Notas iniciais
Ficou maior do que eu planejava... aproveitem!

dúvida

CALUM, 12 ANOS. LUKE, 12 ANOS.

Luke sempre pensou que dizer o que se pensava era ser amigo, mas ficar calado, fingir que não via, ignorar o fato de estar certo e seu amigo errado, também era.

Não era fácil, mas era o que ele tinha que fazer em relação a Agatha — Luke sabia que era. Ele tinha que ficar calado e deixar sua irmã ver por si mesma que sua nova amiga não prestava, que Agatha sempre mudava de assunto quando ela se aproximava ou que estava sempre falando mal dela por suas costas.

Não era fácil fingir que não via nada disso — Luke queria fazer algo quanto a isso, dizer a sua irmã, mas não era como se ele tivesse ouvindo realmente as palavras ruins que elas deviam estar dizendo.

E se ele estivesse enganado?

E se o fato delas estarem sussurrando e depois mudando de tom quando Julie se aproximasse fosse outra coisa?

E se as apontações não fossem realmente malignas?

E se ele estivesse enganado?

Acusar alguém com base no instinto, sem prova, era errado.

Não gostar de alguém sem razão era errado.

Não querer que sua irmã fizesse amizade era errado.

Fazer sua irmã chorar era errado

Não era fácil fingir que não via nada disso, nem uma dessas coisas, mas era uma contagem regressiva. Luke sabia que era. E ele estava esperando pelo momento que o contador chegasse a zero e... Ele não sabia, ele não havia chegado a esse momento, porque o relógio não havia zerado, porque sua irmã não chorava.

Sua irmã não chorava e Luke não sabia mais o que era certo e errado, o que deveria fazer, porque Julie e sua ex melhor amiga haviam brigado (aleluia!), mas Agatha chorava, não Julie, e...

Uau, quem era o culpado?

Luke precisava de um culpado ao final de cada dia, quando colocava sua cabeça no travesseiro e tentava dormir, porque ele precisava de algo para refletir e se martirizar até que caísse no sono, cansado demais de pensar para conseguir pensar.

—Você acha que sou uma má pessoa? — questionou Luke repentinamente, balançando os pés sem encontrar o chão, porque eles flutuavam em cima do vazio, do vácuo, da água.

—Por que? — perguntou Calum, olhando-o brevemente desconfiado antes de voltar ao seu trabalho, recebendo dinheiro e dando bolas para se jogar em troca.

Um homem, com idade suficiente para não ter interesse nesse tipo de jogo, pegou as três bolas que Calum ofereceu e atirou uma após a outra, sem esperar, sem respirar, sem ver se alguma iria acertar o alvo... Calum não sabia se achava impressionante o modo como aquele homem jogou as bolas ou a sua confiança inabalável que não iria acertar uma e derrubar o garoto do trampolim na pequena piscina cheia de água

—Eu não sei — disse Luke. — Quer dizer... Eu posso perguntar isso, não? — duvidou, levantando os olhos dos seus pés para seu amigo. — Todos têm um momento de autoconhecimento, autodúvida, auto... Um momento que não sabe quem é, não?

—Não vou nem responder isso — respondeu Calum. — Quer dizer... — Ele sorriu, irônico. — Sério? Você está falando para mim isso?

—Isso não é sobre você, Calum — disse Luke, revirando os olhos. — Vamos focar por um instante em mim, ok?

—Ok — concordou Calum, copiando seus movimentos e revirando os olhos para ele, permanecendo impassível até que Luke voltasse a si, aos seus juízos perfeitos ou tão perfeitos quanto possível.

Por que... Uau. Sério? Luke falava sério sobre toda essa história de autoconhecimento? Calum não precisava dessa conversa para cima dele, como se ele não tivesse tido isso, esses momentos de desconfiança em relação a si mesmo, como se às vezes, num dia realmente ruim, ele ainda não as tivesse.

Embora também soubesse que todos tinham dúvida em relação a si mesmo e não era porque as de Luke não fazia sentido que Calum devia agir daquele jeito — como se apenas ele tivesse dúvidas, apenas ele importasse, como se Luke estivesse louco. Todas as autodúvidas não eram sem sentido?

—Com licença — tossiu uma garota, interrompendo os olhares fixos. — Quanto é...

—Berkeley, certo? — sorriu Luke, tão galante e educado e animado que Calum o olhou surpreso.

A mudança repetina de melancólico para energético era assustadora, Calum queria perguntar ao seu amigo se sorrir de mais não iria arruinar com seus propósitos malignos, embora duvidasse (e era uma dúvida válida) que Luke fosse ouvi-lo, afinal aquela era Berkeley.

Berkeley, a garota da outra classe.

Berkeley, a garota que ele dizia estar "apaixonado" — Calum duvidava seriamente disso. Paixões necessitavam no mínimo de um conhecimento, o máximo que seu amigo sentia era curiosidade. No máximo.

—Sim — acenou Berkeley em reconhecimento, dando um pequeno sorriso como se estivesse tímida. — Você é...

—Luke — apresentou-se rapidamente. E então apontou para o lado, sem retirar os olhos dos dela, como se temesse perdê-la de vista se piscasse. — E esse é Calum.

—E é cinco reais por três tentativas — completou Calum em solidariedade.

A sorte de Luke era que Julie não estava ali e ainda não havia percebido essa "paixão", porque ela não iria deixá-lo em paz e tudo que Calum queria era esquecer aquela visão na sua frente — Calum desejava que não fosse desse tipo quando estivesse realmente apaixonado.

—Eu só vou precisar de uma — disse Berkeley, arrogante.

Calum levantou os olhos para Luke, descrente, porque se todas as pessoas que tivessem dito isso cumprissem com sua palavra, Luke não estaria seco, mas com pneumonia, contudo seu amigo não o olhava, encarando Berkeley com algo quase tão próximo do jeito que encarava Julie e Calum suspirou, porque, oh, sim, Luke estava "apaixonado" — ele realmente não esperava que fosse desse jeito quando se apaixonasse.

—Aqui — disse Calum, dando uma bola e mantendo as outras duas consigo, esperando pacientemente pelos olhos envergonhados quando ela não acertasse.

Berkeley ficou ereta, girando o ombro direito algumas vezes como se o alongasse e então plantou o pé esquerdo no chão, fazendo um arco com o direito enquanto girava o corpo e inclinava-se para a frente...

Luke espirrou.

E Berkeley errou o alvo por alguns centímetros.

—Uh — disse Calum sem perceber, zombando automaticamente. — Eu não... Quer outra? — ofereceu mais uma.

—Não — ela rangeu os dentes, olhando irritada para Luke antes de se virar, jogando o cabelo por cima do ombro, nem um pouco do jeito fofo de Julie.

—Mais sorte na próxima — zombou Calum, ciente do que fazia, sabendo que estava sendo idiota, mas, bem... Luke também estava!

Olhando para o seu pulso, seu relógio lhe disse que era dez minutos depois da última vez que havia olhado e que faltava cinco minutos ainda — dez minutos a menos desde a última vez que havia olhado; cinco minutos para que o expediente dele e de Luke terminasse e eles pudessem aproveitar a quermesse como todos estavam. Cada minuto contava na contagem regressiva que antecedia o banho gelado de Luke.

—Então por que você acha que é uma má pessoa? — questionou Calum para passar o tempo, antes que seu amigo pudesse fazer mais alguma pergunta idiota.

—Eu não acho que sou, se eu achasse então eu não seria — disse ele devagar, esquecendo-se rapidamente de Berkeley. (Por isso, Calum sabia que Luke estava "apaixonado"; ninguém apaixonado realmente se esquecia tão rapidamente da pessoa amada... Calum achava que não.) — Ninguém que é mal acha que é, por isso estou perguntando se você acha.

—Certo — disse Calum devagar. — Eu não acho que você é mal, mas porque você acha que deveria ser...

—Você não ouviu o discurso sobre quem acha não é?

—Luke — avisou Calum, fechando os olhos por um segundo para contar até dez. — Não dê uma de Julie.

—Julie não chorou depois de ter brigado com Agatha — confessou Luke rapidamente, encolhendo-se com a percepção do que... — Espere, por que eu acho isso, de ser comparado a minha irmã, ofensivo? Julie é... — Luke parou, pensou e finalmente sentenciou, assombrado com o que aquilo significava dele: — Doida.

—É.

—Eu estou dando uma de Julie — repetiu Luke.

—Aí está seu autoconhecimento — murmurou Calum para si. — Mas o fato de Julie não ter chorado era esperado, não?Quer dizer, ela não vai chorar por isso, não é como se ela tivesse tido o coração quebrado, alguma parte dela sabia que Agatha era assim. Ela estava apenas... fingindo não perceber, querendo, você sabe, uma amiga. — Calum deu de ombros e então completou, pensando sobre o que havia escrito: — Julie não é do tipo que chora por estar triste, mas do tipo que chora por ter quebrado a unha.

—É — disse Luke, assombrado por não ter percebido isso. Como ele não tinha percebido isso? Como Calum tinha e ele não?

Calum não era um desconhecido, era seu melhor amigo, era o melhor amigo de Julie depois dele mesmo, mas ele era o irmão gêmeo de Julie antes de ser o melhor amigo dela e... E Luke havia ignorado isso, fingindo não perceber, porque isso podia significar que sua irmã estava triste e ele não sabia. E não podia fazer nada.

—Você queria que ela chorasse? — Calum finalmente perguntou, entendendo e pensando que não tinha, porque não tinha como essa ser a resposta certa. — Admita, Luke, você queria ser o herói da Julie. — Ele esperou pela recusa de Luke. Que não veio. Calum voltou-se para ele... surpreso demais para saber o que... Ele não... Uau, aquilo era demais até para os Hemmings. — Vá dar um mergulho, Luke.

E tentou não se encolher quando a água não respingou nele, mas lhe deu um banho quase tão completo quanto ele havia dado em seu melhor amigo, satisfeito demais com o grito consternado dele para se arrepender.

—Espero que você tenha tido um bom motivo para derrubá-lo — disse Andrew, chegando atrás de si. — Porque eu queria fazer isso.

—Você quer dizer que eu iria fazer isso enquanto você dizia a todos que é meu amuleto da sorte — comentou Liz, calmamente, olhando ao redor sem se impressionar com seu filho dentro do tanque. — Você vai ficar doente, Luke, sentado aí.

—Eu sou seu amuleto da sorte — disse Andrew. — E é verdade. Doente — apontou, como se rogasse uma praga.

—Não — discordou Liz. — Eu sou seu amuleto da sorte.

Andrew não discordou. Ela era.

—Cadê, Julie? — perguntou, olhando ao redor. — Eu pensei que ela fosse ficar com vocês.

—Bem, ela iria — disse Calum, pegando uma toalha para si. — Mas ela disse que precisava de independência e que iria fazer uma barraca sozinha.

—Independência — murmurou Andrew para si.

—É? — Liz se surpreendeu. — Julie disse que iria ficar sozinha? Sozinha? Ninguém a influenciou a isso? Ela escolheu trabalhar? Uau — assobiou, impressionada. — Ela também vai ficar doente.

—Ela já deve estar — corrigiu seu marido. — Qual barraca ela escolheu?
—V-vidente — gaguejou Luke, tremendo de frio enquanto escalava a escada ao seu lado para sair, agarrando-a com força para não escorregar e cair.

—Ela disse que era uma fada e que tinha que usar seu dom para o bem — completou Calum.

—Ela disse? — questionou Andrew, lambendo os lábios secos. — Ela disse?

—Para onde você vai? — questionou Liz, franzindo a testa quando seu marido passou na sua frente.

—Para onde você acha?

—Cuidado — avisou Liz, agarrando seu braço. — Você não quer ouvir uma maldição. Você não quer que eu vá com você? — questionou sua mãe, preocupada. — Eu posso te defender.

Tão boa em se fingir de preocupada que os garotos se olharam, perguntando-se qual era o problema, porque parecia haver algum ali.

Qual era o problema de Julie estar numa barraca sozinha, fingindo ser uma vidente, uma fada?

—Está tudo bem, Liz — respondeu Andrew, beijando-a na testa e passando a mão nos cabelos úmidos de Calum antes de ir.

—Esta tudo bem, mãe? — perguntou Luke quando seu pai se foi.

—Sim — disse ela. E então olhou para seu filho e mudou de idéia. — Não. Vá se secar, Luke. Ajude-o, Calum. E depois vão comer algo quente. Eu vou... — Liz olhou ao redor. — Dá uma olhada por aí.