Pecadores Nunca Dormem

2 I - Primeiras Impressões


"Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem"

Stephen King

A Sra. Crane se orgulhava de dizer que tinha um casamento feliz e que seu marido era o homem mais íntegro do mundo. De fato, Matthew Crane era um homem trabalhador, de palavra e, ela descobrira recentemente, um ótimo pai. Ele sempre colocava os sapatos na frente da soleira da porta, bem alinhados, e nunca deixava seu filho entrar com pés sujos dentro de casa.

Por alguma razão ele não gostava de janelas, mesmo com cortinas bem grossas cobrindo-as. Todas as tentativas de sua mulher de trazer seu escritório para a superfície foram em vão. Matthew comprara uma casa com um porão no intuito de poder trabalhar sem ser incomodado nem por olhos bisbilhoteiros. A porta do escritório permanecia sempre trancada e, salvo em raros momentos, ninguém além de Matthew era autorizado a entrar ali.

Seu filho mais velho, Jeffrey, sabia que o pai era escritor. No entanto nunca chegou a ler nada do pai. Sua mãe dizia que não tinha idade para isso. Já Ashley, a filha mais nova, não tinha idade para saber nem o próprio nome. Era apenas uma recém nascida.

Jeffrey estava do lado de fora de casa quando ele percebeu a primeira coisa estranha. Estava brincando com seu gatinho e rindo de forma estridente. Sua mãe levara Ashley para um passeio e o pai estava lá dentro, na cozinha, escrevendo em seu velho computador branco. A mãe o proibia de se trancar no escritório quando tinha que tomar conta de Jeffrey.

Um homem baixo, usando um terno largo de cor vinho, batia na porta desesperado. Jeffrey parou de brincar para prestar atenção quando o pai abriu a porta e deixou o homem entrar. Antes de fechar a porta, Matthew Crane foi até seu filho. Uma das lembranças mais vívidas de Jeffrey é a imagem da camisa completamente branca e limpa do pai brilhando sob o sol da tarde.

— Jeff, eu estarei no escritório. Não diga nada para sua mãe. Sei que você é crescido e pode muito bem ficar sozinho por meia hora. Eu te compro um sorvete depois, combinado?

Jeffrey não disse nada, apenas assentiu e voltou a brincar.

Duas horas depois, Matthew Crane saiu e pegou Jeffrey no colo. Os dois foram tomar sorvete de cereja. Jeffrey não reparou que o homem de terno vinho nunca chegara a deixar a casa e que a manga da blusa perfeitamente branca de seu pai tinha uma mancha vermelha que não era de sorvete.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.