Notas iniciais
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erro

CALLIE, 5 ANOS. LUKE, 4 ANOS.

Callie não sabia explicar, mas... Luke? Não. Apenas não. Julie? Sim. Com toda certeza sim.

Olhar para Julie lhe fazia se sentir bem, mas para Luke? Não. Olhar para Luke era como ter certeza de que havia algo de errado consigo, era uma prova de que havia algo de errado consigo.

Ter Luke na sua casa, no seu aniversário, não era o que Callie queria, mas entendia o que Julie queria dizer com “eu e ele somos pacote” ao apontar para seu irmão com um suspiro desanimado, porque tinha o mesmo com Malia. Mas isso não significava que tinha que gostar de ter Luke ao seu lado – aceitar ele não significava gostar, não tinha nem uma relação. E Callie estava bem com isso.

Os dois tinham um acordo mútuo e não falado de não se envolverem um com outro. Sim, Callie era amiga de Julie. Sim, Luke era amigo de Malia. Sim, Callie e Luke não eram amigos. Não era porque suas irmãs eram amigas que Callie e Luke deviam ser amigos. Não existia essa regra. Não era porque todos eles eram gêmeos que eram iguais, cópias uns dos outros, que deviam ser amigos.

Callie sabia o quanto era diferente da sua irmã apesar de serem idênticas, e Luke e Julie só tinham os mesmos olhos e o mesmo cabelo, porque enquanto Julie era uma explosão de falta de lógica e improvisação, Luke era... Luke. E Callie não gostava disso.

Olhar para Luke era, com toda certeza, como ter certeza que havia algo de errado consigo, era uma prova de que havia algo de errado consigo. Agora, enquanto olhava para Luke, Callie tinha essa sensação, era como estar andando nas pontas dos dedos para não fazer barulho ou ter formigas andando sobre sua pele, alguém soprando na sua nuca ou alguém lhe chamando... Olhar para Luke lhe passava o sentimento de erro.

Erro, erro, erro, erro...

Erro, erro, erro...

Erro, erro...

Erro...

Err...

Er...

E...

Luke não queria isso, não queria ir para uma festa de Callie e Malia, mas Malia era sua amiga e Luke nunca deixaria sua irmã ir sozinha, então, é claro, ele foi com ela. Ter ido com ela não tinha nem uma relação com o fato daquela ser uma festa do pijama e Julie precisar dormir lá; com Julie nunca ter dormido fora de casa; com eles nunca terem dormido separado um do outro. Não, não tinha.

Luke foi porque Julie precisava dele lá, pois não estava acostumado a dormir sem ele, e Luke precisava que ela fosse, porque Malia era sua amiga e seria muito triste não ter nem um amigo na sua festa – se precisava que ele fosse para sua irmã ir, Luke iria; se precisava que ele e Callie se comportassem como seres humanos e não animais, rosnando um para o outro sempre que se viam, tudo bem.

Naquele dia, Luke seria um ser humano com Callie – um bom ser humano, um ser humano que seus pais se orgulhariam. Mas sempre que ele abria a boca, Luke percebia que ele não estava realmente abrindo-a, porque abrir, falar, não era tão fácil quanto achava. As palavras desapareciam, eram sugadas. Luke não sabia o que dizer.

Pensando bem, ele nunca tinha tentado falar com Callie, Luke apenas supôs. Tudo que sabia, ou acreditava saber sobre Callie, era suposições. Se eram verdadeiras ou falsas não sabia, mas Luke podia afirmar sem dúvidas que Callie não gostava de estar vestida e calçada e, bem, ele não gostava disso.

Luke não queria desviar os olhos de Callie e desviá-los novamente para encontrá-la sem roupa. Deus o livre disso. Já bastava ter sua irmã entrando no banheiro quando ele estava lá!

Um homem precisa de privacidade!, Luke queria gritar, mas ele apenas se encolhia de vergonha e tentava fingir que... Não. Não era ele, não era Julie, aquilo não acontecia.

—Você quer jogar videogame? – perguntou Callie repentinamente.

Luke encolheu-se, esperando que ela dissesse que era algum erro, que falava com outra pessoa, mas quando Callie não disse nada, ele olhou devagar para ela e... respirou normalmente, novamente. Callie estava vestida, que surpresa agradável.

—Sim – respirou Luke novamente, surpreso pela facilidade com que aquelas palavras surgiram e tomaram forma.

Callie não era tão ruim quanto achava.

—Mas você vai perder – disse ela sinceramente, com a sugestão de um sorriso nos lábios.

Luke sorriu de volta, abertamente. Callie não era tão ruim quanto achava. Sempre. Só de vez em quando. Raramente. Sua irmã era pior, bem pior. Diariamente. Constantemente.

Callie não era nada comparada a Julie.

Notas finais
Luke é meio que - completamente - obcecado com a Julie. Eu sei. Ele sabe. Todos nós sabemos.