Pedaços Transformados
153 Idiota? Rainha dos Idiotas
idiota? rainha dos idiotas
maio, quatro meses atrás
Se ele era um idiota, Luke tinha certeza que sua irmã era a rainha deles. Eram tantas provas incontestáveis que... Nossa! Como Julie podia não ser, sendo tão idiota e cercada de idiotas? Como sua irmã podia deslizar para sua cama num dia que não estava chovendo, não tinha trovões (ela tinha medo de trovões... Luke não iria zombar disso quando ele mesmo tinha de escuro), não falar nada, e acreditar que ele não iria estranhar? Idiota. Rainha dos idiotas.
Luke esperou meio segundo, dando um segundo extra para ela se recuperar e dizer algo, mas quando ficou óbvio que sua irmã não iria (meio segundo extra depois), ele perguntou:
—O que foi?
—Humm — cantarolou ela, sem comprometimento e cansada, desanimada, acabada. E não apenas porque estava gripada.
O que foi? Hã, sim, com toda certeza Julie Hemmings, essa mesma Julie Hemmings, iria dizer a seu irmão o que foi. Ela iria confessar a ele como havia se confessado a Ashton, dizer sobre os beijos escondidos (três, não que ela estivesse contando... se estivesse contando certo), sobre o fato de querer mais e mais, sempre mais; ela iria confessar a Luke que estava apaixonada por Ashton, como havia confessado ao próprio, dizer que foi rejeitada, dizer que queria chorar, dizer que não tinha nem forças para isso.
Julie mordeu os lábios, encarando fixamente o teto, tentando morder com força suficiente para doer e chorar, para chorar por dor física e não por coração partido, para esquecer que estava no quarto do seu irmão e não o contrário, para esquecer que o teto dele não brilhava, para esquecer que ela era fraca e estava comportando-se como uma garotinha que teve o coração partido pela primeira vez — sim para garotinha, sim para o coração partido, sim para a primeira vez; não para garotinha, não para o coração partido, sim para a primeira vez.
Ela não era mais uma garotinha, não desde que seu pai morreu; ela não estava com um coração partido, porque se ele quebrasse (como ele quebraria?), ela estaria morta, porque o cérebro era responsável por sentimentos e não algo que só bombeava sangue; e era a primeira vez.
Era a primeira vez que Julie gostava de alguém realmente e ela não sabia explicar porque era Ashton, logo Ashton, (por que não Calum?), mas ela gostava... dele. De como ele era esforçado nas coisas que gostava, como em desenhar e jogar basquete, de que ele era tão ruim quanto ela para socializar e tentava tão duro não demonstrar isso, que tinha tentado fazê-la sorrir quando ela havia dito que estava apaixonada por ele... E, oh, sim, Julie não podia se esquecer dos olhos castanhos com manchas esverdeadas, do cabelo loiro que chegaria um momento que ultrapassaria o tamanho do seu, da covinha... Ela era demissexual. (Por que não Calum?, pensou mais uma vez.)
Luke suspirou. A situação devia ser... ele nem sabia como devia ser, apenas que era algo que não estava acostumado e nem queria, e que sua irmã devia estar igual. Ou envergonhada demais para admitir o que fez.
Luke começou pelo o que podia lidar.
—Você e Ashton brigaram?
—Nós não brigamos – vociferou sua irmã antes mesmo dele ter fechado a boca.
Luke parou na metade do caminho, meia aberta, meia fechada, piscando surpreso. Ok, eles tinham brigado.
—Hum, sei.
—Por que você está dizendo isso? — exigiu ela, virando para encará-los com brilhantes olhos que prometiam dor eterna.
—Porque — disse Luke devagar — assim que eu cheguei, ele foi embora.
—E? – Julie queria mais. Aquilo não era uma explicação boa ou suficiente. — Ash devia ter algo para fazer e não é como se ele fosse me deixar sozinha e doente.
Por mais que doesse admitir, Luke sabia que ela estava certa. Ash não iria deixar sua irmãzinha doente sozinha. Ele era um idiota, mas ele era um bom idiota.
—Então por que ele desapareceu assim que eu cheguei? – questionou, girando até ficar de lado e apoiando a cabeça na mão para poder vê-la.
Luke nunca tinha visto alguém sumir tão rápido quanto Ashton tinha. Ele havia deixado os dois sozinhos para ir comprar remédio e então havia voltado e encontrado Ashton impaciente no sofá, olhando para a escada fixamente, como se o esperasse o monstro chamando sua irmã para assombrá-lo para o resto da vida dele.
—E eu vou saber? – murmurou Julie, bufando. — Certo, tudo bem – suspirou ela, ciente dos olhos céticos do seu irmão. — Nós não brigamos, eu evitei uma... eu evitei.
—Você evitou? — repetiu Luke, cético. — Desde quando você evita algo? Julie! — exclamou, horrorizado enquanto se sentava. — Oh, meu Deus!
—O que? O que foi? — perguntou sua irmã, sentando-se assustada e o encarando.
—Eu estou tão envergonhado de você agora.
Julie balançou a cabeça em negação. Sério?
—Me poupe — disse ela, deitando-se novamente.
—Sério — continuou ele. — Eu te admiro tanto e você foge de uma briga? Quem é você e o que fez com a minha irmã?! – perguntou, assombrado.
—Sua irmã está evoluindo.
—Minha irmã está regredido! – exclamou Luke. – Julie, entenda, você não foge de uma luta. E eu não estou dizendo você você, especificamente você, eu quero dizer todas as pessoas. Brigando ou não brigando, Ash ainda foi embora não foi? Então, já que ele iria embora de qualquer jeito, então mostre seu ponto de vista.
Julie parou, a meio caminho de retrucar e dizer que ele estava errado, quando percebeu...
—Você está certo — disse ela.
—É, claro que sim.
—Você vai se arrepender disso – continuou Julie.
—É, claro que sim.
—Essa era a oportunidade perfeita para que eu me livrasse de Ashton.
—Não fale — reclamou Luke, puxando o lençol para cima e se escondendo. — Eu já estou me arrependendo – murmurou ele, devidamente embalado.
—Você vai se arrepender ainda mais disso — agourou sua irmã.
Luke podia ouvir o sussurro dela infiltrando-se na sua mente, plantando sementes de ódio e desavença, semeando desgraça e escuridão... Ele suspirou. Sua maldita Julie interior era quase tão pior quanto a exterior, só não era porque não existia.
—E você e Layla? — questionou Julie para passar o tempo, para ter sono. Quem se importava com Layla? Ela precisava de algo entediante para ter sono e estava muito cansada para se levantar agora que se deitou e estava confortável.
—Lydia — corrigiu Luke automaticamente, encolhido.
—Foi o que eu disse.
—Não, não foi. — Ele tirou o lençol do rosto.
—É parecido, quer dizer... Layla é quase Lydia — explicou-se Julie.
—Então você reconhece que não é o mesmo?
—Não foi o que eu disse.
—Sim, foi sim.
—Não, não foi — discordou sua irmã.
—Julie — chamou Luke. — Eu sou seu irmão mais velho e estou sempre certo.
—Três minutos — relembrou ela. — Você é meu irmão mais velho apenas por três minutos – retrucou, pegando a mão dele e encaixando do jeito que gostava, do modo que fazia parecer que eles foram feitos para se completar. E apertou.
—Foram os três minutos mais longos da minha vida — confessou Luke, retornando o breve aperto.
—Owwnnttt — disse Julie, fazendo beicinho. — Você é tão fofo! — Ela fungou, esfregando o nariz com a mão livre. — Lembre-me porque...
—Eu te amo — finalizou ele. E brincou: — Tem coisa na vida que é sem explicação.
Julie riu. Sim, tinha, mas aquela não era uma delas. Aquela definitivamente não era uma delas. Ela amar Luke e Luke amá-la era uma das coisas mais certa da vida, era algo que poderia fazê-la sair da cama — Julie sabia que sim, que entre eles esse era um amor desse tipo, que construía, destruía e transformava.
—Eu também te amo.
Quem se importava com Ashton? Ela não era mais uma garotinha, não desde que seu pai morreu; seu coração não iria quebrar, porque ele não era o responsável por seus sentimentos, e, se fosse, ele já estava quebrado — ele havia se quebrado pela primeira vez (e única) quando seu pai morreu.
Julie Hemmings podia estar triste agora por ter se apaixonado pela primeira vez e por não ser algo recíproco, mas não era o fim do mundo — isso não era o fim do mundo... Agora não ser uma fada seria. Graças a Deus, ela era uma.
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