Peacemaker War

1 Capítulo 1


Jade cantarolava alguma música estranha enquanto preparava suas armas. A garota não era o tipo que usava armas de fogo, preferia as armas brancas, logo era equipada até os saltos das botas com pequenas facas e coisas do tipo.

Eu estava jogado num sofá velho e pouco confortável que ficava no canto da grande sala de espera. As janelas davam para a noite escura e chuvosa, o papel de parede que imitava veludo púrpura estava velho e gasto. Uma noite comum para mandar demônios de volta ao inferno.

— Acha que ele já está pronto? – Apontei para Aaron que olhava tudo de maneira assustada.

— Você era mais novo do que ele quando começou suas atividades como pacificador. – Jade respondeu dando de ombros. – Ele tem se esforçado bastante, vai ficar assustado, atrapalhar um pouco, mas isso é o tipo de coisa que se aprende na prática.

Dei de ombros e encarei meu reflexo.

Eu já havia feito dezoito anos, por mais que eu ainda parecesse um pouco jovem para a idade. Até mesmo Aaron que era quatro anos mais novo era mais alto e musculoso do que eu. Mas isso nunca me atrapalhou em uma boa caçada. Desde quando eu era criança meu pai me ensinou que eu seria subestimado de todos os modos, principalmente pelos anjos.

Os anjos são uma espécie um tanto quanto nojenta. Só porque eles vivem ao lado de Deus acham que mandam no mundo dos mortais. É um caos total quando eles deixam o céu e começam a fazer milagres em todos os lugares, então os demônios ficam chateados por terem menos liberdade do que eles e nós temos que sair metendo bala em todo mundo.

Atirar em anjos e em demônios. Esse é o papel de um pacificador. Por mais incrível e contra os princípios bíblicos e religioso que isso seja, nós, os Pacificadores, somos uma criação de um trato feito por Deus e Lúcifer. Somos mais fortes que os mortais comuns, mas somos mais fracos que uma entidade divina, isso é um saco, pois demônios adoram quebrar costelas.

Levei um susto quando a porta se abriu, saquei uma das colt 45 que eu havia ganho do meu pai. Haviam duas, que eu carinhosamente havia apelidado de Gêmeas. Ambas eram pretas com detalhes em dourado, um pequeno cervo foi entalhado no cabo de cada uma delas.

— Abaixe isso. – Um homem velho e gorducho disse. – Você é atento como sua mãe.

— Obrigado, senhor. – Fiz uma reverencia com a cabeça e coloquei o revolver de volta no coldre.

— Maggie ainda usa o Ceifador? – Ele se referia ao rifle que minha mãe usava nos tempos que era uma pacificadora do Núcleo.

— Não. – Ergui o rifle que estava apoiado na mesa. – Agora ele é meu, ela prefere as armas novas, mas agora ela mal entra em combate já que faz parte do concelho.

Algumas vezes alguns dos pacificadores cometem erros graves que acabam resultando na morte de dezenas de mortais, ou então acabam não fazendo o seu trabalho direito e não punindo as entidades divinas.

— Eu sei que você é Joshua Stoan, mas não sei quem são seus amigos. – Ele disse dando uma boa olhada em Jade e Aaron.

— Essa é Jade, filha de Gamiel Lynen, esse é Aaron Tridao. – Respondi.

O homem olhou com certo desprezo para os outros dois.

— Uma bastarda e um novato não são uma boa equipe. – Ele comentou sentando-se em uma poltrona de couro marrom que ficava ao lado do sofá.

— Bem, a sua opinião sobre a minha equipe não importa, afinal, somos mercenários, não ligamos para você, ou você paga e fica vivo e de boca fechada ou você abre a boca outra vez, fica sem o serviço e talvez sem essa sua vida miserável. – Disse erguendo uma das gêmeas. – Nós não precisamos de você, muito menos da sua opinião, seu velho insolente.

Ele me olhou com uma mistura de admiração e raiva.

— Burke, você está muito velho, eles estão vindo atrás de você, querem se alimentar dessa sua gordura nojenta que passou muito tempo na terra, duvido que você consiga correr, quanto mais lutar contra o demônio mais fraco do inferno. – Continuei enquanto balançava a arma. – Você deixou de ser um pacificador há muitos anos, ninguém liga para você, você já não é mais importante para o Núcleo, minha mãe só mandou ajuda por pena e pelo dinheiro.

Dei de ombros enquanto toda a parte da admiração com que ele me olhava morreu. Eu já havia recebido aquele olhar de raiva uma porção de vezes, geralmente eu recebia ele alguns segundos antes de uma bala atravessar a cabeça do sujeito.

— Agora, me dê o dinheiro e nós vamos chutar algumas bundas. – Falei sorrindo. – Eles estão chegando cada vez mais perto da propriedade, você não tem muito tempo.

— Você e seu pai se parecem muito. – Ele gargalhou. – Você vai ter o mesmo fim que ele.

Me juntei a Burke na gargalhada. Segundos depois sangue escorria da lateral da cabeça dele que estava parcialmente afundada no braço de madeira maciça do sofá. Aaron me olhou surpreso e assustado. Jade continuava com a mesma expressão séria de sempre.

— Aaron, você quer ter a sua primeira caçada agora? – Perguntei checando a pulsação do velho.

— Sim. – O garoto disse como se estivesse completamente confuso.

— Então você terá. – Falei preparando as Gêmeas. – Pois eles chegaram.

Jade foi até a janela e depois sacou uma faca do tamanho do seu antebraço. Eu carinhosamente apelidei ela de Açougueira, pois ela tinha uma coleção gigantesca com facas dos mais variados tipos e tamanhos. A maioria dos pacificadores usava armas de fogo, alguns arcos ou bestas, mas era incrivelmente raro ver alguém usando armas brancas como principal equipamento.

— É, eles estão aqui. – A garota falou. – Achei que o cheiro de porco era do velho.

— Vamos acabar logo com isso. – Falei saindo do escritório.

Jade me seguiu para os primeiros andares, parei de sentir Aaron assim que cheguei na escada, provavelmente o garoto ficou no escritório para proteger o velho, como se ele merecesse qualquer tipo de proteção. Eu deixaria que os demônios o carregassem para as profundezas do inferno, mas não queria ter nenhum tipo de problema com o Núcleo.

— Você tem algum totem? – Jade perguntou.

— Você sabe que eu não gosto de usar esse tipo de coisa. – Respondi dobrando o corredor. – Vá para o outro lado, grite se precisar de ajuda, mas eu duvido que você precise, são seres miseráveis e famintos.

— Estamos famintos, mas não somos miseráveis. – Uma garotinha de mais ou menos seis anos surgiu no corredor. – Olá Josh.

Jade me olhou assustava, fiz um sinal com a mão para que ela continuasse seguindo seu caminho.

— Olá, Bruce. – Sorri para o demônio. – Anda se escondendo atrás de uma garotinha? Qual é? Eu preferia o gangster, as tatuagens eram ótimas.

A garotinha foi se deformando até virar um cara de quase dois metros, ele usava roupas largas e tinha diversas tatuagens espalhadas pelo corpo inclusive no rosto. Seus dentes eram de ouro e seu olho era completamente preto. Mas antes que ele pudesse falar qualquer coisa, acabou voltando para a forma de criança.

— Nós estamos fracos, Josh. – Bruce falou dando alguns paços em minha direção.

Ergui o revolver, mas no mesmo instante o demônio ergueu as mãos fazendo sinal de que não queria brigar.

— Não queremos o velho, a vida dele não foi uma vida boa, não nos dá a energia necessária. – A garotinha falou. – Mas aqueles porcos celestiais estão nos impedindo de nos alimentarmos. Preciso da sua ajuda.

— Bruce, meu querido, eu não ajudo vocês, eu estouro os seus miolos e mando vocês para o inferno que é o lugar de vocês, então vocês fogem e eu estouro os seus miolos outra vez.

— Não importo com isso. – Ele se aproximou. – Mas não está havendo um equilibro entre as relações. Se os demônios acharem que o Núcleo está favorecendo os anjos haverá uma guerra, vocês conseguem lidar com alguns rebeldes, mas será que conseguem lidar com os sete exércitos?

Eu conhecia Bruce, eu já havia confiado nele uma vez, isso quase custou a minha vida. Eu era muito inocente na época, todo mundo sabe que não se pode confiar nos servos do Pai da Mentira, mas eles podem ser tão persuasivos que você começa a se questionar quanto a suas certezas. Eu estava pronto para atirar quando Aaron puxou o meu braço.

— Leve ele ao conselho. – O garoto falou confuso.

— Não. – Respondi mirando na cabeça da garotinha com o braço que me restava livre.

— Josh.

— Não. – Em menos de um segundo um buraco decorava o meio da testa da garotinha, fumaça saia do buraco na cabeça dela, assim como saía do cano da Gêmea. – Não confie em demônios, agora se prepare que o negócio vai ficar selvagem.

Aaron me olhava perplexo enquanto o demônio virava pó. Sua expressão mudou diversas vezes, lágrimas brotaram nos olhos verdes, a pele clara estava ficando vermelha de raiva. Eu sabia que ele não estava pronto, não gostei dele quando minha mãe disse que ele nos acompanharia. Não gosto dele agora.

— Eu não sou o seu inimigo. – Soltei o meu braço. – Ou você luta, ou você sai daqui e não me atrapalha. Jade pode achar que você está pronto, mas eu sei que você não está, se você foder essa missão eu mesmo acabo com você.

Aaron sacou o revolver sem dizer nenhuma palavra e seguiu pelo mesmo corredor que Jade. Fui até a porta da frente checar se nenhuma criatura estava rondando a propriedade para um ataque mais elaborado.

Pela janela eu consegui ver Jade caminhando no segundo andar da casa. A atmosfera do ar estava fria e macabra, algo bastante comum quando você está na presença de seres do inferno. A propriedade era uma velha fazenda, uma floresta um pouco densa demais para o meu gosto cercava a propriedade. Morar num lugar assim quando você sente que será caçado por demônios e anjos é burrice.

— Josh. – Jade gritou da porta. – Não tem mais ninguém.

— Você acha mesmo que aquele lixo do Bruce viria sozinho? – Perguntei.

— Talvez ele tenha vindo sozinho para fazer um acordo, mas você atirou na cabeça dele. – Aaron disse irritado.

Me virei para responder o garoto, então senti uma forte pancada na cabeça. Senti o meu corpo batendo no chão.

— Merda. – Disse enquanto a minha visão escurecia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.