dica útil

outubro, duas semanas depois e dois dias

A essa altura, Calum não tinha mais unha nas mãos para roer e ele não estava indo recorrer aos dos pés – sem chance, Luke não valia esse esforço e Calum ainda tinha algum orgulho sobrando, mas, droga, era difícil. Seus dentes não paravam quietos, mordendo agora o lábio tão forte que sentia gosto de sangue na boca, e seus dedos batucavam ritmicamente contra a parte traseira do seu celular, que estava no seu ouvido.

—Sim, sim, Liz, entendi. – Calum sorriu. – Se o bastardo tentar pegar em alguma parte minha, sem a minha permissão – repetiu ele – soco primeiro, corro depois.

—Eu tenho uma dica útil – disse Julie.

—Hã, sim, útil – murmurou Liz. – Vindo de você, logo de você.

—Baseada na minha própria experiência – continuou sua lunática irmã. – Você tem alguma desse tipo, mamãe? – provocou ela. – Porque eu tenho.

—O que é, Julie? – questionou Calum, apesar de não querer saber.

—Minha dica útil é: quando ele menos esperar, quando vocês estiverem falando sobre qualquer coisa, ou nada, você se vira para ele, diz o nome dele e anuncia... vamos nos beijar – disse ela lentamente, contemplando as palavras que uma vez disse.

—Você não pode dizer isso, Julie! – exclamou Calum, antecipadamente envergonhado. – Isso não é algo que você chega em alguém e diz.

—É claro que você pode – zombou ela. – Foi o que eu fiz. Modesta à parte, de preferência bem longe de mim, deu certo.

Calum balançou a cabeça para si.

—Você não tem vergonha – murmurou.

—Ashton não se importa — cantarolou ela.

—Eu estou começando a me importar — avisou Liz. — Então, fique calada um momento, Julie. Não, melhor ainda, vá e pegue um copo com água para mim.

—Vocês, mães — suspirou Julie, levantando-se. — Tudo igual. Eu podia estar do outro lado e mesmo assim você ainda me chamaria para pegar seu copo de água.

—Estou esperando — cantarolou Liz.

—Liz — começou Calum.

—Espere — pediu ela. — Ela está longe. Ouça, Calum — sussurrou para não ser ouvida — apenas seja você mesmo, é a coisa mais difícil a se fazer, mas é a única que vale a pena, o resto vai acontecer naturalmente.

—Por que está sussurrando? — sussurrou Calum também, era contagioso esse clima de segredo.

—Porque... Eu não sei — confessou Liz. — Mas faça isso.

—Certo, se você diz. Algum conselho baseado em sua própria experiência? — provocou.

—Acredite — disse ela — você não quer nenhum conselho meu, eu e Andrew fomos uma bagunça antes de aceitarmos que tínhamos de ficar juntos, que nosso lugar era ao lado do outro e que, não importava o que fizéssemos ou o que aconteceria, isso não mudaria.

Calum ficou sem palavras, curioso e surpreso. Do que Liz falava? Às vezes ele não a entendia. Devia ser uma coisa de eternamente apaixonados, mas ele às vezes tinha o sentimento que Liz contava uma história de conto de fadas do que falava da sua própria vida.

A campainha tocou antes que Calum pudesse pedir que ela contasse como eles se conheceram, apaixonaram e finalmente ficaram juntos. Para sempre. Até que o infinitivo tivesse fim. Ou, como Julie costumava dizer, de hoje e adiante.

—Eu tenho que ir — desculpou-se. — É o Luke.

—Ele chegou? — questionou Liz, surpresa. — Já? Diga a ele para dirigir devagar!

Calum sorriu.

—Eu vou. E... Liz?

—Hum?

—Se... — Calum engoliu em seco. — Se eu e Luke não... não funcionarmos, você...

—Eu irei apoiar os dois. Você ainda será o meu filho. Eu colocarei ambos de castigo. — Liz deu várias respostas. — Vai dar tudo certo.

—Obrigada, mãe — agradeceu. — Eu te amo.

—Eu também te amo, filho. Agora corra para pegar seu garoto!

Calum riu, sentindo-se bem melhor do que há poucos minutos — ele gostava disso. Ele gostava de estar falando com Liz sobre o filho dela e de tê-la ao seu lado, apoiando-o; ele não tinha dúvidas que ela faria tudo aquilo que disse.

—Tchau.