Paz Temporária - Olhos Amaldiçoados
31 Epílogo
Aquele dia fatídico ficou marcado na história de Solene como “a tomada de Sahoc”. As coisas levaram cerca de um mês para se acertarem. Alguns Harrisons fugiram, outros mudaram de lado e o restante morreu, mas nunca encontraram o corpo de Lucas. Naquela mesma semana, houve uma grande cerimônia em homenagem a todos aqueles que morreram durante a guerra entre as duas famílias dentro do cemitério da família Valentine. Eles começaram oficialmente seu “controle” sobre a cidade depois de umas três semanas, mas quase nada mudou... Pelo menos não para pior. A coexistência entre os cidadãos de Sahoc e os Valentines se tornou objeto de estudo de vários pesquisadores que não conseguiam entender como aquela mistura conseguia dar tão certo. Bunny manteve todos os padrões de comando de Jade com Ana como seu “braço direito”, para o alívio de todos. Jackie e Cherry voltaram para Harvyre logo depois da cerimônia, mas mantiveram o contato com seus antigos companheiros. Harry e Lisa se “desvincularam” dos Valentines e voltaram às suas vidas normais, onde lutavam para alcançar seus sonhos.
Anos depois, um homem velho com cabelos grisalhos, óculos e uma voz rouca guiava um pequeno grupo de pessoas pelo museu mais famoso de Solene. Os turistas olhavam admirados todas aquelas obras de arte maravilhosas que enfeitavam as grandes paredes de mármore branco do local. O senhor parou em frente a um deles. Era uma grande pintura na horizontal com a imagem de um belo jardim com flores multicoloridas e árvores perfeitamente posicionadas a iluminadas pelo pôr do Sol. Ao mesmo tempo que as cores vivas alegrarem qualquer um, o fato de o jardim não conter nenhum ser vivo passava uma sensação leve de tristeza ou melancolia. O guia apontou para aquela obra, encheu o peito e começou a falar:
– Essa, meus senhores uma das mais novas pinturas de um artista novato, mas que está conquistando cada vez mais espaço no mundo artístico atual: Harry Valentine.
As pessoas olharam admiradas e começaram a fotografar a peça enquanto o guia explicava algumas coisas sobre a técnica usada e afins. Durante esse tempo, uma figura observava a cena de longe com um largo sorriso em seu rosto. Era uma mulher com longos e lisos cabelos negros e olhos azuis que trajava roupas sociais masculinas e parecia totalmente satisfeita. Ela encarou a pintura por alguns minutos, sorriu e saiu do local.
Depois disso, ela se dirigiu até um grande anfiteatro e entregou um ingresso a um homem muito bem vestido que guardava a porta. Sentou-se em na primeira fileira e apenas ficou observando o palco. Havia um grande aparato de som e enfeites maravilhosos em toda a parte. As arquibancadas estavam lotadas e pessoas comentavam algo sobre estarem ansiosos para a apresentação. Depois de alguns minutos, as luzes focaram no meio e uma mulher subiu ao palco segurando um violino. Ela ajustou o microfone à sua frente, respirou profundamente e começou a tocar. A melodia era doce e melancólica, capaz de fazer até o homem mais “duro” se emocionar. A apresentação durou cerca de uma hora e meia e quando acabou todos aplaudiram de pé e jogaram rosas no palco enquanto a mulher se curvava e recebia os sentimentos da plateia. A mulher de cabelos negros também havia se emocionado e apenas observava com um largo sorriso no rosto.
Depois daquilo, ela se dirigiu até uma cafeteria e sentou-se em uma mesa onde a mesma mulher da apresentação, um homem de cabelos loiros e curtos e olhos azuis, e uma garota de pele morena, cabelos e olhos negros. As pareceram felizes ao vê-la e logo a cumprimentaram:
– Bunny! – gritou a mulher do violino abraçando-a.
– Lisa, sua linda! – disse Bunny retribuindo o abraço. – Você toca melhor ainda ao vivo! Puta que pariu! Chorei que nem uma criança.
– Ah... Que isso...
– Ela continua com essa timidez em relação ao talento dela, Harry?
– Fazer o quê? – respondeu o homem. – Ela só aceita isso quando vem da nossa filha.
– Mas quem negaria algo àquela pequena? Com quantos anos ela está?
– Vai fazer quatro mês que vem.
– Pelos Deuses! Como o tempo voa.
– Nem me fale... – disse Lisa. – O tempo entre as apresentações está parecendo cada vez mais curto e mal encontro tempo para compor...
– Heh. Você se tornou uma mulher bastante ocupada, hein? E você Jackie? Vai ficar caladona mesmo?
– Não queria interrompê-los. – disse a outra mulher. – Sem falar que estou tomando chá.
– Cadê a... Cherry, não é?
– Ficou em Harvyre. Ela teve uma reunião com seus antigos companheiros, assim como nós.
– Que azar hein...
– Falando nisso. – disse Harry. – Onde está a Ana?
– Ah! Ela teve que ficar. O namorado dela operou o apêndice há uns dois dias.
– Entendo. E como vai a mansão?
– O jardim continua lindo como no seu quadro.
– Ah... Você viu?
– Sim. Dei uma passada no museu antes de ir ao concerto. Você é outro filho da puta talentoso. Imagina a filha. Deve ganhar um prêmio científico de reconhecimento mundial aos dez anos.
Todos riram e chamaram o garçom. Fizeram seus pedidos e ficaram apenas sentados se encarando.
– É... E você, Bunny? – perguntou Lisa. – Como vão as... Coisas?
– Se quer saber se arranjei alguém... A resposta é não. Eu... Até tentei, mas não dá. Acho que a única pessoa louca o suficiente para me aguentar era a Jade.
– Bem...
– Mas fique tranquila! Eu estou bem. Falando nisso... E você, Jackie? Já arranjou alguém?
– Eu? – respondeu Jackie quase cuspindo o chá. – P-por que a pergunta?
– Eita... Essa reação... Jackie...
– O-oi?
– Não sabia que era tão fofa! Esquece o que eu disse! Se estiver solteira vem que eu estou fácil!
– O quê?
Todos riram novamente e Harry cuspiu todo o refrigerante que estava tomando na mesa. O garçom veio e limpou a bagunça em alguns segundos.
– He... Foi mal...
– Você é louca! – disse Jackie. – Mas voltando... Eu... Comecei a namorar o pai de um dos meus alunos esses dias...
– Há! Sabia! Ainda bem que você pode ficar tranquila. Se você ensina defesa pessoal pro filho, então não tem como o cara nem sequer pensar em se apenas se aproveitar de você.
– Heh... Isso é verdade.
Eles continuaram conversando durante o resto do dia. Despediram-se cientes de que se veriam novamente em alguns anos. Todos mantiveram contato mesmo com uma grande distância entre eles. Todos aproveitavam a paz temporária que haviam construído. As coisas nem sempre eram tranquilas, mas eles continuavam seguindo em frente... Por eles e por todos os seus companheiros que já não estavam mais vivos. Bem longe da cidade, no alto de uma montanha, duas pessoas (um homem e uma mulher) observavam o horizonte sorrindo.
– Parece que tudo deu certo no final. – disse a mulher.
– Sim... De todas as rotas essa não é a mais pacífica e nem continuará assim para sempre, mas... – disse o homem
– Você se preocupa de mais, Sett.
– Você quem é tranquila demais, Satt.
– Não importa. Fizemos a nossa parte como consultores e... Isso é o bastante por hora.
– Bem... Nisso você está certa. Os humanos nunca ouvem 100% do que queremos passar e sempre acabam tomando rotas imprevisíveis.
– Mas é exatamente isso que eu amo neles.
– Eu sei... Eu também.
Uma brisa suave passou e as imagens dos dois desapareceram junto com ela, deixando aquela noite fria e tranquila com um toque... “Especial”.
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