Notas iniciais
Espero que gostem

Ália

O sol batia no meu rosto quando acordei. Levantei-me mais cedo do que o usual, o que me deu uma oportunidade de apreciar melhor as primeiras horas da manhã. Abri a janela do meu quarto e me debrucei sobre o parapeito. É incrível a forma que a natureza persistia alheia aos avanços do reino de Pasárgada.

Fechei a janela e vesti um vestido de tecido fino sem espartilho. acordei com uma sensação de liberdade e queria mante-la. Calcei as sapatilhas mais confortáveis que tinha e prendi meus cachos negros em um coque arrumado. Fitei meu reflexo no espelho com um sorriso vibrante. Me senti bela e disposta. De um modo especial, hoje tudo parecia mais vibrante, mais bonito. Saio do meu quarto para a cozinha e sou recebida por meus pais tomando café.

-Bom dia, docinho.- cumprimenta meu pai.

-Bom dia papai, bom dia mamãe.- desejo aos dois.

-Bom dia, Alia. temos biscoitos. Aproveite, pois gastei os últimos eamlas no trigo que usei neles.

Peguei um dos que estavam no prato e provei.

-Estão incríveis, mamãe.- terminei de comê-lo- já acabaram as eamlas desse mês? Mas ainda faltam 15 dias para a redistribuição da produção.

-Daremos um jeito- comentou meu pai despreocupado.

Terminei de comer enquanto meus pais conversavam sobre alguma coisa que aconteceu com minha mãe enquanto ela exercia sua função nas lavouras de cevada.

-Mãe. Vai precisar de minha ajuda nas lavouras hoje?

-Não querida. Tens planos para hoje?- Perguntou.

-Sim. Quero ir ao bosque.- respondi. desde pequena tenho uma admiração pelo bosque ao redor do meu reino. Gosto de procurar por clareiras e observar os animais. vez ou outra trago plantas desconhecidas para plantar no meu quintal, apesar da minha mãe pedir que eu não continue fazendo isso.

-Tudo bem. Tome cuidado.- recomendou meu pai.- sairei para a pesca em barco fenício. provavelmente passarei cerca de uma semana por lá.

-Boa pescaria papai.- beijei a bochecha dele.- traga algo para mim, ta?

-Pode deixar.

Voltei ao meu quarto e peguei a minha capa.

-Adeus mamãe e papai. vejo-os em breve.- joguei beijos por cima do meu ombro e saí correndo para fora. Meu lar ficava próximo aos limites do meu reino, o que me fazia ter um acesso fácil ao bosque. além dele havia apenas o castelo, mas eu nunca havia ido até lá. Interrompi a minha caminhada ao encontrar Lena, a senhora gentil que morava apenas algumas casas após a minha.

-Bom dia, Lena.- cumprimentei-a com um beijo no rosto.

-Bom dia, Alia, querida. Está uma jovem tão bela.

-Obrigada. está um dia lindo, não é mesmo?- comentei.

-Oh sim. O dia está mesmo lindo.Está indo ao bosque?- ela me perguntou.

-Sim, talvez consiga encontrar uma nova clareira.

-Muito bem querida.- ela entrou repentinamente dentro da casa me deixando confusa do lado de fora. Lena era uma senhora da nossa comunidade um pouco peculiar. Ninguém sabia sua verdadeira idade, e acho que eu era a única amiga dela.- leve esses pães que eu fiz hoje mais cedo. Não queres passar fome dentro do bosque, certo?

-Muito obrigada, Lena.- fiquei receosa de aceitar a comida dela, então perguntei.-não vai fazer falta para a senhora?

-Não querida, leve contigo. E tome cuidado.

- Obrigada. nos vemos quando eu voltar.- dei-lhe um sorriso sincero e voltei a caminhar para o bosque. Conforme fui me aproximando do bosque meu ritmo foi acelerando até que alcançei os limites do reino correndo.

Fechei os olhos para Apreciar o vento frio bater no meu rosto e fazer barulho nos meus ouvidos. Adorava a capa esvoaçando atrás de mim. Sempre adorei a sensação de liberdade que vem quando corro.

***

Depois de cerca de 1 hora e meia de caminhada alternada com corrida em alguns pontos encontrei uma clareira. Não. Não uma clareira apenas. A clareira é mais adequado. Desde que comecei a explorar o bosque nunca encontrei lugar tão belo e encantador. A floresta nunca foi muito frequentada, pois não era exatamente o que as pessoas chamam de acolhedor. As árvores eram altas e as folhas costumavam tampar boa parte dos raios solares deixando-o sempre com um ar de inóspito. Mas não essa clareira. Ela definitivamente não era assim. Os raios solares alcançavam esse trecho da floresta como se fosse o único lugar para estar. Grama tão verde e macia não podia ser encontrada em nenhum outro lugar do reino e era pontilhada por pequenos pontos de cor das flores que cresciam sem distinção. Pelo aroma doce percebi que poderia haver plantas frutíferas por perto, e pelo som de água soube que, também por perto, corria um rio. Parecia um pedaço do paraíso.

Saí da sombras dos limites da clareira devagar e em silencio, com medo de tal lugar ser apenas fruto da minha imaginação. Mas não era. conforme fui andando mais mágico o lugar me parecia. Tão cheio de cor... tudo parecia vibrar ali. Tudo tinha tanta vida! As borboletas passavam por mim sem medo nenhum e algumas chegaram a pousar no meu cabelo que se soltara enquanto eu corria. Esquilos, coelhos, castores e veados passavam por perto sem medo de serem caçados e pássaros cantavam canções suaves. Aos poucos fui entendendo que aquele lugar era real.

Quando me vi localizada no centro da clareira me sentei no chão com as pernas esticadas. Soltei o coque que prendia meus cachos, chutei as sapatilhas e joguei a cabeça para trás. Nunca me senti tão livre e relaxada em algum lugar como me sentia. A clareira despertou tantas sensações em mim que eu sentia vontade de cantar, dançar e voar. Quase inconscientemente comecei a cantar uma melodia que vinha do fundo da minha mente. Não identifiquei na hora de onde ela vinha, mas quando cheguei no refrão me lembrei.

A cena voltou em minha mente com tanta força que por alguns minutos eu fui novamente aquela garotinha de olhos grandes sentada no parapeito da minha janela. Desde que me lembro sempre fui visitada por uma moça incrivelmente linda que parecia uma fada aos meus olhos. Ela sempre aparecia de surpresa quando estava sozinha, brincava e conversava comigo. Lembrei-me de certo dia em que ela me mostrou uma dança diferente de qualquer outra em Pasárgada. A Saudade se manifestou em meu coração com essa lembrança quase em torpor me levantei e reproduzi a coreografia quase esquecida.

Pus as mãos em ângulos estranhos ao lado da minha cabeça e comecei a balançar os quadris em um ritmo lento que eu tinha em minha cabeça. Com os pés descalços rodopiei em volta de mim mesmo e balancei o pescoço de um lado para o outro. Em seguida foram os ombros. Em apenas um ritmo eu girei, rodopiei e balancei meus quadris. Por último joguei meu tronco para trás o máximo que consegui com os olhos fechados. Balançando os braços para cima e para baixo.

Estava envolta em uma atmosfera tão mágica de nostalgia que apenas ao fim percebi que estava sendo observada. Envolta pelas brumas da floresta uma criatura me observava. Parada, em silencio, em uma postura tão rígida que me fez congelar.

Estava sozinha no meio do bosque. Sendo observada por um estranho.

"Oh não! Isso não pode ser bom" pensei.