Peaceful
1 O Correr do Tempo
Notas iniciais
Ela foi feita como uma forma de comemoração pelas 10.000 visualizações da fic e pelo seu primeiro mês completado hoje, mas nada além disso.
O sol parecia um grande invasor no espaço pessoal de Arthur; mas não havia um lugar para onde ele pudesse fugir, já que estava no banco de trás do sedã da família. Sua mãe estava no banco da frente, seu pai dirigia, e ao seu lado, no bebê conforto, sua irmã Olivia dormia confortavelmente.
Só está confortável porque eu estou pegando sol, pensa ele, mas logo em seguida arrepende-se de ficar com inveja de sua pequena irmã. Não era culpa dela que ele estava meio azedo naquele dia.
– Ei, acho que estou vendo uma ruguinha no meio dessas sobrancelhas. – sua mãe estava parcialmente virada para ele.
Arthur tentou sorrir em resposta ao olhar amável dela, mas sua cabeça estava em outro lugar.
– Quer conversar? – sua mãe pergunta.
Ele nega com a cabeça. Sua mãe concorda e vira-se para a frente novamente depois de checar se Olivia ainda estava dormindo.
Arthur consegue perceber os olhos de seu pai através do retrovisor, observando-o, mas tentou ignorar.
A rodovia estava consideravelmente calma para um 4 de Julho. Ao longe Arthur conseguia ver a placa de Boas Vindas da cidade de Coast City. Finalmente estavam chegando ao seu destino.
Seu pai optou por uma rota mais afastada da cidade, o que era até melhor, pois assim o carro seguia quase que lado a lado com o oceano.
Algumas poucas curvas e então o sedã dobrou uma última vez para a esquerda, indo em direção à uma majestosa casa de praia, que ficava praticamente de cara para o mar. As ondas quebravam calmamente na areia branca à 100 metros da propriedade.
Os sinais de mais gente no local começaram com a amostra dos carros estacionados ali perto. Ao que parecia, eles eram os últimos a chegarem.
A sensação de esticar as pernas depois de duas horas sentado era maravilhosa. Arthur alongou-se rapidamente, um sentimento de nostalgia conseguiu instalar-se em seu peito com a recepção que ele e sua família receberam assim que desceram do carro.
Seus primos aproximaram-se todos de uma vez. Ao que parecia, já estavam disputando uma espécie de jogo na praia, todos estavam suados e todos estampavam o mesmo sorriso animado.
Kate, sua prima mais velha, foi quem o abraçou primeiro, depois, seu irmão Casey e a mais nova, Beatrice. Seus pais cumprimentavam-se entre si. Sua Tia Sara babava com a fofura de Olivia, era a primeira vez que sua irmã ia à uma reunião da família. Seu Tio Benjamin, conversava com o pai de Arthur, Thomas. Dava para notar que o sorriso de ambos era exatamente igual, e o garoto sabia de quem eles o haviam herdado.
Todos se dirigiram à casa, onde mais pessoas logo aproximaram-se para recepcionar os novos integrantes da festa. Arthur já conhecia todos aqueles rostos. Seus Tios Jonah e Amelia os recepcionaram com os sorrisos mais brilhantes de todos, o motivo era claro e saliente na barriga de Amelia: mais um membro da família chegaria em breve, e seria um menino, como ambos estavam anunciando à todos em meio à sorrisos e abraços.
Ao que parecia, o único que não estava presente era seu tio Connor, que ainda estava curtindo sua Lua de Mel ao lado de Mhalia, sua esposa, no Taiti.
Arthur sempre guardara secretamente sua preferência por passar mais tempo com os mais velhos do que com seus primos. Mas desta vez ele estava deixando à vista de todos, pois assim que entrou dentro da casa, foi direto para os braços da avó, seu sorriso brilhante aquecia o coração do garoto como se uma pequena fogueira acendesse toda vez que ela o abraçava.
Para alguns era estranho sentir aquele tipo de conexão tão forte com seus avós, mas Arthur não se importava. Os últimos meses não tinham sido muito bons para ele na escola, e o dia anterior foi o estopim. Ele realmente precisava do amor e do carinho especial que recebia deles.
– Olá, passarinho. – sua avó o cumprimentou com o apelido carinhoso que ela usava para ele.
Arthur não respondeu, apenas a abraçou mais forte.
– Onde está o vovô? – ele ouviu alguém perguntar.
– Nos fundos. – sua avó respondeu.
Arthur soltou-se de sua avó e foi cumprimentar os outros que ainda não tinha visto. Andou até os fundos da casa, onde encontrou seu Tio Diggle tomando cerveja junto com seu avô. Diggle não era realmente tio de Arthur, mas sua Tia Sara era filha dele e havia casado com seu Tio Benjamin, irmão de seu pai. Diggle e Lyla, sua esposa, eram amigos dos avós de Arthur há tantos anos que se alguém perguntar o tempo exato, nenhum dos envolvidos sabe responder.
– Hey, finalmente chegaram. – seu avô Oliver comentou quando o viu se aproximar. – Venha cá e me dê um abraço. É impressão minha ou você esticou feito um palito desde a última vez?
– Foram só uns 3 centímetros. – Arthur comentou, sorrindo.
Oliver sorriu também; as rugas nos cantos de seus olhos tornando-se mais proeminentes. Os cabelos sempre bem cortados dele pareciam mais brancos do que da última vez também, mas Arthur sempre o viu como um grande exemplo a ser seguido, principalmente por sua idade e experiência. Mesmo beirando os 80 anos, ele tinha o corpo forte, e seus olhos, que eram idênticos aos de Arthur, transmitiam uma vitalidade invejável até para o garoto que mal tinha chegado à pré-adolescência.
***
Tudo parecia ocorrer perfeitamente bem. Todos estavam felizes, a alegria enchia o ar de uma maneira tão completa que era quase como se pudesse ser tocada.
Mas um coração ainda sentia um vazio. Um pequeno e jovem coração não estava feliz por completo.
Já eram quase 8 da noite, a família toda estava reunida dentro da casa, conversando e se divertindo depois do jantar. Os adultos bebiam vinho, as crianças inventavam novas brincadeiras toda vez que alguém cansava do jogo anterior.
Arthur escapou da algazarra sem ser notado. Mesmo tendo rido em algumas partes do dia e até se divertido de verdade, ele não conseguia parar de pensar em um par de olhos castanho-amendoados que provavelmente estavam há vários de quilômetros dali.
Então ele decidiu andar pela praia, isso sempre pareceu funcionar para ele. Depois de alguns minutos, Arthur sentou-se de frente para o mar. Fechou os olhos e concentrou sua atenção no barulho das ondas ininterruptas, que só se silenciavam quando desapareciam na areia da praia.
Ele estava tão concentrado naquilo que não notou quando seu avô sentou-se ao seu lado.
– Há quanto tempo está aqui? – perguntou Arthur, quando finalmente abriu os olhos e o encontrou ali.
Seu avô parecia distante também, o olhar perdendo-se na escuridão do mar à frente deles.
– Alguns minutos. – falou ele por fim – Esse é um ótimo lugar para vir espairecer, muito eficiente. Faço essas caminhadas noturnas por aqui toda vez que sua avó me dá uma puxada de orelha. – ele ri.
Arthur ri também, imaginando os dois brigando. Diggle uma vez comentou que eles costumavam brigar muito quando eram jovens, e ele é que tinha que aconselhar o avô de Arthur à perceber que sua avó estava certa, porque é claro, ela sempre estava.
– Quem é ela? – pergunta seu avô de repente.
Arthur o encara, o coração tomado pela surpresa. Mas por que a surpresa? Seu avô sempre fora ótimo em ler os sentimentos das pessoas.
– O nome dela é Ivy. – respondeu ele – Somos parceiros nas aulas de Biologia.
Ele concorda com a cabeça, mas não diz nada.
Ambos voltam ao silêncio, até que algumas dúvidas começam a surgir na mente agitada do garoto, e ele pergunta:
– Como você percebeu que amava a vovó? E como fez para descobrir se ela também te amava?
Oliver riu. Tantas lembranças vinham à sua mente.
– Acho que desde a primeira vez que a vi. – falou ele, os olhos azuis perdidos em memórias antigas. – Não sei, realmente não sei o momento exato em que percebi que a amava. Mas o momento em que eu tive certeza de que passaria o resto da minha vida ao seu lado, ah sim, deste momento eu lembro muito bem.
Arthur sorriu. Parecia uma boa história a ser ouvida. Oliver olhou para o neto com um sorriso, e com um aceno de cabeça, percebeu que deveria dar continuidade.
– Foi há muito tempo, – comentou ele – em uma época em que eu estava bastante perdido, um momento do qual eu não me orgulho; em que nem eu mesmo acreditava em mim.
Toda a família de Arthur conhecia por alto o passado agitado e perigoso que Oliver teve, mas ninguém nunca entrava em detalhes.
– Mas a sua avó acreditou. – ele sorriu, continuando – Eu não sabia que rumo seguir e ela segurou minha mão e me mostrou o caminho. Eu sempre quis que ela fosse feliz, e quando ela me mostrou que a sua felicidade era ao meu lado, nossa, acho que nesse dia eu chorei pela primeira vez, de alegria. – Oliver sorriu, os olhos embaçados. – Esse também foi o momento em que eu percebi que não importava qual burrada eu fizesse, ela sempre estaria ali.
Mesmo depois de tanto tempo, depois de ter conseguido construir uma família ao lado da mulher da sua vida, de ver seus filhos crescerem, casarem e terem seus próprios filhos, Oliver ainda sentia que a qualquer momento poderia acordar daquele sonho. Parecia apenas surreal demais.
Depois de tantos anos vivendo em um inferno, de repente, em um dia, um anjo loiro entrou em sua vida, mordendo uma caneta vermelha e atrapalhando-se com suas próprias palavras. Sem perceber, ela foi tomando o coração de Oliver, sem perceber, ele foi entregando-o aos poucos.
Ele sabia que nunca se arrependeria de ter escolhido estar com ela.
Cada sorriso, cada olhar, cada toque, cada lágrima, cada discussão, cada reconciliação, cada pensamento, cada parte de seu ser. Tudo. Tudo ainda estava vivo na mente de Oliver como se fosse ontem, e tudo ainda reclamava por aquele par de olhos azuis doces e perspicazes em que ele se perdia todas as manhãs, quando acordava e os encontrava brilhando ao seu lado.
– Não conte isso para ninguém. – falou Oliver – Mas até hoje eu me pergunto como fui ter tanta sorte. – sorriu ele.
Arthur o olhou, admirado. O amor que seus avós sentiam um pelo outro era invejável.
– Espero ter essa sorte algum dia. – comentou ele, baixinho.
– Você terá. – Oliver comentou, bagunçando o cabelo do neto – Quando você menos esperar, quando você entrar distraído em um restaurante e pedir uma porção de batatas fritas e então olhar para o lado e ver uma garota linda te encarando. Ela vai sorrir para você e seu coração naquele momento vai saber, mesmo que na superfície você demore para notar, lá no fundo, você vai saber. É ela. E então você vai lutar por ela, e ela vai lutar por você, e quando os dois perceberem, estarão vivendo em uma casa de praia, com três filhos, dois cachorros, cinco netos e mais um à caminho. – Oliver ri. – Pode ser a Ivy, pode ser alguma garota que você já conhece há anos, ou pode ser essa garota da lanchonete. A questão é: não planeje, não viva por esse momento, quando for a hora certa, vai acontecer.
Arthur concordou. Sim, seu avô tinha razão.
– Ei! O que estão fazendo aqui?
Ambos se viram para a voz que os chamou. É ela.
Oliver sorri, um sorriso brilhante que ilumina a escuridão da praia. Arthur o observa se levantar, ir em direção à sua avó e a beijar amavelmente. Ela sorri com o gesto.
– Só conversando. – responde ele por fim.
– Bem, os fogos já vão começar. – falou ela.
Ele concorda e então olha para o neto.
– Você vem?
Arthur pensa por alguns segundos. Sorri e levanta-se, o sentimento de insegurança e medo ficando no mesmo lugar, enquanto ele seguia de volta para a festa.
Oliver deixou o neto ir na frente, passou um braço em volta de sua esposa, que retribuiu o gesto com um braço em volta dele.
– Dança comigo? – perguntou ele.
Ela o encarou, um brilho divertido no olhar.
– Pensei que você nunca dançasse. – falou ela.
Ele sorriu.
– Vamos, eu já quebrei esse paradigma no dia do nosso casamento. – ele estendeu a mão à ela.
Ela o encarou. Depois aceitou e juntou sua mão à dele.
E eles dançaram. Com o barulho do mar como orquestra, e o brilho dos fogos de artifício iluminando seus sorrisos.
– Eu amo você, Senhora Queen. Já disse isso hoje?
Felicity riu.
– Já. Mas é sempre bom ouvir. – falou ela, e então se aproximou mais, sussurrando no ouvido de Oliver: – Eu também amo você, Senhor Queen.
Oliver fechou os olhos, ele nunca se cansaria de ouvir aquilo. Mesmo depois de tantos anos e de tudo o que ele já havia passado, o seu eu de antes de Felicity Smoak jamais imaginaria um futuro como esse. Apesar dos altos e baixos, tudo se encaixou; e ele não conseguia imaginar nada, absolutamente nada que ele quisesse mais do que passar o resto de seus dias vivendo daquela maneira.
A vida era completa, afinal.
Notas finais
Espero que vocês tenham gostado. Mais uma vez, muito obrigada por esse primeiro mês da fic. Sábado sai o novo capítulo de Trapaça. Beijos!
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