Paws - Um Amor de Cão
17 Um porto seguro
Notas iniciais
Meus olhos percorreram o quarto, fazendo meu estômago contrair-se de desânimo.
Encolhi-me, pressentindo uma espécie de hostilidade dentro do cômodo, como se algo muito errado existisse no ambiente.
No entanto, eu sabia exatamente o que faltava ali.
Ergui-me da cama, indo me trocar. Escolhi algo para vestir sem um pingo sequer de preocupação, nem olhando direito o que eu tirava do guarda-roupa.
Papai e mamãe não disseram uma única palavra além do costumeiro “bom dia”, aparentando perceber o quanto eu estava abalada e sem vontade de conversar.
Baixei o olhar para as panquecas que havia em meu prato, e senti meus olhos arderem.
Forcei um sorriso quando mamãe afagou minha mão, lançando um olhar significativo de compreensão e compaixão, mas não consegui articular nenhuma palavra.
Apesar disso, senti uma estranha necessidade de sair para fora, até a mureta, como se algo quisesse me levar á conversar com quem realmente entendia o que estava acontecendo comigo.
Assim que terminei de comer, decidi seguir minha súbita inspiração, saindo porta afora sem nada dizer.
Como se eu houvesse previsto, Julia e Isabella estavam lá, conversando uma com a outra em voz baixa.
Julia percebeu minha aproximação, e cutucou Isabella.
– Bom dia, meninas – murmurei.
Elas se entreolharam, me encarando de modo condoído.
– Bom dia, Hermione – Isabella mordeu o lábio – não foi uma noite fácil, eu acho...
Assenti com a cabeça, suspirando.
Julia segurou minha mão, penalizada.
– Também estamos tristes – ela fez uma careta que, não fosse minha angústia, teria me feito rir – Teddy era um bichinho adorável, mesmo sendo.. sabe... não sendo um cão de verdade.
– É – concordei.
– Ainda tenho minhas dúvidas – Isabella piscou – sabe, mesmo agora, com todo mundo sabendo da verdade, eu ainda tenho a impressão que Teddy era uma parte bem distinta do seu namorado. Como uma segunda personalidade... – ela deu de ombros, chateada – Teddy era realmente algo único, não é?
– Sim – pela primeira vez em doze horas, senti um sorriso sincero brotar em meu rosto – impossível haver dois dele.
Isabella pareceu perceber a nostalgia em meu rosto, pois, para minha surpresa, mudou completamente de assunto.
– Bem, não vamos continuar falando sobre coisas tristes. Eu tenho é uma novidade pra vocês... – ela sorriu – adivinha quem me chamou pra sair?
Ergui a sobrancelha, por fim me distraindo ligeiramente.
– Lá vem – bufei, humorada – quem é agora?
– Arg. Não me lembre do... – ela rosnou a palavra “Temple”. Mordi a língua, me sentindo quase culpada ao lembrar do que havia acontecido – mas enfim... eu vou sair pra um passeio noturno com o Edward Cooole!
Julia fez uma dancinha estranha que quase me fez fazer xixi nas calças de tanto rir.
–Cole? Edward Cole? – ela arfou, incrédula, ainda sambando em direção ao chão – o modelo londrino??
– O próprio – Isabella cruzou os braços no peito, com a expressão aérea – a gente se conheceu no bazar beneficente do centro... ele é lindo... tão sensível e ao mesmo tempo tão viril...
– Ai. Poupe-me dos detalhes – grasnou Julia, rindo.
Encarei o olhar sonhador de Isabella e não pude deixar de sorrir. Minha doce e romântica amiga... devia estar nas nuvens.
Aliás, eu meio que entendia aquela sensação.
Ergui a cabeça, sentindo a saudade sufocar ao me lembrar de Rony – o Rony real, o humano completamente enlouquecedor que simplesmente me aprisionara em suas amarras nos últimos anos.
– Deixe de ser estraga-prazer – Isabella fungou – até por que... – ela abriu um sorriso maldoso – certa pessoa também está querendo se declarar pra alguém.
Julia ficou da cor de um tomate.
– Julia! – ofeguei, enfim rindo – ah, não. Pode dizer... quem é o grande conquistador de Julia Hawkins?
Julia ia abrir a boca para responder, mas ela se deteve subitamente, arregalando os olhos em direção á calçada.
Isabella também paralisou ao lado dela, os olhos saltados quase caindo pra fora das órbitas.
Virei a cabeça para o ponto onde elas olhavam, confusa.
E senti o mesmo choque mergulhar em meu corpo, quando percebi o que as havia espantado.
Uma pessoa nos olhava calmamente dali.
– Minha nossa... – Julia gemeu.
Meu coração, que até então batera de modo sutil e suave, simplesmente disparou em meu peito, quase arrancando o ar de meus pulmões.
Minhas pernas bambearam, pressentindo a onda de alegria e espanto que tanto queria dominar meu corpo.
Ele me encarou fixamente, aproximando-se lentamente, sem pressa, como se quisesse contemplar-me o máximo de tempo possível.
O que definitivamente me destruiu — de um modo que eu mal podia dizer se era bom ou ruim — foi fitar os mesmos olhos cheios de adoração e carinho que haviam me olhado durante aquela semana, agora emoldurados no rosto humano que residiria para sempre em meus pensamentos.
A mesma pessoa que havia feito a maior loucura para curar minhas feridas e alegrar meu coração...
Meu corpo reagiu por contra própria, jogando-me em direção ao rapaz ruivo que já estendia os braços para mim.
O abraço foi inevitável e insanamente maravilhoso.
– Rony! Rony!
Rony riu, apertando-me em seus braços, cingindo-me contra seu corpo.
Abismada, senti o dele se sacudir num inacreditável soluço.
– Ah, Hermione... – ouvi-o suspirar em meu ouvido, afagando meus cabelos.
Julia e Isabella pareciam duas cacatuas em polvorosa, rindo e se entreolhando com as expressões surpresas.
O abraço dele pareceu dissipar todas as sensações ruins que ainda residiam em mim, me fazendo sentir segura, amada e inacreditavelmente em paz.
Havia sentido uma falta terrível daquilo...
Finalmente, estava no lugar onde nada poderia me atingir.
– Senti sua falta – ele falou baixinho.
Suspirei, recostando-me ainda mais em seu ombro.
Rony, obviamente, ainda não havia tocado – e talvez não tocaria – no fato de termos ficado juntos todo esse tempo em sua forma animal. De qualquer forma, sua declaração não parecia abranger exatamente sua permanência naquela forma.
E eu entendi perfeitamente á que saudade ele se referia.
– Eu também – sorri, beijando seu rosto, radiante de felicidade.
– Ai, parem – Rony e eu olhamos para Julia, que parecia prestes á vomitar um jorro de arco-íris – essa doçura toda vai me deixar com cáries.
Isabella riu, revirando os olhos.
Senti o corpo dele sacudir com o riso, e o meu, instintivamente, se apoiou no de Rony.
A minha angústia com o que havia ocorrido ainda perturbava minha mente, mas eu estava infinitamente mais confortada agora.
Teddy até poderia ter partido, deixando um vazio significativo em meu coração.
Mas a maior parte dele sempre estaria ali, comigo, na forma daquele garoto incrível, que agora era o centro do meu mundo e a razão da minha vida.
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