Notas iniciais
Estou me sentindo numa fase revolts com a vida, me culpem. Estou te provando para ver se você é suficiente digno da minha história, pobre mortal? Não, eu apenas não consegui não escrever isso – estou tão assim ultimamente. Hum, sim, essa primeira parte da primeira parte (na minha cabeça a primeira parte tem três outras partes e essa é a primeira) é mais sobre o fato de Calum descobrir, se aceitar, como um garoto trans, e Malia doente. É, Malia está doente, gente. (Eu rimei? Eu rimei! Então... por que não estou feliz?

amor

CALL... CALUM, 9 ANOS. MALIA, 9 ANOS.

Ainda era novo para Callie... Não, Calum, pensar em si como Calum. Mas novo não era estranho, não era ruim, apenas... Novo. E emocionante. E certo. Ele era Calum, não Callie. Ele era um menino, não uma menina.

Toda vez que Malia dizia Callie e depois se corrigia, Calum se via feliz, animado pelo novo nome. Era tão bom ser visto como era, era tão bom ter aquele pedaço de si nem que fosse apenas dentro da casa dos Hemmings, nem que fosse apenas com poucas pessoas. Estar ali era como estar no paraíso. Estar ali era o seu paraíso.

Infelizmente, Calum não estava ali.

Cada vez que ouvia aquelas palavras, Calum queria sair. Ir embora. Tapar os ouvidos. Fazer qualquer coisa – qualquer coisa – que não fosse ouvir aquilo. Porque aquilo era tão... Feio. Sujo. Errado.

Amor era amor, independente de qualquer coisa... Bem, não, amor era amor desde que te tornasse uma pessoa melhor – isso era amor. Ser uma pessoa melhor para quem ama, para si mesmo, ser um exemplo, mas... Aquele cara parecia não entender isso e Calum não entendia como ele não entendia isso, era tão simples.

Você ama alguém e ama alguém, você não ama o que ela é, mas quem ela é. Você ama alguém apesar de todos os seus defeitos, você ama alguém por eles; você vê a beleza onde não tem e diz o que não quer, mas que precisa ser dito, porque precisa.

Mas aquele cara parecia não entender isso.

Apertando as mãos fortemente ao seu lado, Calum queria sair e não ouvir, mas, tão pior do que ser chamado por Callie e não ser corrigido para Calum depois, era o olhar de reprovação que seus pais dariam caso ele se levantasse.

Ele queria sair, mas não podia.

Ele queria dizer o que pensava sobre aquilo, mas não podia.

Ele queria tantas coisas, mas não podia, que não ter mais uma não faria diferença.

O que era uma gota de água num copo transbordando? Não faria diferença, Calum havia aprendido isso desde cedo.

O melhor que podia fazer em relação aos seus pais, para si mesmo, era sentar sobre suas mãos e não fazer nada; ficar quieto, contar carneirinhos, fingir que aquilo não o abalava, fingir que concordava com tudo aquilo.

Felizmente, Malia estava ali.

E não havia aprendido nada disso.

Segurando a mão do seu irmão na sua, Malia levantou-se e o arrastou atrás de si, ignorando as repreensões murmuradas da sua mãe e a áurea repreensora do seu pai. Existia um limite para o que ouvir e não deveria – aquilo era errado e fim, aquilo não deveria ser ouvido e fim. Se existia algo errado, você não deveria ficar calado, quieto; você não podia contribuir; você não podia aceitar.

Ela não podia aceitar.

Ela não podia deixar que seu irmão aceitasse.

Ou acreditasse

Ela não podia deixar que outras pessoas vissem como ele estava quebrado, perdido em si mesmo, tremendo silenciosamente e engolindo todas as lágrimas que queria colocar para fora, todas as palavras que queria dizer, que lutavam para sair – Malia temia que seu irmão se sufocasse com tudo se continuasse ali, dentro da igreja.

Amor não era errado!

Amor nunca era errado!

Amor era a solução de tudo!

Como alguém podia não acreditar nisso?!

Malia não acreditava como as pessoas não acreditavam nisso. Como alguém podia falar sobre Deus, caridade, fazer o certo, e se esquecer do amor? Malia tinha certeza que havia algum mandamento na bíblia sobre isso, sobre amar os outros como a si mesmo ou qualquer outra coisa parecida; não importava, a questão era amar.

Amor era a grande questão de tudo.

Amor era certo e certo e certo, sempre e sempre.

Amor era Deus.

Mas como fazer seu irmão entender isso?

Observando Calum sentar-se frustrado no balanço, respirando devagar como ela tantas vezes havia mandado, Malia sorriu e sentou-se no balanço ao lado.

—Eu te amo – disse ela, simplesmente, começando a se balançar. – Não importa o que os outros digam, eu te amo. Não importa o que os outros digam, porque eu te amo.

Calum mordeu os lábios, dando um meio sorriso para ela, e se concentrou no que estava na sua frente até os seus olhos estarem embaçados. Não importava que ele não enxergasse a igreja que ficava bem em frente ao parque que estava ou as árvores, as flores, sua irmã balançando-se cada vez mais alto ao seu lado... As lágrimas caiam sem seu consentimento, mas Calum não se importava, porque aquela era sua irmã e estaria, sempre estaria, ao seu lado, mas ainda sim...

—Talvez... – começou ele, indeciso. – Eu devesse ser Callie.

—O que? Não! – exclamou Malia, enterrando os pés no chão e parando. Seu corpo foi para frente, para trás, mas ela manteve os olhos fixos no seu irmão. – Por que você está dizendo isso?

—Seria o certo...

—Dane-se o certo – rosnou ela.

—Se fosse para eu ter nascido menino, eu...

—Você nasceu como deveria, Calum – disse Malia, firmemente, recomeçando a se balançar, colocando sua frustração ali. Céus, seu irmão era idiota? Ela acreditava que tinha um irmão inteligente! – Você é um menino no corpo de uma menina e deveria ser assim. As coisas são assim. Deus te criou assim. E Deus sabe tudo. Ele sabia que você não ia se sentir bem nesse corpo e mesmo assim te fez um corpo de menina. Agora nós vamos lá – disse Malia, pulando do balanço ainda em movimento, (parabenizando-se por ter caído em pé) – e vamos dizer aos nossos pais e eles vão entender.

—Mas...

—Não. Sem mas – disse ela, recusando-se a ouvir algo diferente do que queria. – Eles vão continuar te amando, e por que não iriam? E, se eles não gostarem de você, não é você, nunca é você. Ninguém nunca não ama alguém por causa da pessoa, mas por causa de si mesmo.

—Eu te amo – respondeu Calum.

—É claro que sim. – Sorriu ela. – Por que não iria?

E, nesse momento, ele pensou que deveria dizer todos os motivos que a amava, tudo, mas... não existia um motivo. Calum não amava algo sobre ela, ele amava tudo que fazia parte de quem ela era que tentar explicar seria apenas desnecessário. Ele a amava, não era o bastante? Amar alguém já não era um bom motivo? O melhor de todos?

Era.

Contudo, naquele momento, talvez não fosse.

Quando Calum gritou já era tarde demais.

Notas finais
Isso foi algo que aconteceu comigo e eu só fiquei “isso é serio?” Cara, a primeira coisa é amar os outros, então como alguém pode dizer que amor é errado? Ninguém está pedindo que você saia vestido de arco-íris, balançando uma bandeira colorida, você não precisa concordar, apenas respeitar... Tem um livro/filme que eu realmente amo que é Ender Game/O Jogo do Extermínio, é algo que o personagem fala sobre – parafraseando – que quando você conheça alguém, você passa a amá-la, e não estou dizendo conhecer, mas conhecer, saber seus motivos, suas motivações, tudo... quando você conhece verdadeiramente alguém, não tem como você não amá-la.