Notas iniciais
Eu fiz essa fic para o concurso "O vilão"~
E agora que o Nyah finalmente voltou, decidi posta-la aqui!

Almas podres, sujas, cheias de ressentimento.

Todas elas se encontravam naquela sala pedindo perdão pelos seus pecados, ajoelhadas para um Deus que não podiam ver, adorando um conforto emocional. Que patético.

Minha alma não era diferente deles, mas ao invés de buscar limpa-la, eu só desejava deixa-la mais podre. Tão podre que nem Deus, nem Lúcifer a aceitariam, e assim poderia enfim atingir a imortalidade.

Os únicos sons ouvidos eram dos meus passos indo em direção ao altar, minha capa negra deslizava suavemente pelo chão de mármore da grande catedral. Uso minha mão para dar impulso e pulo a cerca de pedra que separa o padre dos fiéis.

Ouço um grito vindo da minha frente. “Pecador” é o que a voz diz, “Como se atreve a passar por este muro?!”.

Dou um longo suspiro. “Você quer dizer, este muro que separa o pastor das ovelhas? Ou devo dizer; O criador dos porcos?”.

“Como ousa? Irá queimar no inferno!” o padre grita novamente.

“Se eu for, vou ter de ver sua cara feia de novo” Digo ainda indo na sua direção “Fiquei sabendo sobre todo aquele dinheiro, que você roubou dos fiéis. Me diga onde está.”

“Não sei do que está falando!” a face dele estava rubra pela vergonha e raiva. Os ‘fiéis’ falavam incansavelmente sobre tudo que estava acontecendo, ninguém tentou me parar.

Andei mais rápido e alcancei ele, retirei uma faca da manga, de modo que só ele visse. “Tem certeza, pastor?”

Ele engoliu em seco “Está bem. Pegue este cartão, vá ao banco e a senha está escrita nesse pedaço de papel. Não me mate”.

“Obrigada” Eu sorri, e enfiei a lâmina em sua garganta. “Mas esta senha está errada!”.

Gritos de terror ecoaram pela igreja, alguns tentaram correr para a saída, mas a pesada porta de madeira se fechou rapidamente, o sistema que eu tinha colocado antes de entrar funcionara. Outros tentaram me segurar, mas sem sucesso.

Eu avancei lentamente, uma risada ecoava pela sala, minha risada! As pessoas recuavam amedrontadas, parei e me apoiei em um dos bancos de madeira. Logo senti um calor atingir minha mão e ela começar a formigar, não demorou muito até que todo o banco estivesse em chamas, fui avançando novamente botando fogo e cada mínima peça de madeira.

Agora o espetáculo amarelo, vermelho e laranja se estendiam por toda catedral, eu via as pessoas sendo queimadas vivas, e sorria. O fogo não me afetava, eu havia nascido com aquela maldição, eu podia criar o fogo do nada, do ar! Criar algo que o ser-humano demorou séculos, milênios para descobrir como usar. Então desde sempre meu lema foi:

“Queime-os, queime-os até os ossos, até que eles não estejam mais em seu caminho!”. Meu corpo não é invulnerável, ele apenas não é ferido pelo fogo. Infelizmente minhas roupas não são a mesma coisa, nesse exato momento elas estão totalmente cobertas em fogo.

Dou um suspiro demorado, a bolsa que me esperava fora da igreja continha uma troca de roupas. Quebro um dos vitrais da janela e saio por ali, tento não esbarrar em nenhum vidro que tenha restado, pequenos arranhões são formados em meu corpo, nada demais.

Caminho até o lugar com passadas calmas e leves, ninguém parece me notar em meio a toda aquela algazarra. Passei a caminhar com minha mochila nas costas para o lado oposto a igreja. Uma velha me para no meio do caminho perguntando sobre a igreja, eu respondo que se ela quiser ver o espetáculo é só seguir em frente, pois aquelas chamas não iriam se apagar tão fácil.

Eu rio imaginando horas mais tardes eles mostrando um retrato falado de alguma vitima sortuda que tenha sobrevivido, e essa mesma mulher que me parou cair gritando “Era ele! Eu o vi hoje! Eu vi!”, depois se culpar diversas vezes “Ah como eu não fui adivinhar! Eu deveria ter feito algo, era tão óbvio”.

Aquele apartamento velho que eu estava hospedado agora ficava a poucos quilômetros, não tenho problema em andar.

Chego e antes de me atirar no sofá pego uma cerveja e um cigarro. Vou alcançar a imortalidade antes que essas porcarias me matem. Meu primeiro pensamento é ligar a velha televisão aberta, e, Bingo! Estava passando exatamente o que eu desejava a reportagem sobre a igreja em chamas.

“Nada consegue apagar esse fogo!” Um bombeiro declarou “É como se fosse feito com mágica”, eu ri, mágica é o nome gentil dado as bruxarias. As peripécias de um demônio, e neste caso eu sou o demônio. Não iriam conseguir apagar aquele fogo até que eu quisesse, e eu não queria, aquilo se alastraria para vários quarteirões adiante. Mataria centenas, talvez milhares. Mas quem liga?

“Por todas as informações que tivemos agora, foi um ataque suicida e o incendiário se encontra morto, queimado como todas as outras vitimas agora” Levanto uma sobrancelha, mas o que?! Qual a graça de ser imortal se não souberem que eu estou vivo. Irritado faço com que todo fogo desapareça em questão de segundos, logo perceberão o vidro quebrado e não acharão o resto do meu cadáver e deduzirão: Continuo vivo.

Desligo apenas observando o rosto impressionado dos telespectadores. Ah, esse tipo de pessoas são realmente estúpidas, tenho certeza que elas teriam medo da imortalidade. Eu tive, tive o medo de ver todos ao meu redor, todos que eu amo ao meu redor morrendo e eu ficar apenas observando isso.

Então, eu mesmo os matei. Não teria problema nenhum, se as pessoas que eu amo não existissem, meu medo não existiria. Então se eles realmente me amavam, deveriam ter entendido que estavam em meu caminho e morrido sem reclamar, mas tentarão me matar. Não é terrível?!

Meus pais, meus irmãos, todos! Se bem que eu já deveria ter desconfiado, eles me tratavam diferente desde os meus quatro anos, pelo infeliz acidente de eu ter queimado o cachorro de estimação da família. Também foi quando eu descobri ter poderes, e quando fui trancado num quarto a prova de fogo nu e sem sequer uma cama, eu tomava apenas um banho por mês e era sempre com uma gelada água benta. Comida regulada, uma refeição minúscula por dia, apenas o bastante para me manter vivo. Acharam que podiam me controlar com isso, mas eu só me tornei mais forte, forte o bastante para escapar daquela prisão, daquilo que eles chamavam de viver... Então aconteceu. Minha mãe me chamou de filho do demônio, arrebentou uma cruz de madeira pesada na minha cabeça e começou a recitar salmos da bíblia. Eu me descontrolei, e de repente a casa estava em chamas, minha mãe estava em chamas, aliás tudo estava em chamas.

As cores brincavam em harmonia, o vermelho devorava, o laranja destruía e o amarelo iluminava. Mas não era o fogo, era eu. Eu devorava. Eu destruía. Eu iluminava.

Depois daquilo fui enviado á um orfanato, onde a conheci. A única garota que amei, e a única que me amou. Guardo as cinzas dela até hoje.

Após ela, jamais ousei me apaixonar novamente. Tive algumas noites quentes com mulheres que eu nem sabia o nome, e não me interessava em saber, mas nunca passou disto. Provavelmente essa seria uma dessas noites, eu conseguiria qualquer vadia de um clube aleatório. Não era um vencedor de concurso de beleza, mas não podia negar que eu era invejavelmente bonito, e meu físico também não era nada mal.

Bem, talvez nem todas tenham sido um caso de apenas uma noite. Margareth, ela é interessante, decidiu me ajudar com meu objetivo. O plano dela fora bem mais interessante do que qualquer coisa que eu poderia ter pensado. Eu só teria que fazer uma coisa, ou melhor, 17 coisas. Se eu quebrasse os dez mandamentos e infringisse os sete pecados capitais não seria mais aceito em lugar algum. Um plano genial, mas claro que havia um porém.

Em lugar algum, talvez significasse perder também meu lugar na terra, e então me tornaria nada. Era um risco que eu iria correr.

Um barulho irritante chega até meus ouvidos, batidas pesadas. Vinham do piso abaixo, não me diga que tem aquelas festas adolescentes com batidas eletrônicas aqui?! Meus ouvidos estão me enganando ou a batida está realmente mais perto?

Meu celular toca o som de mensagem, na tela está o número de Margareth. A mensagem dizia “Prove o inferno, como eu provei desgraçado!”. Nesse momento a porta é arrombada e vários homens usando proteção contra fogo entram e me seguram.

Vadia maldita, eu havia confiado nela! Nunca deveria ter poupado a vida dela. Mas foi inocência de minha parte achar que ela esqueceria o que eu fiz com a família dela, mas pensei que Margareth estivesse mais preocupada com a própria vida.

~♦~

O corredor era branco e silencioso, cada passada ecoava entre aquelas paredes. O meu fim esperava naquela porta a metros de distancia de mim, duas luvas de ferro estavam firmemente atadas as minhas mãos para que eu não pudesse usar meu fogo. O frio assento da cadeira elétrica me esperava, meu olho ardia pela pancada que um dos guardas havia dado anteriormente, pelo o que parecia eu era bem conhecido por ali.

Fui amarrado firmemente. Antes da alavanca ser ligada podia ouvir os gritos de euforia.

E então, ligaram.

“Finalmente, este desgraçado morreu, vou tirar a luva para nos livrarmos do corpo dele.”

“Ora senhores” Eu levantei a cabeça com um sorriso quando as luvas foram retiradas “Que caras são essas? Parece até que alguém morreu”. E antes que eles pudessem dizer qualquer coisa, o vermelho, amarelo e laranja voltaram a brincar.

E brincarão por toda eternidade a partir de agora!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!