Notas iniciais
Minha amiga secreta é a Carolina Costa, espero que goste, pois eu amei escrever essa one. Espero que gostem.

O gosto de ferro era forte em sua boca. A saliva mesclou-se com o sangue, cada vez mais espesso em sua garganta. Tossiu algumas vezes, tentando se livrar da falta de ar.

Severus teve vontade de rir de si mesmo. Desejara a morte por tantos anos e quando ela estava diante de si, sua luta era para respirar e continuar vivendo.

Maldito instinto.

Engasgando-se em seu próprio sangue, Snape fechou os olhos e tentou entregar-se para escuridão, fazendo até mesmo seu instinto de sobrevivência se aquietar. A paz se fez presente após tantos anos de guerra consigo mesmo e com o mundo. Ele agradeceu o torpor e a sensação de leveza que o envolvia.

Era como flutuar em um mar escuro.

Severus Snape gostaria de ter sido um bom professor. Queria ter tido a oportunidade de lecionar sem as barreiras que precisara construir ao seu entorno. Gostaria de não ter cometido tantos abusos com os seus alunos. Ele poderia ter ensinado tanto.

Gostaria de ter se aproximado mais de seus colegas de Hogwarts. Professores melhores que ele, que poderiam ter lhe ensinado muito caso ele tivesse permitido. Poderia ter aprendido a dar uma aula melhor. Poderia ter tido conversas interessantes sobre livros, artigos e tantas outras coisas...

Severus gostaria de ter escolhido caminhos diferentes após terminar os estudos em Hogwarts. Sua vida poderia ter sido tão diferente. Uma vida sem rancor daqueles que tinham bagunçado a sua adolescência e seu psicológico.

Se ele tivesse uma segunda chance...

Mesmo no torpor de sua morte, sentindo-se flutuar em um mar de escuridão, uma lágrima deslizou pelo seu rosto e o seu peito se apertou.

Uma chance de voltar ao passado e ele teria feito tudo diferente.

O silêncio calou seus pensamentos, sem lhe dar essa opção. A morte era uma grande escuridão. Não havia corpo, apenas uma consciência vagando em um grande vazio.

Well you look like yourself

But you're somebody else

Only it ain't on the surface

Well you talk like yourself

No, I hear someone else though

Now you're making me nervous

(Flora Cash — You're Somebody Else)

Severus despertou sufocando, o coração batendo desenfreado em seu peito. Sentou-se rápido levando pressionando o pescoço com as mãos, onde sentia uma ardência insuportável. Ele sentiu uma mão macia contra sua costa nua.

— O que foi, Sev? — Severus reconheceria aquela voz até mesmo em outra dimensão, mesmo sussurrada. O toque suave o fez fechar os olhos. — Ainda é madrugada, volta para a cama.

Seus olhos focalizaram o ambiente e ele soube de imediato que estava no dormitório feminino da Grifinória.

Severus deitou-se, não se lembrando como havia chegado ali, muito menos do pesadelo que havia tido. Sua mente era uma grande bagunça de lembranças, cenas do pesadelo e a sensação de um profundo mergulho no escuro.

Lily se aconchegou ao seu peito, e em um reflexo ele a puxou contra si, tentou se recordar desde quando era comum dormir no quarto feminino da Grifinória com Lily enroscada em si, e sua cabeça doeu.

— Lily — chamou em um sussurro. Ela se ergueu ao seu lado e entrou em seu campo de visão. Severus sentiu uma angústia apertar o seu peito. — O que eu estou fazendo aqui?

Mesmo na escuridão ele viu um sorriso amoroso surgir nos lábios da ruiva. Snape levou a mão em direção ao rosto dela, ainda sem acreditar que ela estava ali. Seus dedos deslizaram pela face de Lily e a angústia aumentou ainda mais.

— Você vem toda sexta, Sev, se esqueceu? — Comentou em tom brincalhão, fechando os olhos de forma sonolenta contra o toque em sua face. — Vamos dormir, amanhã temos visita a Hogsmeade.

Lily selou os lábios nos dele, casta e carinhosa, e voltou a se aconchegar em seu peito. Severus tentou adormecer mais uma vez. Entretanto, um medo agarrou-se a ele. Teve receio de que, ao fechar os olhos, Lily sumiria dos seus braços.

As vozes faziam a sua cabeça doer. Sentiu vontade de gritar, pedindo para que todos se calassem, entretanto só conseguiu murmurar. Tentou se levantar, sem sucesso, suas pernas pareciam fracas. Não sabia nem ao menos onde se encontrava.

Ele tinha quase certeza que havia tido um pesadelo com uma cobra gigante que estraçalhava seu pescoço. Era um pesadelo, onde havia feitiços por todos os lados, gritos e o cheiro forte de sangue mesclado com o de queimado.

Severus costumava ter sonhos confusos, paralisantes, assim como o da cobra gigante. Vozes questionavam sempre se ele teria alguma chance, se ele sobreviveria. Mas ele nunca conseguia identificar onde estava.

Lily achava que se tratava de paralisia do sono, uma incapacidade temporária de se movimentar e falar durante o sono. Severus não tinha tanta certeza assim.

O céu naquela manhã quente de verão, não poderia ser mais perfeito. Não havia nuvens no céu, e a tonalidade de azul clara era maravilhosa para aquele dia. O sol forte iluminava o sítio dos avós de Lily, o local que haviam escolhido para a sua festa de casamento.

Se contemplou diante do espelho de corpo inteiro, enquanto se arrumava dentro do quarto espaçoso que lhe fora cedido. O terno que trajava servia-lhe com perfeição, tendo sido feito sob medida. Severus sentiu-se estranho por vestir uma peça de roupa tão bem feita.. O terno fora um presente de Albus Dumbledore, seu padrinho de casamento e um dos poucos amigos que possuía. Arrumou as abotoaduras nas mangas com zelo, admirando-as com carinho. Consistiam em cobras pequenas esculpidas em prata, um presente de Remus Lupin.

Quando cogitou sair do quarto, sentiu uma fisgada em seu pescoço. Severus enxergou pequenos pontos pretos e foi acometido por uma tontura. Ele odiava quando tinha aqueles sintomas. Odiava sentir aquela maldita dor que não compreendia.

Era o dia do seu casamento, ele estava feliz e não queria que aquela dor o distraísse daquele sentimento.

Os primeiros raios solares romperam o céu ainda escuro junto com os gritos de Lily. As contrações eram cada vez mais doloridas e menos espaçadas, o que tornava os gritos mais altos.

Severus tinha as mãos trêmulas desde que a bolsa se rompera na noite anterior, enquanto jantavam. Seu coração estava acelerado e ele sentia que a qualquer momento desmaiaria de nervoso. Entretanto, não saiu do lado da esposa em nenhum momento, mesmo quando a medibruxa responsável pelo parto questionara se ele de fato queria ficar ali.

E ali estava ele, com a mão entrelaçada com a da Lily, ouvindo cada grito, dando força e aguardando que o filho viesse para o mundo.

— Está coroando, já — informou a medibruxa, pegando um pano limpo e posicionando entre as pernas abertas de Lily. — Empurre mais uma vez, com força!

Um choro fraco sucedeu o último grito da mulher. Severus sentiu o mundo parar quando ouviu o choro do bebê. Ele assistiu ainda inerte ao lado da esposa, a medibruxa anunciar que era um menino e o entregar embrulhado no colo de Lily.

Definitivamente aquele era o momento mais feliz da vida de Severus. Soube pelo modo que Lily olhou para ele, sorrindo e com lágrimas de felicidade, seu pequeno filho nos braços.

Se houve algum momento que ele sofrera, ele já não se lembrava.

— Você e Remus estão estragando o meu filho — comentou Lily, enquanto guardava manualmente as roupas do filho nas gavetas. Severus estava distraído, admirando a paisagem pela janela do quarto.

— Remus é padrinho dele, Lily. Deixe ele mimar o Harry o quanto quiser.

Pela janela, Severus via o quintal pouco espaçoso da casa em que viviam. Era começo de dezembro e a neve já cobria boa parte do gramado do quintal. Isso não impedia Harry, agora com 3 anos, de estar em cima de uma pequena vassoura dada por Sirius, sendo ensinado a voar pelos “tios” e padrinho.

— É engraçado como você e os meninos aprenderam a conviver, mesmo com todas as diferenças — Severus sentiu os braços de Lily o envolverem, aquela velha angústia voltou a apertar seu peito. Era ainda estranho ter Lily para si, amando-o.

Tomando as mãos da esposa entre as suas, Severus beijo-as delicadamente uma por uma. Ele jamais imaginou que em algum momento conseguiria conviver com os Marotos, e ainda mais deixar um deles ser o padrinho de seu filho.

— Você sempre será a mulher da minha vida. — Sua voz saiu fraca. Os braços dela se apertaram ao seu redor.

— Eu estarei sempre aqui por você, meu amor — sussurrou Lily contra o ouvido do esposo, afrouxando o aperto do seu abraço para que ele se virasse para ela.

Severus jamais se cansaria de segurar o rosto de Lily entre suas mãos, admirar cada traço e receber o olhar mais apaixonante que poderia existir. Ele jamais se cansaria de aproximar seus lábios dela e poder beijá-la a qualquer momento. Mesmo que dentro do seu peito, às vezes ele sentisse aquele aperto estranho quando o fazia.

— Assim? — Questionou Harry, mostrando o pergaminho para o pai.

— Isso mesmo, filho — respondeu, recebendo um sorriso orgulhoso do menino de apenas 7 anos. — Você escreveu todos os nomes certos. — O pergaminho possuía o seu nome, o de Lily, dos Marotos, dos avós maternos, da avó paterna. — Quer continuar estudando ou prefere fazer uma pausa?

— Uma pausa, papai — Severus concordou, guardando as penas que utilizaram. Assistiu o menino fechar os livros que haviam utilizado para estudarem matemática e literatura inglesa antes de treinarem a escrita. — Vamos no parquinho? — Pediu, olhando para o pai da forma que Severus nunca resistia.

— Sim, podemos ir, mas ficaremos poucos, combinado?

Harry comemorou, concordando que ficariam pouco.

— Vai então colocar uma blusa e o tênis.

Severus sorriu ao assistir o filho sair correndo em direção a escada da casa para ir para o quarto se arrumar.

— Papai, olha como estou voando bem! — Gritou um Harry empolgado, em cima da vassoura, para o total desespero de Severus e Lily. A mão de Lily apertou a sua quando o filho subiu ainda mais pelo ar, sendo acompanhado por James, que orientava o menino.

— É ranhoso, seu filho é bem mais corajoso que você — zombou Sirius, parado ao lado de Severus.

— Adulto como sempre, Black — ironizou Snape, ainda com os olhos atentos ao filho que tinha parado no ar para prestar atenção ao que James falava.

— Você tem sorte do seu filho ter saído a cara de Lily e não a sua — zombou Sirius novamente.

— Chega, Sirius — pediu Lily, visivelmente desconfortável com a brincadeira de mau gosto.

Todos pararam de falar para assistir Harry voar em alta velocidade, em busca do pomo de ouro que James havia soltado para o menino ir atrás. Severus sentiu o coração quase falhar quando assistiu o filho fazer uma curva próximo de uma das árvores do extenso quintal da família Potter.

Harry se firmou na vassoura após a curva e voltou a voar com velocidade em busca do pomo, que após algumas voltas, estava em suas mãos.

— Eu consegui! — comemorou, descendo da vassoura e correndo em direção dos pais, exibindo pomo de forma orgulhosa. — Olha, papai! Olha, mamãe!

Harry se lançou nos braços dos pais, abraçando-os com tanta euforia, que quase os derrubou.

— Parabéns, filho — Lily disse, animada com a conquista do filho.

Severus retribuiu o abraço, beijando o topo da cabeça de Harry, mesmo que o cabelo do menino estivesse suado. Parabenizando-o também, pedindo para ver o pomo e elogiando-o. Seus olhos, no entanto, fixaram no seu antigo inimigo de escola, agradecendo mentalmente por James ser um ótimo tio e instrutor de voo para Harry.

— Vocês viram a curva que eu fiz perto da árvore? — Questionou o garoto, saindo dos braços dos pais. — Eu espero que eu consiga ser um apanhador quando entrar em Hogwarts.

— Você será o melhor apanhador que a Sonserina já teve — anunciou Severus com orgulho, recebendo uma risada irônica de Sirius. — O que foi, vira-lata?

— Harry irá para Grifinória, nem sonhe ao contrário, ranhoso — anunciou Black, deslizando os dedos pelo cabelo liso e escorrido do menino. — Né, Harry?

— Não sei, tio. Pena que o padrinho não está aqui. — Comentou triste, sem dar para aquela velha discussão do pai e do seu tio sobre qual casa era melhor.

— Você poderá mostrar para ele o que aprendeu hoje, quando a lua cheia passar — Lily o consolou.

Já era tarde quando Severus escutou uma batida fraca na porta do pequeno escritório. Sua atenção mudou, dos livros de poções que organizava para usar em Hogwarts naquele ano letivo para Harry, que entrou no escritório.

— Algo errado, filho? — perguntou, estranhando que Harry estivesse acordado até tão tarde.

— Eu só queria te perguntar uma coisa.

Severus deixou os livros empilhados na escrivaninha e sentou-se na poltrona, chamando o filho para o seu colo.

— Pode perguntar o que quiser — disse ao menino, que parecia encabulado com algo.

— Eu não quero te decepcionar caso eu não entre para a Sonserina. — Harry admitiu, envergonhado.

— Você não vai me decepcionar se for para outra casa. De onde você tirou essa ideia?

Harry desviou o olhar, as bochechas rubras.

— Você, o tio Sirius e o tio James sempre ficam discutindo isso.

— Eu e seus tios apenas brincamos com a rivalidade entre as casas — explicou, sentindo surpreso que a questão afligisse o garoto. Jamais teria imaginado que um assunto tão bobo o perturbaria. — Mas você tem que saber que todas as casas têm seus valores e que independente de qual você for, eu ficarei orgulhoso.

Harry sorriu, parecendo mais aliviado ao ouvir a resposta do pai.

— Sua mãe veio da Grifinória e é uma bruxa incrível, assim como seu padrinho é um professor excelente em Hogwarts. E tem tantos bruxos bons na Corvinal e na Lufa-Lufa. Qualquer casa irá te acolher bem, pois você é um menino especial, Harry. — Severus sentiu o coração se aquecer quando os braços dos filho o envolveram em um abraço carinhoso.

Severus amaldiçoou a dor constante em sua cabeça, que parecia se intensificar ainda mais conforme o dia avançava. Harry logo chegaria com o Expresso e teria sua seleção de casa. Ele odiava estar com uma de suas dores de cabeça justamente naquele momento.

Trajou suas costumeiras roupas pretas, rumando para o Salão Principal, aproveitando os corredores ainda vazios, pois sabia que o resto do ano ele não teria aquela liberdade de andar tranquilamente.

Cumprimentou os professores já presentes na mesa, sentando-se ao lado de Remus.

— Você acha que Harry irá para qual casa? — Questionou Lupin, parecendo curioso e não provocativo como James e Sirius sempre pareciam.

— Não sei, Remus, mas alguns dias atrás ele chegou em mim, aflito, questionando se eu ficaria decepcionado se ele fosse para outra casa.

— Você e Sirius não conseguem se controlar, discutindo qual casa é melhor, por isso o menino está nervoso — resmungou Remus, em tom de repreensão.

Severus quis responder, mas uma pontada em sua cabeça o fez se concentrar em não demonstrar a dor. Os alunos mais velhos começavam a entrar no salão.

Remus continuou puxando assunto, enquanto a cerimônia não começava.

— Olha lá, Severus, o Harry — O lobisomem apontou para o afilhado, que parecia encantado com o teto, ao lado de um Weasley.

Quando Harry olhou para mesa, acenou para o pai e para o padrinho, mostrando empolgação e felicidade. Foi retribuído pelos dois com aceno mais contidos.

— Harry Snape — chamou Minerva, fazendo Severus focar toda sua atenção no filho, assim como Remus.

O chapéu demorou alguns momentos até anunciar que Harry era um novo membro da Grifinória.

Severus teria dado risada de Remus comemorando, ou se irritado com as pratas que devia para Sirius, com quem apostara. Mas ele não conseguiu. Sua visão escureceu, os sons da seleção se tornaram distantes, e sentiu a cabeça a ponto de explodir.

Seus pés fizeram o caminho já familiar pelos corredores brancos. Agradeceu mentalmente por não esbarrar com nenhum conhecido, poupando-lhe tempo e ânimo de precisar manter alguns minutos de conversa.

Girou a maçaneta do quarto 139, de Severus Snape. O professor que temera por tantos anos permanecia em coma, mesmo após três semanas desde o fim da guerra. Harry fechou a porta, frustrado pela falta de mudanças na situação.

Sentou-se na poltrona que havia ao lado da cama. Ele continuava voltando, sentando-se e esperando que algo ocorresse. Provavelmente era o único que se dava ao trabalho de visitá-lo.

Harry nunca falava nada, apenas sentava-se ao seu lado e ouvia os murmúrios incompreensíveis de Snape. Com frequência conseguia distinguir o nome de sua mãe sendo dito, o que o deixava ainda mais aflito para que o homem acordasse logo daquele coma.

— Harry?

A voz arranhada fez com que Harry olhasse o mestre, acreditando que imaginara o som do seu nome entre os murmúrios. Encontrou no entanto os olhos negros de Severus abertos, assustado, em sua direção.

— Professor, vou chamar um medibruxo! — exclamou Harry,, enquanto levantava-se rapidamente da poltrona.

— Onde estou? — Era estranho escutar a voz, que por tantos anos fora imponente, como um sussurro rouco, fraco. — O que aconteceu?

Harry ficou tentado a sair do quarto sem responder, mas o olhar de Snape era tão apavorado. Harry optou por se aproximar novamente da cama, mesmo sem saber ao certo como agir.

— O senhor foi atacado por Nagini e depois disso, me deu as lembranças que explicaram tudo que eu precisava. Quando derrotamos Voldemort, voltamos para a Casa dos Gritos e o senhor ainda estava vivo — Harry resumiu de forma rápida, mas sua explicação só pareceu deixar o mestre mais confuso.

Quando Harry se retirou do quarto para finalmente chamar um medibruxo, Severus permitiu que lágrimas deslizassem.

I finally sat alone

Pitch black flesh and bone

Couldn't believe that you were gone

(Flora Cash — You're Somebody Else)

Severus não sabia para onde iria quando tivesse alta, nem o que faria da sua vida, mas ele sentia-se despedaçado por estar vivo.

Seu olhar permaneceu no teto branco. Questionava-se por qual maldito motivo estava vivo mesmo após Nagini tê-lo atacado, quando ouviu a porta se abrir.

— Desculpa não bater, professor, força do hábito quando o senhor estava em coma — explicou Harry, parecendo envergonhado, bagunçando o seu cabelo ainda mais, se é que aquilo era possível. — Eu fiquei sabendo que o senhor vai ter alta ainda hoje.

Snape tentou buscar alguma raiva do garoto, mas não encontrou nada dentro de si. Lhe restara apenas o amor que sentia por seu filho, no sonho. Ele sabia que não eram as mesmas pessoas, mas mesmo assim…

— Me chame de Severus, apenas, Potter — pediu, tentando diminuir um pouco o muro de formalidade que tinham um com o outro.

— Claro, profess-Severus — Harry afirmou, sentindo-se ainda mais envergonhado. — E o senhor pode me chamar de Harry.

— Não sei se você tem alguma casa, mas por hora, a maioria está ficando no que restou de Hogwarts e estamos tentando reconstruí-la aos poucos. O que acha de ficar lá? — Questionou Harry, aproximando-se da cama na qual Severus estava deitado. Ofereceu a mão para ajudá-lo a sentar, quando viu que ele tinha dificuldade de fazê-lo sozinho.

Ao aceitar ajuda, Snape sentiu que mesmo que tentasse odiar novamente Potter, ele falharia. Ele pedira uma segunda chance quando estava próximo da morte. Lá estava a sua chance de se redimir com o mundo bruxo, de acertar seus erros, de tentar de alguma forma viver de um modo digno.

— Acho que será bom ajudar a reconstruir Hogwarts — “Ao seu lado, filho”, concluiu em pensamento.



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