Ela nunca gostou de pérolas. Elas eram muito sofisticadas, delicadas e femininas. Oh não. Pérolas deveriam ser usadas apenas por damas. Por isso ela nunca usou seu único bem material. O colar de pérolas de sua mãe. Ela o deixava guardado no bolso. Nas noites mais frias pensava em vendê-lo para comprar um cobertor e comida, mas a ideia logo sumia. Aquilo era sua mãe. Ninguém vendia sua própria mãe. Porém ouve quatro vezes que ela usou as pérolas.

A primeira foi em uma primavera cor de rosa quando as pérolas ainda pertenciam a sua mãe e ela ainda vivia sobre um teto. Ela colocou as pérolas ao redor do pescoço e olhou no espelho. Em sua inocência de criança achou que aquilo a fizesse parecer como adulta. Ela sorriu.

A segunda foi em um verão amarelo. Sua mãe tinha sido despejada de casa. Ela pegou as mãos da filha e a levou até uma casa grande e velha. Envolveu o colar no pescoço dela e beijou sua cabeça. Depois a deixou na frente da casa. E nunca mais voltou.

A terceira foi em um outono vermelho. Ela tinha fugido do orfanato há uma semana. Estava com fome e frio, mas livre. Ela encontrou um garoto com pedaços de céu nos olhos e anjos na risada. Ele envolveu seu pescoço com o colar e encostou deus lábios no dela. Prometeu nunca a deixar. Na noite seguinte ele foi encontrado morto por um roubo mal sucedido. O coração da garota parou.

A quarta e ultima foi em um inverno cinza. Um senhor a encontrou imóvel e azul na rua envolta por neve. Ele viu o colar em sua mão e o colocou no pescoço da garota. E a deixou ser enterrada lentamente pela neve, sem mais nenhum lugar para ir.

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