Pasárgada
4 Capítulo lV
Aaron
1 semana depois.
Tem sete dias que não volto ao bosque. Me sinto envergonhado pelo que ordenei à garota. Além disso, aquele lugar é meu e sempre foi meu lugar de isolamento, mas agora ela já o encontrou, e ele já não é mais só meu. O único conforto que tinha em minha vida era aquele lugar, e agora eu já não o tenho.
Como todos os dias passo pelos corredores sem ser notado por nenhum dos meus empregados. Faço minha refeição da manhã com desgosto e me apronto para comandar as obras do lado oeste. Tudo parece doer em meu corpo, mas sei que é só meu estado de espírito. Subo no meu cavalo e deixo-o me levar para o reino. fecho os olhos e afundo meu rosto em sua crina macia deixando as lágrimas molharem-a. Tudo parecia escuro, e eu sofria tanto que não conseguia me mexer.
De repente o cavalo diminui a velocidade e para. Levanto-me e me recomponho em minha casca de dureza, mas percebo que ao invés de me levar ao reino, meu cavalo real me trouxe à clareira, acaricio sua crina devagar. Ele sabe de alguma maneira de quando eu preciso deste lugar e eu o amo tanto por isso. Ele relincha e deita-se sobre suas pernas, me incentivando a descer, apenas me inclino para o chão e me encolho em posição fetal. E rezo. Rezo para essa dor passar. Rezo para que fique tudo bem, mas sei nada ficará bem.
***
Fazia cerca de duas horas que estava ali sem me mexer. A dor não passou. Na verdade era um grande paradoxo a imagem que se formava quando ia para lá. Um lugar feito de luz para alguém construído de escuridão. O silêncio aos poucos foi quebrado por passos. Era incapaz de me mover, mas não me preocupei. Qualquer camponês que passasse e me visse, desviaria a rota e esqueceria que me viu. Minha angústia é algo pesado demais para que a mente sempre feliz deles registrasse.
Para minha surpresa os passos se aproximaram e pararam ao meu lado.
—Vá.- ordenei apenas.
—Não.- para minha surpresa uma voz incrivelmente doce respondeu. Doce demais para ser contrariada. Levei dois segundos para reconhecer que foi a mesma voz que negou outra ordem minha sete dias atrás. Tinha ordenado para que ficasse, ela me deixou. Ordenei para que me deixasse, mas ela ficou. Quanta ironia.
Abri um olho por vez, e ainda deitado encarei-a. Com o rosto ainda molhado por lágrimas encarei-a. Os cachos negros emolduravam seu rosto da mesma maneira que me recordo que faziam, notei dessa vez que possuía sardas ao redor dos olhos e que o formato do seu rosto lembrava o de uma fada, com o queixo pontudo mandíbula inclinada. A boca era pequena, mas vermelha e ela me encarava com olhos grandes e negros.
Ela percebeu que eu chorava e se assustou.
—Me desculpe se te aborreci por negar-te uma ordem. Vou deixar vossa alteza sozinha.
Não sei de onde minha voz surgiu, mas me surpreendi falando:
—Não! Fique por favor.
Pela primeira vez ela me obedeceu. Sentou-se sobre suas pernas ao meu lado e ficou em silêncio. E pela primeira vez eu não me senti completamente sozinho.
***
Passamos o dia inteiro em silencio. Ela sentada ao meu lado, eu imerso em minha dor. Em algum momento ela se levantou e quando regressou trouxe frutinhas que não comi, e ainda estão na minha frente. Quando o sol começou a baixar se despediu. "Preciso ir. Espero que fique tudo bem" E se foi. Desde então ainda estou aqui. Apenas quando meu cavalo começa a comer as frutinhas decido voltar ao palácio.
Chamei atenção de Felicity, o cavalo acariciando sua crina e montei na cela.
—Hora de ir, Felicity.- O cavalo deu meia volta e galopou de volta para o palácio. De volta para as paredes pomposas e frias. longe do calor da clareira.
A penumbra do crepúsculo criou um ar muito sombrio no caminho de volta para o castelo, e a neblina me impedia de distinguir as formas distantes. Por isso não percebi a carruagem a mais que estava com as outras nem o cavalo Peeta que estava no estábulo. O castelo não estava em seu silêncio habitual noturno, assim que entrei no castelo vi todos os servos mais animados do que o normal e só então percebi que isso significava que Ela havia finalmente chegado. Apresso o passo ansioso e bati polidamente na porta do quarto.
—Finalmente você chegou, irmãozinho.
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