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— E o arcanjo do senhor ceifará aqueles que se opuserem a ele, aqueles que ousarem afrontar a Lei e desobedecerem os mandamentos. Nasceu o homem para a mulher e a mulher para o homem. Deverá ela ser a ele submissa, deverá ela ser a ele ordeira e paciente. Assim está escrito. — O Livro Sagrado nas mãos, sendo avidamente folheado.

Houay ouvia trêmulo aquelas palavras. Ele queria não se importar, mas depois de crescer vivendo naquela casa, ouvindo a Palavra, ele assumira aquilo e não tinha certeza de que elas não eram mesmo a verdade absoluta como papai acreditava e propagava.

Por um instante silenciou o cômodo.

“Tirai de meu filho o mal encarnado. Tirai dele a presença do demônio. Fazei dele um varão como foram Abraão, Izaac e Jacó.” Orava papai em seu íntimo. As unhas desciam pela sua face deixando vergões avermelhados, quase vertendo sangue. “Afaste de mim o Demônio”.

— Baixe sua têmpera ao chão, Houay. Baixe e ore para que não queime ao fogo do inferno. Ore para que seja agraciado com o trono celeste e não caia nas profundezas do abismo onde o fogo queima eternamente.

Acompanhando o gesto paterno, o menino desceu com a têmpera ao chão temeroso por teus pensamentos, considerando-se sujo e imundo, indigno do reino celeste. Era ele a pior escória da terra. Era?

— De joelho agora. — Disse após uma hora de têmpera ao chão. — Recitarei a Bíblia. Medite, Houay. Medite.

De joelhos. Obediente. Não convinha desobedecer papai. Não convinha afrontar a Palavra.

Houay ouvia a declamação de papai. Ajoelhado no quarto escuro, orando a um Deus sem rosto, um Deus que ele nunca viu, um Deus que o espiava, que lhe cobrava os pecados. Pecados?

— E Deus criou o homem e a mulher. Um para o outro, apenas isso. Nada além disso é natural, Tudo além disso é uma aberração, é a manifestação da Besta e deve ser repugnado.

“Meu Deus. Há dias ele fala dessas citações. Será que ele sabe?”

— Ouviu bem, Houay? Deus criou o homem e a mulher. Um para o outro, apenas isso. Está escrito.

“Sim, ele sabe.”

— Deveis procriar e preencher a terra com teus filhos. — Seguiu papai dizendo, escorrendo os olhos pelo Livro Sagrado. — Somente a junção entre o homem e a mulher podem dar procriações. Nenhuma outra. Tudo além disso é uma aberração e está condenado ao fogo do inferno. Tudo além disso é a manifestação do Demônio, é a presença do Demônio encarnado.

“Sim, ele sabe… desconfia. O demônio está em mim. Ele mora em mim. Mora? Ajoelharei e rezarei. O Onipotente há de tirar o demônio de mim, há de me livrar de meus pensamentos pecaminosos.” Pensamentos? “Ações”.

— O homem para a mulher. — “Meu filho não é uma abominação, não pode ser. O demônio há de passar distante dele. A réstia de demônio que há nele será varrida pelo Sangue do Senhor Onipotente. O Mal não será consumado. Se teu olho direito te traz prejuízo, arranque-o. Não precisarei arrancar meu olho.”

Duas horas em oração naquele quarto escuro, clareado apenas por uma pequena vela tímida que pairava sobre um altar vazio, receptáculo da Palavra Sagrada.

Houay com um olho roxo, herdado de uma bofetada de papai quando deixou escapar um trejeito um tanto delicado ao levantar a xícara de café naquela tarde. A xícara se espatifou no chão e ele caiu sentado. Mamãe nada fez. Fez que não viu. Também não desejava ter um filho possuído. A bofetada foi digna. A manifestação demoníaca o fez merecer.

Depois da bofetada, o quarto escuro e as orações com papai. E depois dele…

— Agora recolha-se ao seu oratório, medite sobre a presença do Demônio e a repudie.

Uma sombra negra pairou sobre a alma de Houay ao olhar para o pequeno armário recostado nos fundos do quarto escuro. Mal ele cabia lá dentro e a claustrofobia o deixava totalmente insano.

— Papai, não precisa. Já me arrependi. — Ousou dizer trêmulo e baixo para não parecer afronta.

Papai olhou por sobre os ombros e sua expressão era aterrorizante.

— Ore. Arrependa-se de teus pecados.

Papai levantou e foi para o fundo do quarto. Abriu a pesada porta do armário e ordenou que o menino entrasse. Entrou. Já havia recusado em outras vezes e sentiu o peso das mãos de papai. E elas eram muito pesadas. No armário totalmente escuro, viu a porta ser fechada e a chave virar na fechadura.

Fechou os olhos. Não suportava olhar para o escuro, para o breu. Procurou ficar inerte e não tocas nas paredes. Se não tocasse em nada, poderia ter a sensação de que aquele cômodo era maior, ainda que sua mente lhe lembrasse a todo momento de que ele mal cabia lá dentro.

Orou? Chorou. Chorou vazio, contido, suplicante ao lado de seus medos. De seus piores medos. O escuro. O armário pequeno. A presença do Mal. O Demônio nele, presente em teus desejos.

Duas horas depois a chave virou. Ele estava totalmente rígido, rangendo os dentes, aterrorizado. Desabou ao chão, correndo como um cão ferido para fora do armário, para fora do quarto escuro. Rastejando. Ele precisava ver a luz. Encontrou na sala.

Mamãe lia o Livro Sagrado sentada no sofá. O olhou de relance com sua típica cara fechada e voltou-se ao Livro. Papai chegou logo atrás.

— Vá para seu quarto. Amanhã oraremos de novo.

Ele levantou e foi para seu quarto. Estava banhado em suor, tremendo de medo, aterrorizado com aquele armário. Com o Deus sem rosto que lhe cobrava os pecados. Com o Demônio que insistia em tomar sua carne.

Tomou um banho e chorou. Contido. O Demônio estava nele e cobrava seu preço.

Enfiou embaixo do cobertor. Ouviu um barulho. Uma pedra acertou a janela. Seu coração bateu descompassado. “Áleq?”

Houay abriu a janela e lá, na penumbra do início do anoitecer, identificou a silhueta de um menino.

— Áleq. — Disse baixinho. Quase formou um sorriso.

A silhueta acenava com os braços para ele ir lá fora. Para sair do quarto e ir vê-lo, para encontrar o amor. Demônio?

“E o pecado? O Demônio está em meu corpo. Está?” “Está. E é muito bom”. “Bom?”

“E se papai estiver certo? E se eu queimar no fogo inferno? E se o Demônio estiver em mim? Crescei e procriai. Mas e minha vida? E meus desejos?”

Pulou a janela e correu. Nos braços do amigo, quase desfaleceu. Amigo?

— Que foi Houay? Você está pálido. Mais do que já é. — Estava um tanto aflito com a situação daquela figura em seus braços. — E esse olho roxo?

— Não é nada. Apenas me beije. Me beije. Preciso assumir o Demônio. Preciso me convencer de que ele é bom. Me beije de novo.

Beijou.

Foi rápido e logo saíram dali.

Papai estava na janela da sala. Papai viu. Tentou chamar o filho mas não conseguiu.

Olhou para a mulher encrostada no sofá lendo o Livro Sagrado. Foi para a cozinha.

Pegou uma faca e com uma pedra começou a dar fio na ferramenta enquanto meditava nas Palavras Sagradas.

“Se teu olho direito te traz prejuízo, arranque-o. Abraão, tome teu filho e sacrifique-o para mim, teu filho será minha oferenda. Se teu olho direito te traz prejuízo, arranque-o”

A faca era afiada. A pedra escapou e o fio lhe entrou nas mãos. O fio estava ficando bom. Pegou de novo a pedra e continuou a dar fio, agora tingindo a faca com seu próprio sangue que vazava do corte.

“Se teu olho direito te dá prejuízo, arranque-o”.

Fiou, fiou, fiou, orando em pensamentos.

Logo Houay chegou. Era um pouco antes do jantar. Entrou pela janela, pelo mesmo lugar em que saiu. Ele não ia ficar muito tempo fora. Imagine se papai descobre.... Descobriu.

Deitou na cama e por um momento, ficou pensando em Áleq. Como ele amava Áleq. Seria pecado? Estaria mesmo com o Demônio no corpo? Mas o Demônio não é avesso ao amor?

E ele amava, como amava. Desde o primeiro beijo. Desde o primeiro toque. Desde a primeira palavra. Era só amor. Amor.

O Onipotente não queria que ele amasse? O Demônio o permitia amar?

Talvez preferisse o Demônio.

Dormiu.

Papai subiu ao quarto do filho. Chegou devagar e abriu a porta. A ferramenta afiada nas mãos. O menino estava lá, dormindo como um anjo.

Anjo?

Demônio.

“Se teu olho direito te traz prejuízo, arranque-o.”

Papai o descobriu, como desejava fazer em outras noites passadas, como desejava...

Viu o corpo dormindo. Que belo corpo. Tão frágil e sensível. Tão suave e meigo. A pele tão macia, propícia ao toque. Tão atraente. Tão sedutor. Tão…

Calafrios em papai. Papai mordeu os lábios inferiores.

Desejo.

Desejo?

Pecado.

“Se teu olho direito te traz prejuízo, arranque-o.”

O menino abriu os olhos. Estava assustado com a expressão de papai.

Talvez fosse gritar, mas papai lhe tapou a boca.

Deslizou a faca pela garganta do filho. O sangue jorrou longe, tingindo de vermelho o lençol, o chão, o corpo de papai.

“Se teu olho direito te traz prejuízo, arranque-o.”

***

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