Pecado
1 Pecado
Notas iniciais
Então, aos sabidos do assunto, não me julgue, pls.
"Não compreende? Nós humanos pecamos porquê o pecado nos traz prazer."
Naquele momentos, aquelas palavras imundas -pecado, prazer — soavam de forma diferente na cabeça do anjo. Talvez fosse o tom de voz de quem as proferiu, ou apenas o real significado delas e seu peso.
Mas Uriel ainda era incapaz de compreender.
"Como pode, como é possível que os seres humanos sintam-se tão bem cometendo atos tão profanos?" indagou o anjo. Seu vôo cedeu suavemente até o humano preso em suas lanças de luz. As asas brancas deixavam penas escaparem sem querer ao posicionar o ser divino ante o impuro. Flutuava ali, sem tocar o chão embora muito próximo.
Um sorriso dolorido moldou-se no rosto do loiro, um fio de sangue ainda escorria pelo canto de sua boca. "O senhor anjo, alguma vez, já experimentou o pecado?" ele perguntou, descaradamente malicioso. "Já sentiu gosto de sangue alguma vez, ou apenas suas lanças provaram deste sabor?"
"Cale-se, imundo!" foi a resposta do anjo, dita em um poderoso grito antes de perfurar com mais uma lança de luz o humano. "Não ouse dirigir à mim essa voz e esse olhar depravado!"
Salomão apenas grunhiu ao sentir-se atravessado novamente, mas logo remodelou aquele sorriso de antes. Era incapaz de se mover, mas falar ainda era possível. "Senhor anjo, parece-me tão pesaroso. Carregas uma grande sina, não?" o tom de voz era agora piedoso "Tens sempre que seguir as ordens Dele, sua vida não pertence à ti. É tão triste tua realidade."
Uriel trincou os dentes; teria acertado o humano novamente mas suas palavras eram tão precisas que foi incapaz de se mover. Como um anjo, não poderia simplesmente negar uma vontade Dele. Não queria acabar como Lúcifer, um demônio traidor.
"És o anjo do arrependimento, por que não arrepender-se uma vez?". Dissimulado. Mesmo com a vida em risco, Salomão tentava seduzir o anjo, tal como havia feito com os demônios que se tornaram seus pilares. "Se a doutrina do Senhor baseia-se em perdoar os pecados, Ele dá à todos o direito de pecar ao menos uma vez, não?"
Uriel recuou, paralisado por um momento. As palavras daquele humano eram como flechas em seu coração, flechas de uma estranha luz chamada 'verdade'. Elas confundiam-no, desviavam ele de seu dever. "Eu sou um anjo do Senhor, não possuo tal direito. Pecar é o pior dos crimes para alguém de meu patamar!" exclamou, e outra lança atirou. Havia de manter-se firme em sua decisão de punir o pecador. Não havia tempo para dúvidas e incertezas.
Mesmo ainda mais debilitado, Salomão não se rendeu. Seu imutável sorriso acompanhado do olhar sedutor mantinham-se intactos diante do anjo. "Experimente, apenas uma vez" dizia com dor em sua voz, movendo os braços com dificuldade até alcançar o rosto do anjo. "Nunca vai compreender os pecadores se não pecar. Isso faria de ti injusto." e sussurrou: "e veja que ironia: a injustiça também é um pecado."
Aquele toque, aquela voz e aquele olhar nublavam ainda mais a mente de Uriel. "Como pode um homem escolhido por Deus ter a lábia semelhante a de um demônio?" indagava consigo. E o pior de tudo era que Salomão não mentia. Era tudo a mais pura e angustiante verdade.
"Experimentar o pecado?" perguntou por fim. Seu olhar caíra tranquilo, pálpebras pesadas e íris já quase sem brilho. Uriel fora, enfim, seduzido.
"Sim" sorriu Salomão, vitorioso "experimente do pecado, e também, do pecador." Tendo o rosto do anjo dentre as mãos, o trouxe para mais perto. "Garanto que se o fizer, entenderá o tamanho prazer que os homens sentem ao pecar."
Uriel foi levado pelas palavras e ações daquele homem impuro, deixando suas lanças desaparecerem, deixando Salomão livre para, outra vez, pecar.
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