Paulette

1 Capítulo único: De sua querida Chlóe


Minha querida Paulette,

Dói tanto escrever seu nome. Acho um nome ridículo. Você definitivamente foi uma criança mal-amada pelos pais.

Estou te escrevendo para avisar que você esqueceu os biscoitos no forno. O forno aceso, Paulette, você é tão irresponsável que me faz querer chorar. Imagine se nossa casa pega fogo! Sorte a sua que eu desliguei; o que seria de você sem mim? Mas não consegui salvar os biscoitos. Queimados. Estou os comendo agora e posso dizer que estão horríveis, Paulette, somente porque estão queimados. Lembra de quando você me prometeu que iria cozinhar biscoitos deliciosos para mim? Saiba que não foi esse o resultado. Você está me devendo, estou aguardando.

Se quer saber, as coisas andam normais por aqui. Telefone tocando sem parar, móveis revirados, cheiro forte de comida queimada e cigarro. Confesso que tenho usado algumas de suas fotos como cinzeiros. A porta está aberta e suas chaves estão no chão. Estou deitada em nosso sofá, aquele que compramos no bazar em nossa viagem ao interior, mas que eu menti à todos os meus amigos que compramos em uma loja cara em New York. Não me arrependo.

Como faço todos os dias, fui à casa de sua mãe hoje, perguntar quando você voltaria. Ela nunca sabe me responder, devo admitir que é frustante. Aquele nosso antigo colega da faculdade, acho que é Roy o nome dele, me deu um abraço de repente. Me olhou com uma certa tristeza nos olhos e sussurrou um "foda, né?"; não entendi bem o porquê disso, acho que ele anda meio carente. Estou achando que ele quer sair comigo. Eu vou acabar cedendo se você não voltar logo. Isso parece ameaçador para você? Estou perdendo a paciência, porra.

Seu retrato está em cima da mesa central da sala. Está nele a minha foto preferida de você, uma das únicas que não estraguei. Estou tentando não olhar pra ela mas é muito difícil. É uma foto realmente especial. Esse seu sorriso sádico de quem quebra corações é ridículo mas, uma confissão, faz com que eu sinta coisas no estômago e em outros lugares também. Nunca entendi por que você não gosta do seu sorriso, não entendo até hoje. Entendo menos ainda por que você sorri tanto, se odeia seu sorriso. Paulette, você me deixa confusa. E o pior é que você parece gostar disso. Mas não se iluda nem se ache muito importante com as coisas que estou dizendo, eu ainda te acho uma imbecil. Você gosta de abandonar biscoitos no forno e pessoas. E promete sem cumprir. E, ah, tem um nome que eu detesto.

O telefone tocando só não é tão irritante porque ele faz o favor de cobrir o som do relógio da cozinha tiquetaqueando, e com certeza não há nada mais irritante do que este último. Prefiro o toque do telefone rasgando meus tímpanos do que esse tic-tac agoniante, que só serve para me mostrar que o tempo está passando e você não chega. Me sinto idiota pra caralho lutando contra o tempo, mas sinto também que isso vai valer a pena.

Se eu pudesse realizar um de meus desenhos que não fosse fazer você voltar, queria realizar meu desejo de conseguir falar com você ao telefone. Posso te escrever inúmeras cartas mas fico incerta de que você vai ler. Uma ligação seria diferente, poderíamos falar uma com a outra. Quero conversar com você e ouvir sua voz, mas está difícil. Quero muito, mas não consigo. O telefone não para de tocar, eles não dão folga. Me aproximo do aparelho quando ele está em silêncio mas logo ele toca de novo. Apenas uma fonte de música ambiente. Não consigo usá-lo para falar com você, então não pretendo atender nenhuma dessas ligações. Se não posso falar com Paulette, não vai ser com eles que irei falar.

Mas na madrugada de ontem, eu consegui ligar para você. Quatro vezes, um verdadeiro milagre! E você não atendeu em nenhuma delas. Por que anda me ignorando? Tudo bem que você nunca foi um exemplo de maturidade mas, pelo amor de Deus, Paulette, está agindo como se fosse uma criança. Você se acha no direito de recusar minhas chamadas? Você é mesmo uma idiota. Francamente. Mas eu não sou e reconheço seus joguinhos, então vou continuar te ligando, até você atender. Quando o telefone estiver disponível, claro.

Sinceramente, se não fosse pela utilidade de silenciar o relógio, eu odiaria com todas as minhas forças essa merda de telefone. As pessoas querem fazer minha cabeça, eu não suporto isso. O que elas querem comigo? Falar palavras de consolação? Eu já sei de cor e salteado tudo que irão dizer, mas eu não quero saber, caralho, eu quero você. Essa gente deve ser débil mental. Eu não preciso de um "oh, eu sinto muito!", eu preciso que me respondam onde você está e quando vai voltar. Seria bem mais fácil te esperar se eu soubesse quando minha espera terminaria. Por que estão sentindo tanta pena de mim? Qual o problema, afinal? Me deixem falar com Paulette. Será que fazem de propósito? Será que o plano é fazer com que eu não fale com você? Será que querem nos afastar? Você pode ser uma idiota e não merecer tanta dedicação, mas eu não vou permitir que façam isso conosco. Sou mais forte que eles. Jamais irão conseguir me posicionar contra você como tanto querem, sei que querem.

Hoje, eu sonhei com você. Duas vezes.

Primeiro, sonhei com a tarde nublada em que nos conhecemos. A mesmíssima cena, a cena que me recordo tão bem: eu e você, na roda gigante daquele parque de diversões abandonado, velho e nem um pouco confiável. O parque quase vazio, o que era compreensível, os brinquedos pareciam que iam desabar a qualquer momento. Vou aproveitar que você não está aqui do meu lado para me chamar de retardada e dizer que, sim, foi coisa do destino. Apenas eu e você naquele parque, no mesmo brinquedo-prestes-a-desabar, no mesmo banco, na mesma tarde nublada. É inegável, Paulette, não ligo se você não acredita, nem me sinto idiota por acreditar. Foi um dia assustador, mas hoje, é uma lembrança um tanto quanto divertida. Você, morrendo de medo de cair daquela altura, eu, prestes a vomitar. Nem um pouco dentro dos padrões do casal romântico, mas esse tipo de romantismo nunca combinou com a gente, mesmo.

Logo depois, sonhei que íamos andar a cavalo no campo. Ah, esse sonho me deu uma saudade imensa de quando costumávamos fazer isso com frequência! Precisamos voltar a cavalgar em breve! Você nunca mais viu o seu cavalo. Não lembro mais o nome dele. Deve fazer mesmo um bom tempo que você não o visita. Assim como eu, ele deve sentir sua falta.

Paulette, sinceramente. Eu achava que eu era uma mulher independente, mas a sua ausência está começando a me deixar realmente entendiada. Eu te amo, mas, caralho, que raiva de você! Se você não voltar logo, vou começar a te considerar uma egoísta sem coração. Estou conseguindo enlouquecer puramente com o ato de esperar. Sequer preciso do tiquetaquear do relógio para isso. Honestamente, eu não sei mais quem eu sou. Falo coisas que não falaria, faço coisas que não faria, não vejo mais sentido em nada. Me sinto cansada e extremamente confusa o tempo inteiro, mas não quero explicações. Você precisa voltar logo, existem muitas coisas aqui que foram deixadas pendentes. Não podemos nos separar assim.

E me pergunto quem vai limpar esse forno, porque o cheiro de comida queimada está realmente começando a me incomodar.

Estou indo visitar seu túmulo. Vou deixar os biscoitos queimados lá, para te lembrar de não esquecer mais os biscoitos no forno. Para te lembrar da promessa que você ainda não cumpriu. Você está me devendo muita coisa, Paulette, estou pacientemente aguardando. Mas se você demorar demais, acho que vou até você.

Sua querida Chlóe

Notas finais
É isso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!