminar, porque não era sua culpa (mas talvez fosse) e, se começasse a chorar, talvez não pudesse parar, porque ela não tinha fé em si mesma.

Julie sentia vergonha de si e raiva de si e... medo.

De si.

O medo a sufocava, crescendo pelo seu coração, passando pelo pulmão e aglomerando-se na sua garganta, como se fosse uma doença Hamasaki, como se fosse começar a tossir pétalas de sangue por um amor não correspondido, e Julie sabia o que precisava fazer — ela tinha que deixar isso ir, tudo isso ir, senão iria perder a si mesma.

E perder a si mesma era... perder tudo.

Era perder sua mãe, seus irmãos, seus amigos; era perder seu pai, era perder Malia.

Era perder as pessoas que ainda não tinha conhecido e que seriam tão importantes para si, como... que seriam importantes.

Era perder a oportunidade de se vestir com bolinhas, de cantar mal, mas cantar, de flertar e dançar, de fazer o certo, o bem, o que queria.

Era perder o que era, o que seria, o que faria.

Era perder a todos.

Era perder a si mesma.

E Julie Hemmings nunca perdia.

Julie Hemmings sempre tentaria.

Julie Hemmings tentaria... e conseguiria.