Path
1 Inner World
Tem uma luz dentro de mim, uma pequena chama que me mantem firme ao que sou, mas que não ilumina mais o futuro. É um caminho escuro, sem algo a que me agarrar. Eu caminho, olho a estrada a minha frente e caminho pelos trilhos, caminho e caminho e caminho, mas ao meu redor nada muda, os mesmos cenários permanecem, como dias nublados e chuvosos que teimam em passar. Encontro pessoas no caminho e algumas me veem, mas sua caminhada é muito veloz e logo elas passam e seguem aquela trilha, como se soubessem o que há ali na frente, e eu permaneço atrás. Os cenários passam depressa, tudo parece correr, todos parecem chegar cada vez mais longe, as estações mudam e eu permaneço no mesmo lugar, poucos quilômetros de fato caminhados.
Como posso estar cansada com tão pouco caminhado? Como posso estar mais cansada que tantos que despenderam tão mais energia na caminhada? Procuro uma forma divertida de seguir os trilhos, vou pulando alguns, me equilibrando em outros, andando pelas beiradas, mas nada parece mudar, nada parece iluminar. Poucas vezes enxergo uma luz mais a frente, e nessas poucas vezes ganho um pouco mais de energia, mas o chão logo me puxa para o mesmo lugar novamente, e a chuva me molha, me empurra e sombras que prendem ao mesmo lugar. Talvez então... só talvez, essa estrada não seja para mim. Talvez minha missão não seja caminhá-la, e sim ser apenas um ponto de ajuda por aqueles que passam por ela, algum conselho como “vire à direita” ou “por aí é meio ruim de andar” ou “me falaram que naquela direção o tempo está ótimo”. Talvez eu não tenha nascido para encontrar o que há no final da estrada, e talvez eu esteja sendo uma intrusa nesses trilhos onde outras pessoas poderiam estar caminhando, mas por motivos maiores não são permitidas.
Mas ninguém para na estrada, não há sequer um ponto de parada. Então, onde eu deveria estar?
Uma vez alguém me disse que a estrada não era única, que havia outras que eu poderia tomar conforme caminhava. Uma trilha, uma montanha, pela areia da praia, uma ponte... muitos tipos, mas nunca achei essas entradas, durante algum tempo procurei por elas, mas nunca encontrei uma em que pudesse de fato tentar. Como só eu estou presa aqui e em saída? Os carros correm, as pessoas passam sorrindo, e tudo parece ocorrer em um tempo diferente que me faz ficar zonza, tudo passa rápido como um borrão, mas a minha bolha é tão lenta.
Nada disso parecer ser para mim, como se eu estivesse fadada a ser alheia a tudo que acontece, como se eu nunca pudesse de fato pertencer a algo. Não tem nada, só um vazio onde um dia havia estado uma chama.
A estrada é alta, como se construída no parapeito de um prédio. O céu cobre minha cabeça com toda sua extensão infinita. O melhor momento é quando vejo o final da tarde chegando, aquela iluminação peculiar banhando a imensidão de vida ao meu redor. Prédios altos refletem a luz amarela como manteiga derretida, há vegetação também, a trilha tem muito dela. Sei que os outros não veem o mesmo que eu, vejo pelos seus olhares, pelos seus comentários, e me pergunto o que é que veem, como é o mundo ao redor deles, como funciona. Seja como for parece que é de acordo com o que o caminho espera deles. Às vezes a paisagem não é feia e ruim, é agradável e pacífica, e nesses momentos sinto que meus passos ganham um pouco mais de sentido, porém às vezes é horrível, fria, vazia e aterrorizante e eu me pego agachada segurando meu corpo como se essa realidade tentasse tirar eu de dentro de mim mesma quando muitas vezes é a única coisa a que eu posso me agarrar.
Um dia, alguém interrompeu sua caminhada sem que eu pedisse e me apresentou a alguém que disse que entenderia como a minha caminhada funciona. E ela entendeu, de certa forma. Entendeu os detalhes que eu dava sobre o clima que me aterrorizava ou me acolhia, sobre as cores do céu e as estrelas que apareciam pela noite, como doía a caminhada e como eu não conseguia entender como as pessoas faziam parecer tão fácil. Sentamos enquanto conversávamos, andamos mais um pouco juntas, comemos algo, paramos para olhar o céu, tudo isso enquanto eu relatava minhas angústias.
Ela ouviu pacientemente cada dor, cada medo. E então, em determinado ponto, ela me mostrou que havia um outro caminho. E que estava tudo bem se eu quisesse percorrer ele, havia mais pessoas ali, e elas não corriam ou andavam como as outras pessoas também. Elas paravam assim como eu, algumas despendiam algum tempo observando uma flor pelo caminho, outras escolhiam sentar no parapeito e observar a paisagem, enquanto outros escolhiam usar a noite para olhar as estrelas. Havia uma calma naquele caminho, um entendimento e acolhimento, e me perguntei como eu não o havia encontrado antes, como havia passado despercebido.
Não é como se a caminhada estivesse mais fácil agora, mas eu tenho um caminho melhor que me faz enxergar a luz que tanto procurei. Ela não é clara, mas eu acho que ela está logo a frente, e dessa vez não me importo de parar um pouco mais, de diminuir o meu ritmo e encontrar coisas pelo caminho que eu queira dar um pouquinho de atenção. Às vezes penso que posso correr, pular, dançar e rir alto, sentir o ar fresco em meus pulmões e até mesmo pegar carona em uma nuvem mais baixa que passe.
A trilha é uma confusão e acredito que qualquer uma não vai simplesmente me guiar para onde preciso ir. Mas passo a crer que posso chegar onde quero, ainda que em um caminho irregular como as notas em uma partitura musical, e descobrir meu próprio ritmo e música enquanto o vento beija meus cabelos e o sol acaricia minha pele.
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