Paws - Um Amor de Cão
15 (Re)encontro
Notas iniciais
A porta de internação estava entreaberta, emoldurada por um olho curioso, que lhe espiava a fresta.
Abri-a assim que me aproximei, caindo sem cerimônia nos braços de Gina.
Isabella e Julia riram, enquanto ela fingia caretear, parecendo tão eufórica quanto eu estava.
– Me avisaram – Gina deu uma piscadela – deixaram um amigo auror de Rony de olho na clínica – ela me soltou, sorridente – eu sabia que o moleque ia sair dessa... o cara é safado demais pra deixar uma coisinha á toa dessas acabar com ele.
Estreitei os olhos para Gina. Ia soltar um mastim em cima dela e mandá-lo mastigar metade da coluna da garota. Aí eu queria ver ela dizer que foi coisa á toa.
– Credo, Hermione. Foi brincadeira – Gina completou, parecendo perceber minha expressão indignada – ele é um saco, mas é meu irmão também, ta?
– Querem falar mais baixo? — Julia guinchou – a equipe veterinária não precisa saber que o cachorro na verdade é um garoto, ou precisa?
– Tem razão – apertei a mão de Gina, rindo baixinho.
– Senhoritas?
Virei-me para trás, dando de encontro com o doutor Shower.
– Doutor – cumprimentei-o, ansiosa. As meninas acenaram para ele.
– Não vou estender ainda mais a sua espera para ver seu cãozinho – o veterinário deu um sorriso – está nos fundos, no setor de pré-alta. Olívia está o acalmando – ele riu – assim que acordou, ficou completamente agoniado, e quase deixou as meninas histéricas com a bagunça. Deve estar morrendo de saudades de você.
Senti meu rosto se estender num sorriso quase triste.
Claro que Rony estava desesperado. Duvidada que alguém teria contado ao cãozinho sobre o que havia acontecido com sua dona.
Ele nem sabia se eu estava viva.
Podia imaginar a angústia que passara sem problemas. Por que eu vivera aquilo nas últimas quarenta e oito horas.
Enquanto percorríamos o caminho para o setor dos fundos, decidi, naquele momento, tornar nosso reencontro estritamente dentro da relação que havíamos desenvolvido naquela semana.
Rony havia feito com que eu me apaixonasse por ele mais uma vez, e de uma forma completamente diferente e inesperada. Talvez fosse melhor que não soubesse que havíamos descoberto tudo.
Aquela.era uma parte dele que, quando tudo voltasse ao normal, eu nunca mais poderia ter. Teddy preenchera o vazio deixado por Bichento do modo mais altruísta e carinhoso possível, curando a dor que havia me dilacerado e acalmando minha tristeza.
Então, decidi que estava na hora de não só reencontrar meu cãozinho... mas também me despedir.
Teddy e Bichento sempre seriam meus queridos bichinhos de estimação. Ambos haviam entrado na minha vida de modo imutável, e isso seria parte dos melhores momentos de minha vida.
Mas meu coração não agüentaria sofrer outra vez por um animal – fosse ele verdadeiro ou não.
Portanto, podia continuar atuando por mais algum tempo, vendo, em vez de meu namorado transfigurado, apenas o cachorrinho adorável que roubara meu coração.
Finalmente, entrei numa ampla sala repleta de almofadinhas e brinquedos caninos, que contrastava absurdamente com o ambiente frio e tenso do setor de internação,
Num dos cantos da sala, vi uma auxiliar de cabelos negros, ajoelhada diante de uma das almofadas e parecendo afobada, tentando acalmar um pequeno cão que pulava, aparentando agonia com as ataduras que ainda lhe revestiam as pequenas costas.
Um pequeno olhinho esverdeado finalmente me focalizou, e o cãozinho enrijeceu imediatamente, o espanto toldando sua expressão.
Meu sorriso finalmente se destravou, genuíno e aliviado.
Ajoelhei no chão, pousando as mãos no tapete macio, sem desviar os olhos dele.
Gina arfou atrás de mim. Apesar de já estar ali, estava claro que ainda não o vira antes que eu chegasse.
– Teddy – sussurrei, degustando do nome que havia lhe dado todo esse tempo, saboreando cada letra, sabendo que em breve nunca mais iria dizê-lo – ei, garoto. Sou eu.
O rabinho, antes imóvel, começou a balançar de modo desenfreado, embora o corpinho ainda estivesse endurecido de choque.
Senti meu coração se desmanchar quando percebi, no olhar lacrimejante, o reconhecimento soluçante e alegre, embora os pequenos olhos saltados parecessem não acreditar no que viam.
A auxiliar – Olívia? – se afastou, sorrindo.
– Vem aqui, rapaz – senti meus próprios olhos se encherem de lágrimas, abrindo os braços – vem aqui.
Julia deixou escapar um guinchinho de emoção quando ele ganiu, desvencilhando-se da almofadinha sob suas patas e galopando vigorosamente em minha direção, como se não houvesse chão sob seus pés.
Quando o acolhi em meus braços, todo o terror dos últimos dois dias pareceu nunca ter existido.
– Teddy, Teddy – cantarolei, apertando-o num abraço.
Senti o corpinho pular em meu colo, como se quisesse aninhar-se completamente em meu ombro. Ele tremia, mas podia ver, condoída e contente, que não era mais de dor. O choramingo aflito dele, enquanto fungava em meu pescoço, ecoava na sala de pré-alta,
– Está tudo bem – falei, afagando seu pescoço – tudo bem, Teddy.
Seu focinho encostou delicadamente no corte que havia em meu rosto, e seus ganidos aumentaram.
Julia a Isabella me cutucaram, enquanto Gina ria. Ergui a cabeça, ainda acalentando o cãozinho que carregava, e me deparei com Olívia tentando enxugar, em vão, uma lágrima que caía.
Até Rony envergou a cabeça, parando de chorar e olhando curiosamente para a auxiliar que o tentara amansar.
– Ah, parem de me olhar assim – ela deu uma risadinha envergonhada – sou uma profissional, mas também tenho coração.
Sorri para ela, erguendo o cãozinho, sem solta-lo de nosso abraço.
Isabella fungou atrás de nós. Gina se aproximou de mim, abraçando eu e Rony.
Já Julia parecia ter escolhido aquele exato momento emotivo para soltar suas costumeiras palermices hilárias.
– Gente, eu vou chorar – ela grunhiu – e eu não quero. Por isso a Hermione vai pagar um Big Mac pra todo mundo na saída.
– Oi? – ofeguei, feliz demais até pra fingir zanga.
– Sim, senhora – Julia colocou as mãos no quadril, fazendo todo mundo rir – ou você quer que, quando eu ficar grávida, meu filho nasça com a cara do Ronald Mcdonald?
– Dane-se seu filho – dei de ombros, fazendo Rony pular em meus braços – a vaga de mala-mor já está preenchida pela Gina.
– È isso aí, e... ei! – Gina exclamou, aumentando ainda mais os risos.
Nos despedimos de Olívia e do Doutor Shower, por fim deixando a clínica veterinária – e eu, finalmente, saindo com o que era para ser apenas o meu cachorrinho de estimação.
Durante nossa volta para casa, no carro de Isabella, olhei para o cachorrinho adormecido em meu colo, e meu peito voltou a apertar.
Eu não queria ficar sem Teddy, aquela personalidade de Rony que eu nunca havia tido o prazer de desfrutar.
Mas sabia que ficar sem Rony doeria mil vezes mais.
E, naqueles momentos de temor, tive medo pela vida dos dois. DO cãozinho que eu adorava, e do garoto que eu amava.
Infelizmente, eu teria que deixar que Teddy partisse.
Fora uma semana incrível e maravilhosa... mas mesmo Rony sabia que não poderia durar para sempre.
Acarinhei a pelagem macia do cãozinho, tentando dissolver o nó que começou a crescer em minha garganta.
– Durma, Teddy – suspirei, sorrindo – você é mesmo um amor de cão.
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