Paz

2 Dois


Agacho-me rente a parede e seguro os joelhos. Não consigo controlar o tremor das pernas. A cabeça pende, pede descanso. Lágrimas escorrem pela pele deixando um rastro de que algo está errado, tão errado...

Quero falar, não consigo. Falar a quem? Não sei. A garganta fecha e a mente me engole com pensamentos aterradores. Deixo que a dor me consuma.

O chão frio parece convidativo, deito, e não sei se ainda é noite, ou se já amanheceu. Os pássaros não cantam, ou cantam e não ouço? Não sei.

Não há cobertor, meus dentes batem. Medo? Frio? Talvez os dois.

O estômago reclama, embrulha, atormenta. Não é fome, é medo. Medo de quê? Oh, da tua ausência em mim.

Há gotas no telhado ou são minhas lágrimas batendo no piso? Som amargo.

Amargo é o egoísmo, que engulo, que vomito, que me deixa com um gosto penoso na boca.

O pânico vem e leva minha alma para dançar. A música mortuária enche meus ouvidos. Deixo-me ser arrastada, vaguear. Por que não permanecestes? O refrão da música é um brado eterno por ti, querido.

Não há você. Não há paz. Não há passado. Não há presente. Não há futuro. Ainda há vida?