Patrono

1 A soulmate is not found. A soulmate is recognized.


Notas iniciais
Olá! Esse é literalmente o primeiro soulmate!au que pensei na vida. Mesmo assim, espero que gostem da ideia e do textinho que preparei. Tenham uma boa leitura. ♥

Ao contrário do seu costumeiro mau humor matinal, Nymphadora acordou animada naquela manhã. Finalmente chegara o fatídico dia, o seu vigésimo aniversário. Esperara por aquele momento durante toda a sua vida, embora já houvesse alguém em seu coração. Talvez fosse por isso que estivesse tão nervosa. Talvez fosse exatamente por isso que seu coração batia acelerado, de maneira nada controlada.

A menina tocou o pulso esquerdo por debaixo da blusa de mangas compridas avermelhada. Conseguia sentir o desenho, que já ocupava lugar em seu corpo. Ela mordiscou o lábio inferior, pensando e repensando sobre o fato de finalmente descobrir ou não qual era o seu patrono. Essa dúvida era inevitável. Nymphadora já tinha o seu amor em seu coração e não estava pronta para decepcionar-se, ou para simplesmente mudá-lo de um dia para o outro. Seu coração se partiria se fosse alguém diferente dele.

Mas o patrono não errava. O coração sim, certamente cometia erros quase irreparáveis. Não era coerente, racional. O patrono trabalhava com sentimentos e também probabilidades e, por isso, supostamente, nunca errava. Era a escolha mais correta a se fazer.

Estava determinada, precisava fazer aquilo. Nymphadora sempre se orgulhara de ser uma mulher forte, e o que sua família e suas amigas diriam dela caso contasse que não havia visto seu próprio patrono? Seria uma grande tragédia.

A menina fechou os olhos. Estava tão nervosa que mal conseguia respirar. Cuidadosamente, ela levou a mão direita até a barra da manga esquerda e a dobrou, de modo a garantir que a figura ficasse completamente visível. Lentamente, a menina abriu os olhos, finalmente conhecendo o seu patrono. Involuntariamente, um sorriso se formou em seus lábios. Mal podia acreditar que aquilo era a verdade. Era a figura de um lobo. Aquilo certamente possuía um único significado em seu coração: Remus Lupin.

Tonks e Lupin eram vizinhos, por isso cresceram juntos. Quando ainda era criança, Nymphadora perdeu o pai, portanto a mãe dela era a única forma de sustento da família. Sendo assim, quando ainda era pequena, ela era obrigada a ficar horas sozinha na sua casa. Entendia o lado da mãe, de fato, mas como uma criança indefesa, sentia um grande medo daquela solidão.

Foi assim que ela conheceu Remus Lupin, em uma tarde fria de inverno. Ela tinha seis anos de idade, Remus tinha dez. Nymphadora estava sozinha, olhando a neve cair através da janela e se aglomerar, pintando todo o chão de branco. De repente, ao perceber que a garotinha parecia triste, um menino mais velho de cabelos bagunçados e sorridente bateu em sua janela e a convidou para construir um boneco de neve. Desde então, viraram melhores amigos, ainda com a diferença de idade significativa entre eles. Era uma amizade tão pura e ingênua quanto o branco da neve que caía naquele fim de tarde.

E foi quando completou dezesseis anos que começou a sentir algo a mais por ele. Remus tinha vinte e anos, cursava literatura em uma das faculdades mais conhecidas da cidade. Nymphadora ainda era uma aluna do colegial, estava no segundo ano do ensino médio. Em uma noite de tédio, decidiu que seria uma boa ideia ir até a casa de Remus e convidá-lo para assistir um filme, mas quem atendeu a porta foi uma garota que não reconhecia. Lembrava-se bem daquele dia. Havia voltado para casa aos prantos, e também passara a noite inteira chorando. Sua primeira decepção amorosa. Nem sequer sabia se Remus tinha conhecimento de que ela havia ido até lá naquela noite. No dia seguinte, em um ato impensado de rebeldia, decidiu pintar os fios de cabelo de rosa, apenas em uma tentativa falha de colocar todos os seus sentimentos para fora.

Ainda aos dezesseis anos, apesar de passar cerca de três meses afastada do rapaz, em uma certa noite descobriu um de seus maiores segredos. A lua cheia ocupava o céu, brilhava majestosamente. Estava encantadora. Lupin, por outro lado, não conseguia ver beleza alguma. Nymphadora ouviu gritos vindos da casa do vizinho e, ainda que estivessem afastados, sentiu a necessidade urgente de conferir se ele estava bem. Não se perdoaria se deixasse algo acontecer com ele Por um segundo, ela não acreditou no que seus olhos viram. Remus Lupin havia se transformado em um enorme lobisomem bem em frente aos seus olhos. A menina, teimosa e impossibilitada de ir atrás dele no meio da floresta, adormeceu na casa do rapaz. Ele só retornou na manhã seguinte, com uma cicatriz nova que Nymphadora fez questão de cuidar. Remus a explicou toda a história de como havia se tornado um lobisomem e do seu descuido em se transformar dentro de casa pela primeira vez. A partir daquele dia, ele se tornou um lobo para ela. Era exatamente por isso que Nymphadora tinha tanta certeza do significado de seu patrono.

Tonks levantou-se da cama em um pulo. Precisava urgentemente sair correndo daquele quarto e procurar por Remus. Existiam tantas perguntas que queria fazer, tantas coisas que queria dizer. Sua mente trabalhava tão rápido, que não conseguia processar uma informação completa sequer. A menina colocou as suas meias e, desajeitadamente como sempre era, calçou os sapatos. Quando finalmente pereceu devidamente vestida, ela correu pelas escadas, descendo até a sala da casa.

— Nymphadora, querida, para onde está indo? — Andromeda Tonks, mãe de Nymphadora, perguntou. Ela parecia preocupada. Estava tão elétrica que nem reclamara do fato da mãe tê-la chamado pelo seu nome. — É seu aniversário, não vamos comemorar?

— Sim, mamãe, eu volto logo! — A menina falou, animadamente.

— Espera, filha! — A menina subitamente parou, voltando o seu olhar para a mãe. — Tem a ver com o seu patrono?

— Sim, mamãe. — Um sorriso lhe tomou os lábios de ponta a ponta, e então, ela voltou a correr.

Nymphadora pensou nas inúmeras possibilidades de onde poderia encontrá-lo. Em sua casa. Na escola em que lecionava. No centro da cidade. Na sua antiga universidade. Sua cabeça pensava em uma infinidade de lugares, e, ainda assim, nenhum deles parecia certo. Ela suspirou, impaciente. Seus olhos rodeavam todo o perímetro, em uma esperança quase muda de se lembrar de algum lugar relevante.

— O ginásio do colégio! — A menina exclamou, como se uma lâmpada houvesse acendido em sua mente, e tudo fizesse sentido outra vez.

Nymphadora apressou-se em correr para o colégio que ficava a exatas duas quadras de onde estava. Sentia seu coração palpitar, e a respiração ofegante devido à corrida fazia com que seus pulmões trabalhassem arduamente para mantê-la de pé. Quando recuperou o fôlego, abriu a enorme porta, adentrando o ambiente.

Era um tanto quanto nostálgico, de fato. O chão de madeira, o logo da escola estampado em vermelho na parede. Ela não pôde evitar em abrir um sorriso. Já havia dois anos que tinha se formado e, consequentemente, dois anos do seu baile de formatura. Tinha dezoito anos na época.

Nymphadora sempre foi uma pessoa um pouco desajustada. Era extremamente extrovertida, uma ótima companheira e mais divertida do que qualquer pessoa do colégio. Sempre fora cheia de amigos, mas apenas amigos. E, por isso, fora deixada de lado como escolha de qualquer garoto para ser o par do baile de formatura. Era normal que preferissem escolher alguma menina que gostassem ou pela qual se sentissem atraídos. Tonks nunca foi essa pessoa. Nymphadora não era esse tipo de garota, ela era apenas a menina divertida da turma que fazia todos rirem. Por isso, naquele ano, ao saber da situação, Remus Lupin a convidou para ser seu par, ainda que o baile de formatura fosse da própria Tonks. Dora, como era chamada por ele, rapidamente aceitou, e aquela foi a melhor noite de toda a sua vida.

Com memórias nostálgicas percorrendo toda a sua mente, Tonks caminhou em meio ao ginásio vazio e silencioso. Era possível ouvir o som do seu sapato preto batendo contra o chão de madeira. De repente, sentiu um certo formigamento incomum em seu pulso esquerdo. Cuidadosamente, Nymphadora dobrou a manga esquerda, observando a figura do lobo em seu braço. Os patronos sinalizavam quando a pessoa chegava perto de sua alma gêmea, por meio de um brilho prateado e azulado singelo e de um formigamento pouco incômodo.

— Remus, eu sei que está aqui. — Tonks falou. Foi capaz de ouvir sua voz ecoar devido ao cômodo quase vazio.

De repente, ouviu o som dos sapatos amarronzados velhos batendo contra o chão. Depois de seis daquelas batidas, finalmente foi capaz de ver o rosto envergonhado de Remus Lupin, que a fitava com certa tristeza no olhar.

— Eu sabia que te encontraria aqui... — Ela sorriu.

— Você se lembra dessa noite? — Ele perguntou, olhando para ela de maneira curiosa.

— Como não me lembraria? Foi o meu baile de formatura, a melhor noite da minha vida. — Uma risada boba escapou de seus lábios. — Por que nunca me contou? — Ela mordeu o lábio inferior, amaldiçoando-se por ter feito aquela pergunta. Não estava preparada para a resposta.

— Não é óbvio, Dora? — Ele voltou o seu olhar para o chão, envergonhado. — Porque eu te amo. — Seu tom de voz era baixo, quase como se fosse inseguro demais para acreditar que alguém pudesse amá-lo.

Tonks pensou em dar um passo para frente, mas hesitou. Sentiu um aperto em seu coração que jamais havia sentido anteriormente. Seus olhos, anteriormente cheios de vida e expectativas, agora pareciam sem cor e vazios.

— Não parece óbvio para mim. — A menina disse, fazendo com o que o rapaz voltasse o seu olhar para ela.

— Eu não podia te contar. Eu tinha vinte, você tinha dezesseis. Eu não sentia nada por você além de amizade até esse maldito patrono aparecer. — Ele parecia furioso, e cada palavra que dizia atingia Nymphadora como lâminas afiadas. — Você era minha melhor amiga, eu queria protegê-la de tudo o que te fizesse mal, mesmo que isso significasse te proteger de mim. Foi na noite em que você descobriu que eu era um lobisomem que eu comecei a me sentir assim. — Ele suspirou. Parecia ter dificuldade em conectar as palavras. — Você não me via como um monstro, Dora... Foi a primeira a pensar assim mesmo sabendo da verdade, isso me encantou. — Remus bagunçou os próprios fios de cabelo, demonstrando nervosismo. — Dois dias depois eu fiz vinte anos e ganhei um patrono que eu não entendia o significado. Bem, eu descobri que era você quando senti esse maldito formigamento.

— E o que há de tão errado nisso? — A menina perguntou. Cada palavra que ouvia parecia um absurdo e a machucava mais do que ele podia mensurar.

— O que há de errado nisso? — Ele repetiu, e uma risada nervosa correu pelos seus lábios. — Nymphadora, você é uma menina brilhante! — Ele começou a dizer. — Tem um futuro brilhante a sua espera. Você é uma boa garota. É energética, sorridente, inteligente. É perfeita. — O rapaz proferiu, como se fosse óbvio. — E eu, bom, eu sou um cara velho, do interior, que veio morar aqui quando pequeno. Um garoto humilde e, acima de tudo, amaldiçoado. Eu sou um monstro. — Afirmou. Ele andava de um lado para o outro sem parar. Seu olhar parecia perdido. Sua respiração estava ofegante. Estava nitidamente aflito e um tanto quanto ansioso. — Você não merece alguém como eu. Você não merece um monstro. Merece coisa melhor.

— Remus... — A menina de cabelos róseos murmurou.

Os olhos de Nymphadora estavam repletos de lágrimas que ela lutava para não derramar. Não porque estava desapontada, mas porque não suportava ver o homem que amava falar aquelas coisas cruéis sobre si mesmo. Ele se considerava um monstro. Tonks deu três passos e, em um ato impensado, envolveu o rapaz em seus braços. Remus, por sua vez, estava tão surpreso com a situação que permaneceu imóvel.

— É um lobo. — A menina falou baixinho. — O meu patrono é um lobo.

— O meu é um coelho. — Uma risada descontraída deixou os seus lábios. — O coelho de pelúcia que eu ganhei para você na pescaria, na sua primeira festa da faculdade. Eu só entendi naquele dia.

— Como pode? — Ela mordeu os lábios, pensando cuidadosamente sobre o que diria a seguir. — Como pode pensar essas coisas de si mesmo?

— São a realidade, Dora. — Ele respirou fundo e fechou os olhos por um momento. — Você é boa demais para mim.

— Remus Lupin, você é um grande tolo. — Ela falou, dando um passo para trás. — O maior idiota que eu conheço. — Um sorriso maroto brotou em seus lábios.

Inesperadamente, Tonks ergueu uma de suas mãos e levou até o rosto do rapaz parado em sua frente. Remus fechou os olhos, como se ainda conseguisse sentir a dor daquela cicatriz que ela havia acabado de tocar. De certa forma, sentia. Mas não era física, era uma dor impregnada em sua alma, que consumia todo o seu ser, principalmente nas noites de lua cheia. Uma dor que o dilacerava aos poucos.

— Você é a melhor pessoa que eu já conheci, Remus. — Moveu suas mãos para os fios de cabelo bagunçados do rapaz, acariciando-os. — Você é gentil, se preocupa com as pessoas e cuida daqueles que ama. No que você se transforma, não importa. Você continua sendo Remus Lupin, o homem por quem me apaixonei. E eu vou te amar até o meu último dia na Terra. Você é perfeito para mim.

Aos poucos, o rapaz abriu os olhos esverdeados, que agora se voltavam para os olhos castanhos a sua frente. Ela estava próxima. Mais próxima do que ele gostaria, mas ainda sim era confortável. Cada palavra que ela dizia, o fazia acreditar que ele era uma fração daquele homem que ela imaginava, mas, ainda assim, ele tinha medo. Era um covarde.

— Eu te amo, Remus. Eu sempre vou te amar. — Ela repetiu, segurando delicadamente o rosto do rapaz. — Não é o lobo ou o dinheiro que o tornam quem você é. São as atitudes, o seu caráter, o seu zelo, o seu amor. Você não merece viver em sofrimento e se martirizar pelo resto da sua vida. — Mais uma vez, os olhos da menina se encheram de lágrimas. — Você é perfeito aos meus olhos. Será que é tão difícil entender isso?

Talvez ele não fosse amaldiçoado, afinal. Talvez ele só precisasse da pessoa correta para enxerga-lo como ele era. E nada no mundo poderia fazê-lo mais feliz do que aquilo. Nada no mundo poderia fazê-lo mais feliz do que ela. Talvez não fosse um pecado pensar na sua própria felicidade como uma alternativa real e não apenas como um sonho.

Ele deu um passo para a frente e, lentamente, aproximou-se da menina, dando um beijo demorado em sua testa. De repente, ele inclinou-se em uma reverência desajeitada e estendeu uma das mãos para ela.

— Aceita dançar, senhorita? — Remus perguntou, enquanto a encarava ansiosamente, esperando pela resposta.

— Seria uma honra. — Ela sorriu, de maneira serena e segurou a mão do rapaz delicadamente.

De repente, em questão de segundos, eles estavam de volta ao baile de formatura. Não havia decoração, música ou comida. Existia apenas um resquício da noite de Dezembro guardado em ambas as memórias. E aquilo parecia o suficiente. Então, como se tivessem voltado no tempo, eles dançaram até o fim da manhã, perdendo total noção das horas se passando. Até mesmo se beijaram, ao fim da última música que tocara nas mentes sincronizada que possuíam. Só pararam quando os pés de Nymphadora não suportavam mais andar de um lado para o outro, devido ao sapato desconfortável. Ela precisou ser levada para casa no colo pelo rapaz mais velho. Aquele provavelmente havia sido o melhor dia de suas vidas. Finalmente, Remus Lupin foi capaz de reconhecer e aceitar a própria felicidade.

Notas finais
Espero que tenham gostado da história! Por favor, digam-me o que acharam, é sempre importante. Obrigada por terem lido. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!