Peculiaridades
2 Interrupção
Notas iniciais
Olívia terminou a torta merengue de limão enquanto lia um livro com fotografias um tanto quanto... peculiar. Nada que fosse muito esquisito, na verdade. Principalmente em se tratando do seu local de trabalho. Tirou o prato do balcão e o levou para a pequena cozinha da loja, encontrando um garoto emburrado perto da janela. Ela cogitou dizer alguma coisa enquanto deixava o prato em cima da pia, mas decidiu que era melhor ignorá-lo. Nem Vicente e nem Adelaide estavam na loja no momento, tinham saído para resolver alguma coisa de magos que Olívia não tinha entendido direito. Ela achava interessante e um pouco engraçado o quanto eles passaram a incluí-la nos assuntos mágicos desde quando, acidentalmente, presenciou uma sala cheia de objetos sendo levitados.
Voltou para o balcão, sentando-se na cadeira confortável de assento aveludado e colorido, ajeitando-se melhor para retornar a sua leitura enquanto esperava por algum cliente que ocasionalmente poderia aparecer ali. Poucos segundos depois, com o canto dos olhos viu Heitor entrar em seu campo de visão. O garoto ainda tinha no rosto uma expressão aborrecida, e agora andava por entre as prateleiras da loja apanhando e recolocando objetos novamente no lugar. Ele estava claramente incomodado e Olívia não conseguia mais ignorar o fato. Heitor era um adolescente bem difícil de lidar, era um pouco rabugento demais para alguém que ainda estava no ensino médio. Olívia fechou o livro e deu um suspiro.
—Heitor... você viu aquela caixa cheia de miniaturas de gatos que chegou hoje?- Olívia começou, tentando parecer casual.
—Eu não quero conversar. — O garoto respondeu áspero.
—Eu achei eles maneiríssimos. -Olívia continuou. — Talvez eu leve um para minha estante de livros.
O garoto só olhou por cima do ombro e continuou mexer nas estantes. Olívia saiu de trás do balcão e andou até a caixa onde se encontravam os mini-gatos de porcelana. Ela escolheu um deles e o levou até onde Heitor estava.
—Acho que esse combina com meus livros sobre o Rei Arthur e os de ficção científica...
—Olívia, eu sei que você não quer mesmo conversar sobre isso... Então quer parar?
—Tudo bem. Eu só...
—Só queria que eu falasse sobre o fato de que eu estou completamente irritado hoje.
—Vocês sabem ler mentes e coisas assim?
—Lógico que não.
—Ah. Ok.- Olívia esperava mesmo que não.
—Eu não vou falar. Desista.
—Bom, já que você não quer me contar, podemos aproveitar para fazermos o seu trabalho de história, né? É sobre as invasões bárbaras e tudo mais. Vai fazer um infográfico?
—Eu já fiz meu trabalho.
—E o de inglês?
—Eu fiz todo o dever.
—Não todo o dever. Ouvi Adelaide dizendo que você precisava praticar um pouco hoje, além de completar algumas anotações novas para aquele diário que está escrevendo...
—Não é um diário. E eu já disse que não quero conversar.
—Eu posso ajudar hm, dando alguma sugestão. Não que eu saiba alguma coisa de magia e tal.
Heitor suspirou e se virou para Olívia.
—Obrigado. Mas não sei como isso vai fazer com que eu me livre do meu novo tutor em teoria mágica. E nem do evento em família nesse final de semana.
—Ah, então isso explica o porquê disso. — A garota apontou para o rosto de Heitor.
—É injusto sabe? Eu não preciso de um tutor. E nem de um evento em família.
—É. Eventos em família são terríveis. Uma vez eu tive que trocar um show de uma boy band formada por um trio de irmãos por um final de semana cheio de almoços e fotografias constrangedoras.
— Você escuta esse tipo de música?
—Escutava. Tá, ás vezes eu ainda escuto. Mas isso não vem ao caso. Talvez os seus tios só estejam preocupados com você, com sua formação como mago, por isso do tutor.
—Eles não pareciam preocupados quando decidiram que poderiam me deixar morando com eles. Acho que resolveram arrumar um tutor para que eu não passasse tempo demais sem fazer nada. Como se o fato de eu ter que alternar minha vida como uma pessoa comum, os treinos e poções não fossem o suficiente para ocupar o meu dia. Eu queria poder decidir algumas coisas da minha vida, só pra variar.
—Ah, bom... ter um tutor em teoria mágica não deve ser tão ruim.
—Só quando ele é seu primo mais velho e perfeito que todo mundo adora.
—Estamos chegando em algum lugar. Se você me contar um pouco mais eu pago um sorvete de chocolate pra você.
—Porque você faz esse tipo de coisa?
—Esse tipo de coisa o quê?
—Arrancar das pessoas coisas que elas não querem contar.
Olívia deu de ombros e depois deu uma gargalhada.
—É que você estava com um mau-humor terrível. Mais do que o normal. E olha que você é bem mal-humorado. Isso é muito pesado para alguém que só tem 17 anos. Você é muito jovem, devia se preocupar mais com a formatura do colégio e com a estreia da nova temporada da sua série favorita e talvez com um feitiço certo para não perder a hora, quem sabe.
— Eu não sou tão mais novo do que você, só quatro anos de diferença. E esses dias você parecia muito mal-humorada pro meu gosto, então vou desconsiderar o que acabou de dizer.
Olívia rolou os olhos e deu um sorriso de escárnio.
—Eu estou te devendo um sorvete de chocolate então.
—Prefiro de Pistache.
—Tá, pistache e chocolate. — Olívia tomou uma peça de um jogo de xadrez com peças egípcias e gregas das mãos de Heitor e recolocou no lugar.
—Já que você não está muito interessado em praticar hoje, que tal me ajudar com as miniaturas de gatinho? Preciso organizá-las em uma das prateleiras e etiquetar os preços.
Heitor encarou a caixa de papelão em cima de uma mesa e com um movimento rápido com as mãos fez com que a mesma flutuasse em direção à eles.
— É, você pode me ajudar praticando. — Olívia disse não mais tão surpresa quanto no dia em que descobriu que trabalhava em uma loja com três magos.
Os dois começaram a enfileirar as porcelanas em uma prateleira perto da vidraça, para que ficassem visíveis. Olívia estava indecisa sobre qual levar, separando todos os que julgava fofos suficiente e que combinassem com o resto da decoração da sua estante. Não trocavam muitas palavras que não fossem em relação ao fato de que gatos são animais enigmáticos e que sorvete era realmente uma das melhores invenções humanas. As horas estavam passando, e depois de terem organizado os mini-gatos, jogado uma partida de xadrez da qual Heitor saíra vencedor e atenderem duas turistas que levaram uma porção de quadros, Olívia percebera que já estava quase no final do expediente.
—Ah, Heitor... Seus tios ainda não voltaram, mas eu preciso fechar o caixa. Acho que podemos fechar a loja também, já são quase cinco... — A garota foi interrompida pelo sino em cima da porta de vidro.
Ela se virou instantaneamente dando de cara com um rapaz que não aparentava ser muito mais velho do que ela. Olívia ergueu as sobrancelhas e logo voltou a seu posto, se recompondo rapidamente para poder atendê-lo.
—Oi, precisa de ajuda?
O rapaz deu uma boa olhada na loja. Tinha os cabelos castanhos, era alto e parecia estar se divertindo com alguma coisa, pois tinha um sorriso formado nos lábios.
—Faz muito tempo que não venho aqui, sabe?
Olívia apenas assentiu.
—Ah, me desculpe. -Ele disse. — Sou o Marco.
Estendeu a mão para cumprimentar Olívia.
—Oi, Olívia.
—Heitor está por aí?- Disse ele apontando para o andar de cima.
O garoto automaticamente apareceu, saindo pela porta da cozinha. Sua expressão relaxada foi substituída por aquela emburrada de antes e ele nem fez questão de disfarçar. Olívia apenas apontou para ele e tentou segurar o riso.
“Então esse é o primo mais velho do Heitor”. –Pensou ela.
—Quer ajuda para fechar o caixa?- Heitor ignorou o primo e se voltou para a garota que estava contando as notas de dinheiro.
—Na verdade não... — ela disse concentrada. – Termino em poucos minutos.
Marco pigarreou. E Heitor se endireitou e fitou o primo.
—Oi Marco.- disse secamente e saiu para ajudar Olívia mesmo assim.
—Oi primo. — disse Marco parecendo ainda mais divertido do que antes. — Você cresceu nesses últimos meses.
— E você não cortou mais o cabelo daquele jeito esquisito. — Retrucou o garoto enquanto jogava os valores em uma planilha enquanto Olívia organizava suas coisas.
Olívia tentava não parecer muito interessada na situação, então se apressou em guardar seus pertences na mochila e deixar as chaves do deposito na gaveta. Arrumou o casaco nos ombros e se virou para se despedir de Heitor, recomendando que ele não se esquecesse de passar os recados que tinha anotado para Adelaide ou Vicente. Deu mais uma encarada discreta em Marco e estendeu a mão para ele, que lançou-lhe um sorriso brilhante que a deixou sem jeito.
Saiu pela porta e andou até o ponto de ônibus, onde alguns minutos depois resolveu precisava ouvir as músicas daquela boy band que ela perdera o show há alguns anos. Revirou a mochila e não encontrou o celular. Colocou as mãos no rosto e começou a correr de volta até a loja de antiguidades, lembrando que tinha largado o aparelho ao lado do livro que estava lendo mais cedo. A cortina verde escuro da vitrine já estava abaixada, mas por sorte, Heitor ainda não tinha trancado a porta lateral, que dava acesso à loja e era praticamente imperceptível para quem passasse por ali sem prestar atenção.
Entrou sem fôlego no ambiente que estava com uma iluminação mais baixa que o normal, variando entre alguma coisa amarelada e vermelha. Ela fez uma expressão surpresa quando viu que Heitor e Marco estavam conjurando algumas formas luminosas quando entrou de supetão. Heitor apenas olhou para Olívia como se esperasse que alguma coisa do tipo acontecesse. Marco ficou um tanto quando espantado e abanou rapidamente as mãos, tentando se desfazer dos resquícios de magia.
—Eu só esqueci meu celular. — Olívia disse sentindo seu rosto queimar. –Até amanhã, Heitor... Hm, tchau.
A garota sentiu uma vergonha incontrolável, bateu com uma das mãos na testa e saiu novamente pela porta lateral, mas não sem antes ouvir Heitor falando com o primo.
—Ela sabe. Está tudo bem.
Fechou a porta devagar e procurou os fones de ouvido e o cartão do ônibus só para se certificar que não teria que entrar de novo.
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