Paws - Um Amor de Cão
2 Só por essa noite
Notas iniciais
Congelei, sentindo meu cérebro finalmente acordar, depois de dois dias num torpor deprimente.
A primeira coisa que pensei foi o óbvio.
Não.
Nem pensar.
Logo depois da morte de Bichento...
Olhar para aquele cachorrinho fez vir à tona todas as lembranças que eu tentara enterrar desde o dia anterior.
Você acabou de perder um animal de estimação, Hermione, acusou minha mente. Nem se atreva a tentar ficar com pena desse cachorro.
Eu podia leva-lo ao canil municipal. Lá, eles saberiam o que fazer.
Lancei um olhar rápido para o cãozinho, intrigada.
Não tinha coleira... nenhuma identificação. De onde viera?
Enlameado até as patas, ainda se debatendo na caixa maltrapilha, o pequeno cachorro me encarava de forma infantil e curiosa.
Juntamente do receio e da indecisão, veio-me a raiva de imaginar quem seria tão cruel de abandonar um cachorrinho tão dócil, numa chuva daquelas, dentro de uma caixa fechada. Eu nunca deixaria de ficar impressionada com as barbáries dos seres humanos.
Suspirei, balançando a cabeça.
Sim, eu podia deixa-lo no centro. Mas já estava tarde, e a chuva caía em baldes do céu. Ia ser complicado manda-lo para o canil naquela tempestade.
Ia ver o que fazer depois. Meu instinto solidário falou mais alto, e me fez decidir dar abrigo á ele por aquela noite.
Papai e mamãe ficariam assustados... mas eu simplesmente não podia deixar o pobre cão do lado de fora, naquele tempo horrível.
Ele estremeceu, ganindo.
– Coitadinho – puxei uma das sacolas penduradas na varanda, enrolando-o nela – está com frio?
O cãozinho guinchou, ainda me olhando, enquanto eu o pegava no colo. Era um tanto pesado, o que me fazia desconfiar que já fosse um cão adulto de pequeno porte.
– Vem cá – aninhei-o em meus braços – vamos sair dessa chuva.
O cachorrinho balançou a cabeça animadamente, esticando o focinho em direção ao meu rosto.
– Não, não – ia morrer de tanto chorar se ele me desse uma lambida que fosse. Não podia ficar penalizada demais com ele, ou ia me sentir ainda pior – depois do banho. Vamos limpar você.
Naturalmente, meus pais ficaram surpresos – e quase aterrorizados – quando me viram entrar com a sacolinha trêmula no colo.
– Hermione? – mamãe franziu o cenho – o que tem aí?
Afastei a sacola, e papai pulou de susto quando viu a cabecinha cheia de lama do cachorrinho.
– Achei-o lá fora – me apressei em explicar, sentindo o olhar espantado de mamãe em mim – está todo sujo... estava dentro de uma caixa. Acho que o abandonaram.
Eles se entreolharam, e vi a mesma dúvida que eu tivera em seus rostos. Será que realmente era sensato da minha parte acolher aquele cachorro – mesmo por uma noite que fosse – sendo que eu ainda me sentia esburacada e vazia com a partida de Bichento?
Aquilo não era justo. Nem comigo mesma, e nem com o cachorrinho – que, provavelmente, se sentiria tão bem-vindo em nossa casa hoje, só para ser abandonado outra vez numa gaiola fria de canil no dia seguinte.
Resolvi não ficar pensando nisso.
Tinha decidido ajudar o cãozinho. O que aconteceria amanhã poderia esperar.
– Vou encher a banheira – papai rompeu o silêncio, lançando um olhar tenso para mamãe, antes de subir a escada e se retirar.
Mamãe se aproximou, receosa.
– Acho que não morde. É mansinho – comentei.
Ela segurou suavemente o focinho dele, enrugando a testa.
– Está com alguns arranhões. Está vendo?
Olhei para onde ela indicava. Realmente, havia ali vergões que eu não havia visto. Recobertos pela camada de lama, havia leves ferimentos, próximos aos olhos do cachorrinho.
– Tem mais aqui – arfei, finalmente focalizando as patinhas dele e reconhecendo mais alguns arranhões — será que ele foi maltratado? – indaguei, sentindo-me indignada.
– Acho que não. Parecem ser acidentais – mamãe falou, não segurando um sorriso quando o cachorrinho abanou o rabo, em reação ao seu toque – é bem manso mesmo.
Papai me chamou do andar de cima.
– Pode subir, Hermione!
Levei o cãozinho para cima, levando-o até o banheiro.
Papai me observou enquanto eu o colocava na banheira.
– Eu sei que não vamos ficar com ele – papai disse – mas podíamos colocar um nome provisório, só para não ficarmos chamando-o de “o cão”.
Papai não teve intenção de ser engraçado, mas, mesmo assim, achei graça no seu comentário.
Olhei para o cachorrinho, que parecia encantado da vida com as bolhas de sabão que subiam da banheira, enquanto eu o limpava. Grossas camadas se lama se desprendiam de seu pelo e desciam ralo abaixo, juntamente com a água.
– Hum... – suspirei, pensativa – que tal Inu?
– Meio estranho – vi papai dar de ombros – e Teddy?
– Teddy – assenti, entediada – então vai ser Teddy... por hora.
Apanhei a toalha desgastada que papai arranjara para seca-lo.
Porém, o cachorrinho se sacudiu para expulsar a água, quase nos encharcando e molhando o banheiro inteiro.
– Ah! Teddy! – bufei, sacudindo a cabeça para me desviar dos respingos.
Para minha perplexidade, Teddy se encolheu na banheira, parecendo envergonhado. Podia jurar que sua expressão era a de quem pedia desculpas.
– Eles fazem isso, Hermione – papai se ergueu.
– Eu não sabia – respondi, na defensiva, sentindo minha garganta fechar – nunca tive um cachorro, papai. Só... um gato.
O clima pareceu ficar tenso entre nós por alguns segundos.
Papai afagou meu ombro, aparentando arrependimento.
– Desculpe, filha – ele suspirou, murmurando de maneira evasiva – se precisar de algo, estarei no seu quarto. Vou arrumar um lugar para ele dormir.
Ele saiu do banheiro, me deixando com Teddy.
O cachorrinho se dependurou nas patas dianteiras, levantando-se na banheira, e choramingou em minha direção. Para meu espanto, Teddy parecia quase condoído.
– Tudo bem – estremeci, tentando manter o foco e esquecer o que havia acabado de acontecer – vem cá, Teddy.
O cachorrinho não se mexeu mais, enquanto eu o secava, mantendo-se anormalmente quieto.
– Por quê? – perguntei a mim mesma, confusa – por que largaram você na minha porta?
Teddy me olhou, envergando a cabeça de maneira quase tão confusa quanto eu.
Terminei de limpa-lo, e o levei para meu quarto, onde papai já havia arrumado uma caixa acolchoada ao lado de minha cama, onde Teddy dormiria.
– Bom... acho que é o suficiente – mamãe falou ao entrar comigo – é só por uma noite, não é?
– Sim – mordi o lábio.
Deitei Teddy na caixa, agradecendo meus pais com um aceno.
– Boa noite, querida.
– Boa noite, Hermione.
– Boa noite, pai. Boa noite, mãe.
Assim que eles saíram, fui para o banheiro do meu quarto me trocar para dormir.
Curiosa, notei que Teddy nem saiu da caixa enquanto eu me trocava. Eu não sabia muito sobre cachorros, mas eu tinha certeza que um cão daqueles não ficaria absolutamente parado daquele jeito, como se aguardasse uma rodem de se mexer.
Voltei para a cama, franzindo a testa de perplexidade, me deitando e encarando aquele cãozinho tão estranho.
Doía-me ver que papai não colocara a caixa naquele pedaço do quarto sem querer.
Bocejei, sentindo meu peito pesar ao relembrar quem costumava dormir ali.
– Boa noite, Teddy.
Teddy ganiu, se acomodando dentro da caixa e sumindo de meu campo de visão.
Deitei de costas para o colchão, olhando para o teto.
Uma necessidade estranha me fez dizer o que eu disse em seguida. Talvez uma última despedida, antes de mergulhar na inconsciência. O adeus que eu nunca pude dar.
– Boa noite... Bichento.
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