Paternidade Surpresa (Severitus)

19 Capítulo 19 – A Ordem da Fênix


Capítulo 19 – A Ordem da Fênix

Snape não levou Harry para muito longe, visto que o menino estava em um estado avançado de desgaste tanto físico como mental e desaparatar com ele seria um risco muito grande, por isso adiantou-se para uma rua próxima e com um feitiço verificou que não havia ninguém em uma das oito casas extremamente iguais. Rapidamente seguiu até ela.

— Alorromora. – Disse apontando a varinha para a porta que se abriu facilmente.

Sem nem ao menos ligar as luzes dirigiu-se para o andar de cima e verificou os três quartos até achar o principal que continha uma cama de casal onde depositou Harry com cuidado fazendo um leve carinho enquanto ajeitava seus cabelos revoltos e retirava os óculos. Só depois de alguns segundos acendeu as luzes e pode então vê-lo realmente. Seus dedos se fecharam em punho com tanta força que as unhas poderiam rasgar sua pele, ele não ligava.

O que via a sua frente era talvez o pior pesadelo que poderia ter. Harry, seu filho, com sangue manchando a pele alva, o braço virado de uma forma antinatural e o semblante de medo mesmo desacordado como se o que vivera estivesse em sua mente, um pesadelo constante.

— Desculpe. – Sussurrou sendo ouvido apenas por Edwiges que pousara na cama ao lado de seu dono. – Era minha obrigação te proteger e eu não fiz.

A culpa sempre foi a fraqueza de Snape e o mestre sabia muito bem disso, mas não havia como não sentir culpa vendo o menino daquele jeito. Entretanto, naquele momento, o que precisava fazer era se concentrar e ajudar o garoto, poderia corroer-se depois. Harry era o que importava agora.

Com a varinha em riste fechou os olhos e pensou em uma imagem feliz, em Harry sentado em seu sofá conversando e rindo, Harry lhe abraçando e aconchegando-se em si em busca de segurança.

— Expecto Patronum.

A corça saiu bela pela ponta de sua varinha, caminhou ao seu redor e então foi atém Harry onde encostou o focinho em sua testa fazendo o semblante de medo dar lugar a tranquilidade.

— Obrigado. – Agradeceu Snape quando a corça voltou a se aproximar. – Preciso que entregue uma mensagem para Minerva McGonagall em Hogwarts.

A corça aprumou a postura e ouviu toda a informação dando uma reverência antes de sumir no ar.

Snape respirou fundi e sentou-se ao lado de Harry sabendo que tudo o que poderia fazer naquele momento era esperar. Por sorte sua espera não foi alongada, em poucos minutos ouviu o barulho característico de alguém aparatando e sem nem mesmo precisar olhar sabia que a pessoa que passava por seus feitiços de proteção era exatamente quem precisava naquele momento.

— Severus. – Ouviu a voz o chamando da porta.

— Minerva. – Cumprimentou com um aceno de cabeça. – Obrigado por vir.

— Claro que eu viria. – Disse a bruxa se aproximando da cama. – Por Merlin! – Exclamou ao avistar Harry. – Como ele está?

— Estável, mas bem machucado.

— Aqueles trouxas monstruosos. – Vociferou McGonagall enquanto fazia um carinho leve na testa do menino. – Nunca aceitei que ele tivesse que ficar com aquelas pessoas depois de Lillian e Thiago morrerem.

— Não precisa mais se preocupar com os Dursleys.

— O que você fez? – Questionou recebendo em troca um olhar que respondia sua pergunta. – Bom, não posso dizer que isso me incomode, acredito que mereceram, mas Dumbledore não gostará de saber o que houve.

— Eu me viro com Alvo. Agora precisamos cuidar de Harry.

— Sim, mas por que chamou a mim e não Papoula? – Perguntou tirando alguns vidrinhos de dentro de uma bolsa e colocando-os na mesinha ao lado.

— Precisava de alguém de confiança. Papoula é excelente em sua função, mas sabe que ela não guardaria um segredo desse do diretor e teria relatórios que o Ministério poderia ter acesso. Ninguém, a não ser o diretor, poderia fazê-la desistir de fazer um relatório. Conhece muito bem sua esposa e a cabeça dura dela.

— É, eu sei. – Murmurou McGonagall avaliando Harry com cuidado.

— Você estudou medibruxaria antes de ser professora. Pode ajudar ou não?

— Claro que posso, só enfatizei o fato de Papoula ser melhor que eu. – Sentenciou Minerva olhando para Snape raivosamente como se Snape duvidar de sua competência fosse uma grande afronta ao seu ego. – Bom, eu trouxe as poções que pediu para pegar no seu laboratório.

— Ótimo, elas ajudarão a repor o sangue e magia dele.

— Vou recolocar o braço dele no9 lugar e curar alguns ferimentos, depois ministramos as poções e aguardamos ele se recuperar.

Snape assentiu e se afastou deixando Minerva trabalhar. Apesar de fazer muitos anos que estudara a medicina bruxa, McGonagall era muito habilidosa, tinha um semblante bem concentrado e trazia em sua varinha um grande poder.

— Pronto. Agora é deixá-lo descansar, deve acordar em algumas horas.

— Certo.

Snape respirou fundo e colocou os cabelos negros atrás da orelha, seus olhos presos no menino que agora dormia tranquilamente sem nenhuma marca aparente de abuso, nem manchas de sangue em seu rosto. Os óculos repousavam no criado ao lado onde Edwiges montava guarda. Minerva aproximou-se e tocou levemente em seu braço, o toque era quente e carinhoso, acalentador, Snape gostou de senti-lo, mas não diria isso a mulher, ela ficaria insuportável.

— Vamos, Severus, vamos tomar um café. Tenho certeza que esses trouxas devem ter algo interessante na cozinha. Harry vai dormir por algumas horas ainda.

McGonagall deu um aperto delicado e forte na medida certa para fazê-lo afastar-se do quarto e descer as escadas rumo a cozinha. Ao chegar ali sua mente começou a trabalhar em uma única tarefa de forma mecânica, fazer o café para ambos. Com maestria que não era comum para um bruxo o homem abriu armários e mexeu nas panelas e ingredientes que levara ao fogo.

— Quando falei em tomarmos um café quis dizer agitar a varinha e fazer aparecer a nossa frente. – Comentou a bruxa sentando-se a mesa e entrelaçando os dedos das mãos enquanto o observava.

— Fazer isso distrai minha cabeça. – Disse Snape recostando-se a um armário e cruzando os braços em frente ao peito, seu rosto impassível.

— Quem te ensinou?

— Thobias. – Snape respondeu secamente. Não era necessário que Minerva soubesse que seu pai o obrigava a fazer o café da manhã quando sua mãe estava impossibilitada fisicamente e depois de um tempo, psicologicamente.

— Você nunca falou muito sobre sua família.

— Não tenho motivos para isso.

— Certo. Bom, se um dia tiver motivos eu sou uma boa ouvinte.

Snape não respondeu, virou de costas e terminou de preparar as bebidas levando duas xícaras até a mesa onde se sentou defronte a mulher. Levou sua xícara aos lábios sentindo o líquido quente queimar a ponta de sua língua.

— O que vai fazer agora?

— Esperar ele acordar e levá-lo a Ordem.

— Alvo não gostará disso. Não estava nos planos dele Harry chegar tão cedo a Ordem.

— Eu lidarei com o velho.

— Por que não o leva a Hogwarts. O menino ama aquele lugar.

— Harry precisará sentir-se acolhido e perto de pessoas que farão bem a ele. Por mais que deteste aquele pulguento, Harry gostará e precisará ficar perto de Sirius, visto que é a ligação mais forte que ele tem com a imagem de Potter que ainda é muito importante para ele.

— Acredito que Thiago jamais deixará de ser importante para o menino, independente do que faça para ele esquecer.

Snape franziu a testa e olhou sério para Minerva.

— Eu jamais faria qualquer coisa para que Harry esquecesse Potter. Se ele quiser considera-lo seu pai, ele o fará e eu não vou impedir, isso o destruiria.

— Muito altruísta de sua parte, Severus.

O mestre de poções deu uma bufada e voltou a tomar seu café fugindo temporariamente daquele assunto. Apesar de dizer que não impediria Harry de se lembrar, gostar e considerar o homem que sempre odiou como seu verdadeiro pai, sua vontade era de obliviar a mente do menino. No entanto, não poderia agir de tal forma, seria uma violação gravíssima ao menino.

— O senhor Weasley está na Ordem, Harry gostará de se juntar ao amigo. – Comentou quando o silêncio começou a pesar.

— Com certeza. – Concordou Minerva. – Os amigos farão muito bem a ele. Posso buscar a senhorita Granger se quiser, tenho certeza que ela gostará de ficar perto dos amigos.

Snape assentiu e tomou outro gole do café, estava forte e sem açúcar como gostava. Por muitos minutos ambos ficaram em silêncio apenas aproveitando a presença um do outro até que Minerva afastou a xícara vazia e se levantou.

— Preciso voltar. – Disse arrumando o chapéu. – Harry deve acordar nas próximas horas, cuide para que beba muito líquido e poções restauradoras também. Se precisar me chame novamente.

O homem balançou a cabeça e permaneceu onde estava, os olhos negros ficados em suas mãos que seguravam a xícara também vazia. McGonagall caminhou até de trás dele e antes de seguir seu caminho até a entrada da casa postou uma mão no ombro tenso dele e o apertou carinhosamente sem dizer uma única palavra. Aos poucos os ombros duros relaxavam e antes que a mulher tirasse sua mão dali, dedos finos tocaram de leve nos seus fechando-se cuidadosamente em um aperto leve e intenso. Minerva fez um leve carinho na mão pálida antes que a mesma a soltasse e voltasse a segurar a xícara vazia. Então a bruxa respirou fundo e seguiu para a saída desaparatando ao longe.

A casa permaneceu silenciosa durante muitas horas enquanto Snape velava o sono de Harry sendo interrompido apenas pelo som do menino tomando as poções nas horas certas. Já era tarde do dia seguinte quando o menino manifestou-se mostrando que o sono restaurador estava o deixando e o consciente o invadia fazendo com que seus olhos abrissem.

A princípio Harry demorou um pouco para entender onde estava, porém mesmo sem óculos sabia que não estava nos Dursley, pois a cor que via embaçada não era a mesma cor das paredes na casa de seu tio. Sua testa franziu e seus olhos estreitaram em confusão. Respirando fundo tateou a mesinha ao lado em busca de seus óculos, achando-os na mão do homem que se aproximou e os colocou em seu rosto.

— Pai. — Sussurrou Harry olhando surpreso para Snape que se sentava devagar ao seu lado ao mesmo tempo que colocava a mão em sua testa medindo sua temperatura. — O que faz aqui? Onde é aqui?

— Não importa. — Disse Snape arrumando o cabelo rebelde do menino. — Só importa que você está seguro.

Aos poucos o entendimento do que acontecera aparecia na mente de Harry e Snape viu o menino encolher enquanto seus olhos se amedrontavam.

— Você não veio.

— Não pude, não consegui vir até terminar uma tarefa importante.

— Eles, eles …

— Não precisa se preocupar com eles, não mais. – A voz de Snape era dura, mas ao mesmo tempo baixa e calma. — Seus tios e primo jamais poderão te fazer mal novamente.

— O que aconteceu com eles? — Perguntou Harry com a testa franzida.

— Eu matei seus tios, enlouqueci seu primo e também Nolan Dant. — Respondeu prontamente preferindo ser completamente sincero com o garoto.

Harry ficou calado por um momento sem saber o que dizer. Aquela informação era pesada e intensa. Não sabia ao certo o que deveria pensar. Estava livre de todo o sofrimento que aquelas pessoas lhe causaram e poderiam vir a causar e estava feliz por isso, aliviado com certeza, mas ao mesmo tempo eram seus parentes, deveria estar triste também?

— Você disse Nolan? – Questionou olhando surpreso para Snape e vendo em seus olhos negros a verdade clara. — Então você sabe.

— Sim, eu sei o que aquele garoto fez com você e entendo o porque não contou para mim. — Harry baixou a cabeça e um vermelhidão apareceu em suas bochechas brancas. Snape baixou a voz. — Você não tem culpa de nada. Você foi uma vítima, eles eram os culpados, não você.

— Eu deveria ter sido forte. — Sussurrou Harry colocando para fora pela primeira vez o que sentia. — Mas eu congelei, não consegui fazer magia, nem mesmo gritar. Eu fui fraco, não fiz nada.

— Me escute e preste bem a atenção no que vou te dizer. – Disse segurando o rosto do menino o fazendo olhá-lo. — Você não é fraco, é o menino mais forte e corajoso que eu já conheci. Adultos não passariam pelo que passou com tanta força assim.

— Eu não quero mais lembrar disso. — Disse Harry respirando fundo. — Por favor, tira isso de mim.

— O que? – Foi a vez de Snape franzir a testa.

— Tira todas essas lembranças da minha cabeça. Eu não quero mais lembrar de nada, por que dói. Dói demais.

— Retirar essas memórias não é o caminho certo para superá-las.

— Você superou o que seu pai te fez? — Snape engoliu em seco e Harry viu os ombros do homem baixarem após alguns minutos em silêncio. — Por favor, eu não te peço mais nada na minha vida, mas por favor, me faça esquecer.

Snape se levantou e foi até uma janela olhando lá para fora e vendo as casas idênticas e sem graça. Tirar uma lembrança era fácil, poderia obliviar a mente do menino e fazê-lo esquecer esses momentos. Era fácil, mas não era o certo. No entanto, não poderia deixar seu filho sofrendo com lembranças que só trariam tristeza a ele. Era seu papel protegê-lo, cuidá-lo e garantir que ele fosse feliz, não era?

— Está bem. Eu posso fazer. — Harry olhou para o homem com alegria estourando em seus olhos. — Mas para eu fazer isso, terei que ter acesso a todas as suas lembranças, verei cada momento que já passou com seus tios. Sei que você ainda esconde algumas coisas que eles fizeram com você e tudo bem, é seu direito, mas agora eu precisarei ver. Você quer mesmo isso?

— Sim, eu quero. — Disse Harry decidido.

Snape assentiu levemente com a cabeça.

— Prometo que você não sentirá nada, será como adormecer e acordar sem se lembrar com o que sonhou.

— Tudo bem.

— Você ainda lembrará de seus tios, vou apenas retirar o que tiver de ruim.

— Está bem.

— Está pronto? — Perguntou apontando a varinha para o meio da testa do menino.

— Sim. — Respondeu após alguns segundos com os olhos fechados pensando em como seria viver sem aquelas lembranças cruéis.

— Olhe para mim. Obliviate.

Demorou um pouco para que Snape conseguisse apagar as memórias dolorosas que Harry passara junto aos tios e primo. Havia muitas lembranças ruins e quando finalmente terminou achou que a morte era um castigo bom demais para Valter e Petúnia, deviam ter sido torturados dolorosamente até sucumbirem. Mas o importante era que Harry agora teria apenas lembranças comuns em sua mente. Agora ele poderia ser um menino normal, pelo menos o mais normal possível para quem é o menino que sobreviveu, sem pesadelos de um passado atormentado por quem deveria dar-lhe amor e cuidado.

Harry adormeceu novamente como Snape previra devido o esforço de ter as memórias apagadas, mas agora seu sono era mais tranquilo, era possível perceber no semblante calmo de seu rosto.

A lua já estava alta no céu noturno quando Edwiges largou o rato que estava comento e piou baixinho fazendo Snape olhar para a cama e ver o menino acordando. Agora era o momento em que descobriria como ele estava após ter as memórias apagadas. O mestre de poções se aproximou e entregou os óculos que ele procurava.

— Oi.

— Oi, como se sente?

— Bem. — Disse Harry franzindo a testa. — Um pouco confuso talvez.

— O que você se lembra?

— Estava na casa dos meus tios esperando que fosse me buscar, e… não lembro mais.

— Eu fui buscá-lo, você não estava muito bem. — Mentiu Snape que também decidira apagar o fato de ter matado os tios de Harry. Seria difícil explicar o motivo de tal ato. — Eu o levaria para ficar com os Weasley, mas resolvi cuidar de você primeiro. Agora você já está bem e podemos ir.

— Vou ficar na Toca? Pensei que ficaria com você.

— Eu ficarei com você, mas não na Toca, iremos para outro lugar, explicarei mais tarde.

— E a proteção da minha mãe, não dará nenhum problema?

— A proteção da sua mãe não será mais necessária, você terá a minha.

— Então não precisarei voltar a rua dos Alfineiros?

— Não, você nunca mais verá seus tios e seu primo.

Harry balançou a cabeça e depois de alguns segundos se levantou pegando as roupas que Snape lhe deu para se trocar. O homem observava o menino atentamente, o braço estava como novo e os ferimentos há muito haviam sumido. Qualquer lembrança do que acontecera a ele estava apenas na sua memória, pois o garoto não se recordava de nada e assim deveria ser.

Com tudo pronto, Snape o levou para a rua e pediu para que segurasse seu braço. Harry nunca tinha desaparatado e achou aquela experiência horrível. Snape aguardou o menino recuperar o folego antes de lhe entregar um papel e pedir para que lesse o endereço que continha nele. Harry achou estranha aquela atitude e mais ainda o lugar em que estavam, mas nada superaria a estranheza de ver uma casa aparecer do nada no meio de outras casas.

— Onde estamos?

— Essa é a sede da Ordem da Fênix e a casa do seu padrinho. – Complementou Snape de mal gosto.

— Sirius. – Sussurrou Harry se adiantando para a porta e a abrindo.

Snape o acompanhou fechando a porta ao passar. Odiava aquele lugar, não por ser estreito, escuro e frio, sua casa era assim também, mas porque sabia que Harry sentiria aquele lugar como um lar e tudo devido o homem que vinha abraçar o menino com um sorriso no rosto.

Sirius parecia muito contente por ver seu afilhado ali consigo, o levou para conhecer o quarto onde ficaria, os outros cômodos da casa e então o carregou para a sala de estar o sentando em uma poltrona e perguntando diversas vezes como ele estava.

— Tem problemas de memória, cachorro? – Perguntou Snape pegando um copo de bebida e se sentando próximo a Harry. – O garoto já disse que está bem.

— Não venha querer ser muita coisa por aqui ranhoso, essa é a minha casa e ele é meu afilhado.

— E meu filho.

— Ele sempre será o filho de Thiago.

— Ora seu...

Ambos adultos se ergueram encarando-se com ferocidade, varinhas seriam apontadas um para o outro de Harry não tivesse se erguido também e se colocado no meio dos dois.

— Parem. – Pediu espalmando a mão no peito de cada um e os empurrando para longe um do outro. – Se vamos ficar aqui, precisaremos ter um bom convívio.

— Como se desse para conviver com esse ranhoso.

— Sirius, por favor.

Sirius olhou de Snape para Harry e demorou um pouco para respirar fundo e se afastar. Snape o seguiu com os olhos afiados e então se afastou também sentando-se em uma poltrona oposta.

— Ok, escutem os dois. Eu só vou falar uma vez. Sei que os dois se preocupam comigo e sei que vocês tem assuntos muito antigos para tratar. Mas não vai funcionar dessa forma, não quero ficar no meio de briga de vocês. Sirius, eu sempre amarei Thiago como meu pai, mas Snape é meu pai e eu preciso que você aceite e entenda isso. E pai, Sirius é meu padrinho você querendo ou não, gostando ou não. Não vou afastá-lo. Preciso que vocês ao menos convivam de forma educada.

— Está bem Harry. Posso tentar, por você. – Disse Sirius se levantando e dando tapinhas nas costas do menino. – Parecia até a Lilian quando brigava conosco na escola. Ela falava exatamente dessa forma. Era aterrorizante.

Harry deu um sorriso grande e apesar de aceitar aquele acordo forçadamente, Snape não se afastou e continuou naquela sala ouvindo Black falar de Lilian em sua época da escola, porém dessa vez não pela memória dela e sim pela visão do grifinório feliz.

Como prometido, Sirius e Snape conviveram em paz durante os outros dias em que estavam apenas eles dentro de casa. Não havia muito falatório por ali, o mestre de poções normalmente estava lendo os livros que encontrara na biblioteca da família Black que era enorme e continha muita coisa de Artes das Trevas que achava interessantíssimo para seu conhecimento. Sirius cuidava de Bicuço no sótão e se ocupava tentando limpar a casa, pois os membros da Ordem chegariam logo. Harry hora estava fazendo os deveres que os professores passaram para as férias, hora estava alisando e limpando sua vassoura, as vezes ele conversava um pouco com Sirius que se perdia em histórias antigas e as vezes ouvia Snape falar sobre magias antigas e fatos históricos interessantes.

Dois dias depois os membros da Ordem começaram a chegar, primeiro vieram os Weasley. Molly quase esmagou Harry em um abraço apertado ouvindo um “Deixe ele respirar mamãe” de um Fred que aparatara bem ao seu lado levando uma bronca da matriarca que se assustou com o aparecimento do filho. Rony se adiantou apertando a mão de Harry e já querendo o puxar para irem jogar um pouco de Snap Explosivo. Os outros Weasley se espalharam pela casa fazendo Snape se esconder na maioria do dia na biblioteca. Hermione chegou um dia depois acompanhada pelo senhor Weasley que foi buscá-la na casa de seus pais, segundo a menina, ela chegaria umas horas antes, mas o senhor Weasley ficou admirado com a casa e os utensílios dela e alugou o senhor e a senhora Granger com diversas perguntas sobre sua utilização. Os outros membros da Ordem foram chegando aos poucos e Harry achou que a casa não comportaria toda aquela gente, no entanto todos couberam muito bem durante as reuniões e jantares.

— Se escondendo?

Snape levantou os olhos do livro que estava lendo e viu Harry entrando na biblioteca indo se sentar na poltrona a sua frente.

— Não vejo necessidade de expor minha presença fora das reuniões diárias.

— Você me disse que socializar era uma coisa importante.

— Para você, não para mim. – Disse fechando o livro e o equilibrando em sua coxa. – Já fez seus trabalhos?

— Já, Hermione insistiu muito e não tive como fugir dela.

— A senhorita Granger sempre foi sensata.

— Um elogio? Hermione vai adorar saber.

— Nem se atreva. – Snape olhou intensamente para Harry que riu colocando a mão na barriga.

— Vim na verdade avisar que o jantar está pronto, a senhora Weasley fez um caldo de cebola que parece estar bem gostoso pelo cheiro. – Harry esperou, mas Snape não fez menção de levantar-se. – Os membros da Ordem já foram embora.

— Ótimo.

— Você não vai mesmo me contar o que conversam nessas reuniões.

— Já te falei que quando você tiver que saber de algo eu contarei.

— Mas é injusto. – Disse Harry olhando-o indignado. – Sou eu que Voldemort quer morto mais que a qualquer outro. Eu o vi voltar, eu lutei com ele e vi Cedrico...

As palavras engasgaram em sua garganta, Harry olhou para o chão e mexeu nervosamente os dedos enquanto cerrava os lábios. Snape esfregou a testa com os dedos, Harry ainda sofria com o que acontecera ao lufano e se pudesse lhe dizer o que acalmaria o coração jovem, falaria, mas não podia.

— Harry, você saberá dos planos da Ordem, mas antes disso precisamos conversar muito nas estratégias. Quando chegar a hora eu mesmo falarei tudo que você precisará saber.

— Promete?

— Prometo. Agora vamos jantar antes que Molly venha me buscar.

— Ela diz que você está muito magro.

— Se eu comesse tudo que aquela mulher me oferece no dia estaria maior que Hagrid.

Harry riu e Snape gostou muito daquele som.

O mestre de poções colocou o livro na mesinha ao lado deixando marcada a página em que parara, arrumou o sobretudo e saiu da biblioteca junto do menino. Ao descerem as escadas encontrou uma última pessoa da Ordem saindo da sala de jantar.

— Ah, olá Severus. Não sabia que estava por aqui, não te vi depois da reunião, pensei que tivesse ido embora.

— Emelina. – Cumprimentou Snape fazendo uma leve reverência com a cabeça. – Não era necessária minha presença em conversas fúteis.

— Sua presença é sempre bem vinda, Severus. – Disse Emelina sorrindo. – Pelo menos para mim.

Snape olhou-a com atenção e apenas fez um leve levantar de lábios, quase imperceptível. Harry franzia a testa e olhava de um para o outro.

— Bom, tenho que ir, já está tarde. – Disse a bruxa acenando com a mão e indo até a porta de entrada.

Harry se inclinou para ver além de Snape que observava a bruxa ir embora.

— Acho que ela gosta de você. – Comentou baixinho.

O mestre de poções revirou os olhos e seguiu para a sala de jantar dando as costas para o menino. Harry olhou mais uma vez para a porta de entrada que agora estava fechada e então para as costas largas do professor que sentava-se a mesa. Um sorriso abriu-se em seu rosto quando uma ideia se fez presente em sua mente travessa.