Patrick
4 O Emprego
Notas iniciais
Passou-se alguns dias calmos e serenos dos quais não vi nenhum sinal do Patrick. Fui a mercearia algumas vezes, mas foi a mãe dele, Marta, que me atendeu.
Na manhã de sexta da terceira semana, Fernando me chamou a um canto e me surpreendeu com a seguinte pergunta:
—Gostaria de um emprego?
É claro que eu aceitei. Dinheiro sempre é bom, mesmo que para aquele trabalho fosse pouco; eu seria a ajudante do Patrick na mercearia. A mãe dele estava com alguns problemas de saúde, eu acho.
Na segunda, o dia amanheceu chuvoso. Coloquei um casaco acolchoado e calças de moletom, além de grossas meias rosas da gata Marie e minhas habituais galochas vermelhas. As portas do armazém já estavam abertas quando cheguei e como não havia ninguém no balcão entrei pela porta do estoque.
—Oi-disse quando vi Patrick no fundo da sala escura carregando caixas.
Ele me olhou, mas não respondeu.
—Precisa de ajuda?-perguntei.
—Não-respondeu ele com a voz grossa e penetrante.
—Então, o que devo fazer?
—Fique no balcão.
—Devo limpar ele?-insisti.
—Só fique no balcão e receba os clientes-rosnou ele.
Saí do deposito inquieta e fiz o que ele mandou. Fiquei no balcão a manhã toda, de pé, as vezes analisando as prateleiras sujas. A hora do almoço chegou, pelo menos para mim que estava faminta. Fui até o estoque.
—Eu vou almoçar-disse e ele continuou sem responder-Quer que eu vá até sua casa e traga seu almoço?
—Não.
—Tá-disse e saí.
O almoço foi uma mistura de arroz queimado e couve refogada com ovos mexidos. Cida ainda não havia voltado e passamos todas aquelas semanas a base de ovos fritos e cozidos. Fernando se recusava a deixar minha mãe cozinhar porque éramos visita.
Os dias seguintes foram os mesmos; eu ia para a mercearia, não atendia ninguém, ficava olhando para o nada e as vezes espiava o Patrick carregar caixas que pareciam ser as mesmas todos os dias. Mas em uma segunda, não pude aguentar:
—Patrick, precisamos conversar!-disse eu com os braços cruzados tentando fazer cara de destemida. Como ele só me olhou e depois voltou a seus afazeres, continuei- Eu não faço nada aqui! Fico naquele balcão imundo esperando clientes, mas eles nunca aparecem! As prateleiras estão praticamente vazias e tem enlatados ali que devem ter a idade da minha vó e você fica aqui, enfurnado nessa sala escura, carregando as mesmas caixas todos os dias. Entendo que não quer fazer o seu trabalho, mas me desculpe, por que eu quero fazer o meu!
Patrick agora me olhava, não com a cara de nada de sempre, mas um tanto abismado. Ele se abaixou atrás de algumas caixas vazias e me entregou um pedaço de pano.
—Então faça o seu trabalho-disse ele e depois se virou para a porta- mas nunca diga como devo fazer o meu.
Não sei por que, mas ri com aquilo. Mesmo que aquela não fosse uma resposta gentil, eu esperava mais grosserias. Corri para o casarão e peguei alguns detergentes e desinfetantes e pregos para as prateleiras quebradas. Mas algo me dizia, bem no fundo, que aquilo não bastaria para concertar tudo na mercearia; faltaria um coração a ser ajustado naquele lugar.
Fale com o autor