Paz na Guerra
8 Sozinha
Notas iniciais
O sol não aparecia a pelo menos dois dias, ao menos era isso que a garota de cabelos castanhos julgava ao olhar pela pequena janela quebrada do sótão onde estava presa, segundo suas contas havia se passado uma semana desde que Douglas, o chefe de Mieczyslaw havia ido lhe visitar, na casa de seus sogros, alegando ter uma carta do marido, mas, sem mais nem menos, fora capturada, enquanto estava sozinha com ele, como se fosse uma criminosa, alguém que deveria ser punida simplesmente por existir. Ela sabia disso, sempre soube que no momento que o marido que tanto amava fosse para a guerra, não estaria mais segura, apesar dele sempre dizer o oposto.
“—Malia, já lhe disse, eu vou ir. – Disse o garoto sorrindo enquanto mexia em uma mexa do cabelo da garota de maneira carinhosa. – Sabes que no momento que eles verem meu nome na lista, minha família vai adquirir o respeito que nunca deveria ter perdido e por consequência, você vai estar protegida também.
-Miecz, não é tão simples assim. – Disse a ela com uma lágrima solitária brotando de seus olhos castanhos. – Sabe que eles estão caçando todos os judeus, e infelizmente eu sou também, não é porque me casei com você que estou livre do terrível destino que me espera.
-Então, vamos embora daqui Malia, antes que tudo piore, vamos como refugiados, seguimos beirando as fronteiras e no primeiro navio para fora de Berlin, embarcamos, vamos estar seguros, principalmente você.
-Mas não é isso que você quer. – Disse encarando a imensidão dos olhos castanhos do marido, que se encontravam triste. – Sei muito bem que quer recobrar a boa reputação do nome Stilinski perante a sociedade, que sempre quis ser um herói de guerra e essa é sua vez.
-Mas e quanto a você Malia? Não vou suportar te perder! – Disse o garoto beirando o desespero com a possibilidade da esposa ser levada enquanto ele não estava próximo.
-Vou ficar na casa de seus pais, eles vão me proteger. – Disse ela com um meio sorriso triste. – Vai e cumpre o seu destino e depois seguimos nossa vida.
-Eu não seria nada sem você, sabia? – Disse ele antes de selar seus lábios em um beijo calmo, porém, repleto de tristeza e medo, medo da perda que poderia ocorrer para qualquer um dos dois”.
Sua barriga doía pela constante falta de alimentos, sua boca estava seca devido à falta de água e o medo constante de Douglas aparecer lhe preenchiam de agonia, pois, desde que fora capturada, esses eram os sentimentos que mais sentia, medo, agonia, e saudades, saudades de Mieczyslaw e da vida que levavam antes dele decidir que iria para a guerra, além de culpa, afinal, ele entenderia se ela quisesse fugir, com certeza estariam tendo uma boa vida em algum outro lugar, porém, sua teimosia como de costume não permitiu que isso acontecesse.
-Vejo que a donzela está acordada. – Disse o homem loiro ao entrar no velho sótão com um sorriso debochado. – Já se passaram três dias desde que mandei seu marido pra uma missão e acho que vou compartilhar com você, afinal, provavelmente ele já deve estar morto, ainda mais se analisarmos todos os fatores da guerra
Malia não queria falar, não se daria por vencida, por mais que o homem continuasse falando de Miecz, ela não acreditava no que ele dizia, afinal, seu marido nunca iria em uma missão suicida, sabendo do que poderia acontecer, a menos que fosse forçado, ao perceber isso, olhou para o homem que sorria de maneira debochada e deixando o orgulho de lado, perguntou:
— O que fizeram com ele? – A garganta ardeu devido à falta de utilização da voz nesses dias e falta de água, pois, desde que fora presa, tinha apenas uma refeição por dia.
-Vi que a mocinha finalmente se interessou. – O sorriso do homem aumentou, dessa vez beirava a loucura e a felicidade com a situação. – Ele estava sendo muito útil em nossos campos de guerra, convenhamos, mas, como sabemos, os Stilinski não agradam mais tanto nossos superiores como era no passado, talvez, por terem manchado o sangue com casamentos infundados...
Malia grunhiu mediante a colocação do homem, sempre achou um absurdo essa história de sangue superior, que deveria predominar, assim como toda a família de seu marido acreditava que todos eram iguais e nada os diferenciava, Douglas encarou-a de maneira raivosa, o que fez encolher-se na velha cadeira antes dele continuar.
-Como eu falava, ele estava bem nos nossos campos, mas isso nos irritava, então, como tínhamos você em nosso poder, decidimos unir o útil ao agradável, então, porque não termos mais dois vermes mortos ao invés de somente um? – Disse ele com um sorriso desdenhoso no rosto, o que causou calafrios em Malia. – Mandamos seu marido para um campo americano, pra se infiltrar, mas sabe Malia? Sabe o que é o melhor nessa história? – Mediante o silencio da garota, o homem continuou. – Eles matam os infiltrados, uma morte lenta, tenebrosa, dolorosa, se eu fosse você, não gostaria de saber que sou um dos motivos da morte de uma pessoa que gosto tanto.
As lágrimas continuavam escorrendo fervorosas pelo rosto magro e cansado da garota, ela não sabia mais o que falar, não após ouvir a emboscada em que Stilinski havia se metido, por culpa dela, por ela não ser da mesma religião, pela família dele não se importar com isso e ainda dar todo o apoio do mundo quando o rapaz a pediu em casamento. Malia sabia que o homem em sua frente estava esperando que ela estourasse, que falasse as palavras que ele queria ouvir a tempos, mas não se daria por vencida, enquanto haviam chances de escapar e de seu marido sair livre da guerra, ela o faria, ficaria em silencio, e torceria pra que no fim, ninguém se machucasse mais do que já estavam.
-Vejo que vai ficar quieta por mais um tempo. – Disse o homem a encarando de maneira gélida, o ódio podia ser sentido em sua pele machucada pelas cordas da cadeira. – Então, sofra, porque a morte dele vai estar nas suas mãos e não nas nossas, nem na dos americanos que vão ao executar o jovem Stilisnki, quero ver aguentar esse fardo. – O homem caminhou lentamente até a porta, com um sorriso cínico estampado em seu rosto continuou. – A culpa será sua, totalmente sua!
A porta se fechou em um baque seco, e isso a libertou, libertou seus medos, seus demônios, a tristeza por estar sozinha, sem ter saída, e com isso, Malia chorou, chorou mais do que nunca na vida, despejando nas lágrimas geladas tudo o que sentia no momento, esperando que nada de ruim acontecesse com Miecz.
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