Pedaço de Céu

3 Can't Remember to Forget You


Notas iniciais
Oe! Então, eu espero que vocês gostem, porque eu me empenhei bastante nesse capítulo! Bom, diferente dos outros dois, esse aqui, quem narra é a Aeryn. Beijinhos e boa leitura!

Já era tarde da noite quando começamos a escrever os relatórios da última missão. Voltamos de madrugada, não havia mais ninguém na associação, estávamos congelando e famintos. Aquele filhote sanguessuga deu mais trabalho que o esperado, sem contar que depois que se juntou àquele licantropinho... Pelo menos não vieram sereias, harpias...

— Então, conseguiu escapar, juntando-se ao pequeno licantropo... — eu ditava para Ezra. Mal nos aguentávamos acordados, essas criaturinhas causaram um estrago danado... — Desaparecendo no meio da floresta.

— Aeryn, eu tô com fome. — aquele inútil reclamou.

— Você tá sempre com fome, Ezra. — respondi — Continua. Após fugir para a floresta, foi encontrado na cidade, aterrorizando seus habitantes. Não chegou a tomar...

— Posso ir buscar comida? — Ezra me interrompeu, novamente. Odeio quando faz isso.

— Vai me deixar fazendo os relatórios sozinha? — perguntei indignada. Somos uma equipe, caso ele não saiba... Ele se levantou de sua mesa, deixando a caneta de lado.

— O que quer comer? — sussurrou em meus ouvidos. Instintivamente, dei dois passos para trás, ele estava muito perto, mas então, ele chegou mais perto, só para me provocar. Ele sabe que não gosto que as pessoas fiquem tão perto de mim — Não vai me responder?

— Você é ridículo. — disse, na verdade, eu meio que rosnei — Sabe que eu quero um café.

— Com cookies? — ele perguntou, sem esperar uma resposta concreta. Sabia que sim.

Aquele preguiçoso deu um jeito de fugir dos relatórios, bem maldito. Se bem que eu já esperava por isso, é tão típico... Chegamos tarde de um trabalho, sentamos para escrever os documentos e então ele dá a desculpa de que está com fome e vai comprar comida. Fica enrolando por umas três horas e quando volta, voilà, já está tudo escrito.

Mas eram tantos para escrever... E eu estava tão cansada... Joguei toda a preguiça de lado e comecei. “O equipamento pego no Arsenal não foi o suficiente para os quatro dias, mesmo que em situações normais, fosse. O filhote possuía habilidades diferentes das comuns. Ele se alimentava das balas que eram atiradas em sua direção (...)”. E foi o resto da noite, digo, madrugada, assim.

Quando terminei, já eram 4h35min e, nada de Ezra. Estava muito frio e para melhorar as coisas, caindo uma tempestade terrível. Não me aguentava em pé, estava com tendinite de tanto escrever e minha casa era só do outro lado da cidade. Disse que estava faminta? Então, sentia-me muito fraca. Esse preguiçoso inútil.

Tomei coragem e dei o primeiro passo para fora do edifício. Um vento arrasador passou por mim, aquilo não era nada comum, não era só do frio da madrugada. Tinha algo a mais. Estava bem escuro, e eu bem fraca. Sem armamento, sem força, sozinha.

— Sorte a minha... — riu uma voz tenebrosamente sedutora? — Encontrar tão renomada caçadora, em tão deplorável estado... — continuou, insultando-me, pisando em minha honra — Pergunto-me, qual será o sabor de seu sangue?

Ignorei, continuei andando. Lutar com ele era inútil, não tinha permissão, não tinha armamento, não tinha força. Tudo o que eu tinha era fome. Tal criatura pareceu não gostar da minha decisão, empurrou-me contra a parede mais próxima.

— Como ousa ignorar-me, caçadora? — vociferou ele — Sabes quem eu sou?

— Só mais um sanguessuga que, por algum motivo desconhecido, não está na lista de execução para eu mata-lo sem precisar de ordens superiores. — respondi provocando-o. Fugir depois dessa não era escolha, dignidade é coisa séria, para qualquer espécie.

— Vocês, humanos, são mesmo imprudentes. — concluiu — Eu sinto o cheiro da sua fraqueza. Poderia te matar tão facilmente...

— Francamente, se estivesse mesmo aqui para isso, já tinha feito, não acha? — provoquei-o — Mesmo estando na frente da ACCF. Quer começar uma guerra?

Realmente, eu não sei os meus limites. Se não me engano, aquele era um dos mais nobres da raça vampírica, brincar com ele, no meu estado era tão imprudente. Mas foi o instinto. Eu sabia que se morresse ali, menos criaturas para caçar, mas foi inevitável. Os seus olhos brilharam com uma fúria que presenciei só na minha infância, foi assustador. Ele arrancou a gola alta da blusa que eu vestia, senti minha garganta inflamando. Ótimo, ao invés de me matar logo, vai se alimentar do meu sangue e se divertir com meu sofrimento.

Realizou todo aquele ritual, passar os dedos gélidos e acinzentados no pescoço da vítima, lamber o local, morder. Senti meu sangue saindo de meu corpo, esquentando o corpo dele, aquele nobre nojento, perdendo toda a sanidade. Estava ficando zonza, minhas pernas bambearam mais do que já estavam e aquele monstro segurou meu corpo. Conseguia sentir o sorriso de satisfação em seus lábios.

De repente, ouvi três estrondos, senti três rajadas de vento perto do meu corpo, aquele vampiro já era. Ele me soltou e eu caí em cima de sua carcaça. Ele não havia morrido, a nobreza era mais dura de matar.

— Você me dá um trabalho, hein. — finalmente ele apareceu, ajudando-me a me levantar — Tem que parar de aprontar desse jeito. Podia ter morrido. — minha vontade era de espancá-lo e ele sabia disso, estava só aproveitando o fato de que eu não tinha mais forças — Precisamos estancar esse sangue... — concluiu genialmente, levando-me de volta para dentro da Associação.

Depois de terminar, desajeitadamente, o curativo, na maior cara de pau ele disse:

— Trouxe seu café.

— Ezra... — murmurei, procurando alguma energia em meu interior.

— Ah, você não consegue tomar, né? — perguntou ele, mais para si mesmo do que para mim — Eu te ajudo. — disse colocando o copo em minha boca, despejando o líquido quente dentro dela. Senti meu corpo se esquentando, sendo “revigorado” pela cafeína da bebida.

— Ezra... — tentei novamente, quando ele parou com o café, sem sucesso.

— Comprei seus cookies e um croissant também! — ele estava alegre demais, ou nervoso demais. Meu estado psicológico não me deixava raciocinar direito, meu corpo não me obedecia. Apesar do café quente no meu organismo, continuava com muito frio. Abracei-o, sem hesitar — Ok. Está com frio, né? — não respondi, ele tomou como um sim. Pegou-me no colo e saiu da sala. Não sei como aguentou me carregar até em casa — Me dê suas chaves. — ordenou. Só dessa vez eu obedeceria. Ele abriu a porta e entrou, colocando-me no sofá, enquanto ia trancar a porta. Então subiu as escadas e deixou-me no meu quarto, na minha cama.

— Ezra... — comecei, buscava forças dentro de mim — Obrigada. — consegui dizer, com muito esforço.

— Não tem de quê. — ele respondeu sorrindo. Tinha esquecido que apesar de sua irresponsabilidade, ele era um grande amigo — Não sofra por precisar de ajuda, Aeryn. Deixe de ser orgulhosa e dependa um pouco mais dos outros. — e estava me dando sermão, folgado — Você não está mais sozinha. Eu estou com você.

Aquelas palavras aqueceram meu coração de uma forma que não sentia há muito tempo. Não sentia desde a última vez que estive com meus pais.

The way he makes me feel, yeah

(O jeito que ele me faz sentir, sim)

Gotta hold on me

(Me prende)

Num impulso pedi para que ele ficasse, não queria passar a noite sozinha. Por mais que eu não quisesse admitir, fiquei extremamente assustada com aquele vampiro. Pela primeira vez em anos, senti a necessidade de ser protegida, não de proteger.

— Você sabe que se me virem saindo daqui, amanhã de manhã, você vai ficar mal falada, né? — ele questionou, preocupado.

— Você só vai ficar pra cuidar de mim, então não tem problema, né? — perguntei. Minha inocência estava clara — Não me deixa sozinha, por favor. — pedi mais uma vez.

— Aeryn, sua teimosa. — ele disse, sentando ao meu lado na cama, abraçando-me. Eu não fiz nada além de me aconchegar em seus braços — Não me culpe por danos futuros. — e após uns dois minutos de silêncio e escuridão, beijou-me. Um beijo suave, cheio de carinho, um beijo que dizia “eu estou aqui e vou te proteger”. Deviam ser umas 5h20min, a Lua estava se pondo, mas estava lá, testemunhando o momento.

***

Após alguns dias, o clima entre nós ficou meio estranho. Olhar nos olhos um do outro era uma missão quase impossível, trocávamos palavras apenas para falar sobre o trabalho, mais nada. Aquela noite se transformou numa vaga lembrança, talvez até em sonho. Nós dois gostávamos um do outro, nós dois achávamos isso estranho, achamos que foi um erro.

Certo dia, quando cheguei à Associação, vi Ezra conversando com uma garota, provavelmente novata. Algo bem típico, ele, o galanteador, ela, a ingênua que não vê maldade em seus atos. Até que se beijaram, ferozmente. Não ligavam para o atentado ao pudor, não respeitaram as outras pessoas no ambiente de trabalho. Eu, particularmente, nunca liguei para quem ele se relacionava ou deixava de se relacionar, todavia, daquela vez doeu bem fundo no meu coração e, quando se separaram, nossos olhares se cruzaram.

But when you look at me

(Mas quando você me olha)

The only memory is

(A única memória é)

Us kissing in the moonlight

(De nós nos beijando na luz do luar)

...

I can’t remember to forget you

(Não consigo me lembrar de te esquecer)

Notas finais
E aí? Ainda estou aprendendo a escrever songfics... Alguma sugestão para eu melhorar? Obrigada por ler!