Past's Brand
2 Pesadelos costumeiros.
Notas iniciais
20 de janeiro de 2013 às 17:55
Novos vizinhos?
Tudo bem se mudarem, contanto que não impliquem com minha música. Pensava Melanie, enquanto sentada sob sua coberta florida em rosa e saboreava um suco de laranja que sua avó preparara.
E quem era aquele garoto? A muito tempo não via um tipo como ele. Cabelos castanhos escuros bem arrumados com um penteado um tanto diferente, roupas estilosas e um corpo bronzeado e bem legal. Um gatinho, pensou ela.
Daí pensou em si mesma, não era tão atraente, e também não era do tipo imaturo que chama garotos de "gatinhos". Melanie sempre odiou seus cabelos desbotados lisos demais, e seu corpo exageradamente magro, e seu rosto parecia desproporcional ao seu corpo. E as pernas, ah as pernas. Eram finas e brancas, não gostava de ser tão branca, mas como Precious Gold era fria e sem sol na maior parte do ano, era muito dificil conseguir alguma cor.
Sua vó sempre a dissera que aparência não importa, e ela nunca questionou, até crescer, ter suas próprias opiniões e receber más influências como as meninas do seu colégio, a internet, a mídia...
Melanie terminou seu suco, colocou-o sobre a velha penteadeira que outrora pertencia a sua falecida mãe, calçou suas pantufas rosas e andou até a parede espelhada de seu quarto, para olhar seu reflexo.
Não devo ser convencida por más influencias, não devo ser convencida por más influencias, não devo ser convencida por más influencias. Repetia ela enquanto se ajeitava e no espelho até receber o chamado de sua avó.
–Melanie, querida. Desça aqui — gritou Dona Aidê, do andar de baixo.
–Já desço, vó — respondeu a adolescente.
Malanie deu uma última ajeitada na sua saia de renda branca e jogou seus cabelos loiros aos ombros. Pegou seu copo sobre a penteadeira e se dirigiu até o andar de baixo. Pensou em colocar o copo na cozinha mas como não acho sua avó, colocou-o na mesa da sala.
–Vó... — chamou.
–Aqui querida — o chamado vinha da varanda.
Melanie caminhou a porta meio preocupada. A luz da tarde incomodava seus olhos e um vento gelado percorria o caminho.
Dona Aidê estava sentada na sua cadeira, de balanço como sempre, de olhos fechados.
–Algum problema, vó?
Dona Aidê abriu os olhos e se ajeitou em sua cadeira.
–Temos novos vizinhos — disse ela, com sua velha voz rouca e agradável e seu sotaque levemente português.
–Isso é problema? — perguntou Melanie, a frase saiu mais irônica do que ela espera.
–Na verdade, sim.
–Por que, vó? — Melanie se sentou na cadeira ao lado de sua avó, a mesma que sempre sentava, para olharem a chuva, conversarem sobre as novidades dos telejornais e rirem das velhas histórias que Dona Aidê contava, mesmo que repetitivas.
A velha senhora ajeitou seu coque com os dedos de depois cruzou-os de frente á sua barriga.
–Já te contei sobre Catarina?
–A minha tataravó?
–Sim.
–Várias vezes, ela morava na casa aqui ao lado não é? E meu tataravô também, o...
–Osmar — completou Dona Aidê.
–Isso, Osmar! — afirmou a garota — Mas o que tem?
–Um coisa que eu não te contei é que... Catarina... Bom, ela morreu muito cedo. Ela teve minha mãe com Osmar e, como não podiam criá-la, entregaram para adoção, na época poucas crianças eram adotadas facilmente então ela ficou no orfanato até virar maior de idade. Quando saiu, descobriu suas origens e veio morar aqui, perto da casa dos pais, ainda tinha esperança de vê-los vivos. Mas quando chegou descobriu que não estavam...
–Nossa, o que aconteceu?
–Não se sabe. Um dia, a família de Osmar veio visitá-lo na casa, e encontraram ele e Catarina mortos. Só se sabe isso.
–Então a senhora tem medo deles morarem ali por causa da minha tataravó morta
–Quando minha mãe descobriu que eles estavam mortos, comprou a casa e proibiu qualquer um de entrar alí. Quando ela morreu a casa passou para o nome de seu pai mas...
Dona Aidê se interrompeu, o assunto da morte dos pais de Melanie já estava sendo evitado por anos.
A senhora olhou para Melanie, seus olhos claros estavam beirando lágrimas e seu olhar estava fixo no milharal que ficava no horizonte dos campos de uma fazenda.
–Me desculpe, querida.
Dona Aidê pegou na mão de sua neta e sorriu.
–Tudo bem, vó. Eu tenho mesmo que superar isso.
Melanie secou suas lágrimas com os dedos e sorriu de volta para a avó.
–Bom, é isso. A casa não pertence mais a nossa família e foi vendida para eles, e é o que eu temia
–Está tudo bem, vó. Não tem o que temer. Eles talvez sejam legais, amanhã nós podemos ir à casa e conversar com eles, ok?
–Ok — responde Dona Aidê sorrindo, ironizando a fala coloquial.
Melanie beijou sua avó na bochecha, levantou-se de sua cadeira branca de madeira e voltou para dentro de casa.
Jonas se "acomodou" em um pequeno quarto do 2º andar.
Tamanho de aproximadamente 10mx10m, algo até bem aconchegante, se nao considerado o estranho cheiro de mofo, as paredes amareladas manchadas e a decoração do século XIX. Havia uma pequena cama de ferro sem o colchão, sob a cabeceira havia uma velho abajur quebrado e um relógio despertador antigo. Também havia um armário envernizado, ainda exalando o cheiro do verniz.
Seus pais ficaram com uma quarto do andar de baixo, perto da cozinha, onde inuzitadamente uma papel de parede azul estava mal colocado ao fundo. Augusto retirou-o e a parede estava perfeita, sem nenhum dano ou mancha. Lívia também ficou no andar de baixo, no mesmo quarto dos pais, pois sempre sentia medo do "bicho-papão" assim como ela o denominava.
Do seu quarto, Jonas percebeu que era possível a vista do quarto da casa ao lado, então passou alguns minutos encarando a cortina cor-de-púrpura do cômodo para tentar encontrar o que o vijiava, e viu uma garota, uma linda garota loira, ela tinha se levantado e saído de sua vista, então ele teve uma vista muito limitada.
Bom, se todas as garotas daqui forem assim, acho que posso me acostumar. Pensava ele, enquanto comia uma pacote de salgadinhos que sua mãe trouxera, e ria de seu próprio pensamento fútil.
Jonas ouviu passos na escada da casa, o barulho dos passos era irritante, e provavelmente, não seria possível consertar a não ser que colocassem escadas de ferro ao invés de madeira. O som dos passos se aproximaram ao quarto e Jonas logo fechou a cara ao ver seu padrasto. Augusto bateu com o dedo indicador e o dedo médio na porta.
–Johnny, posso falar com você? — disse ele, entrando no quarto com passos lentos e as mãos no bolso.
–Já está falando — respondeu, de costas. Sua voz soou demasiadamente grave e rude — E não me chama de Johnny.
–Por que você é assim? Não precisa ser tão arrogante comigo, você pode me odiar, mas respeite sua mãe e sua irmã.
–Olha, eu tenho o direito de fazer o que eu quiser.
–Não, você não tem. Ainda tem 16, ainda tem muito o que aprender.
–Eu não preciso aprender nada... Eu só não quero você na minha vida — ele se desapoiou da janela e encarou o padrasto — Você me irrita, seu sotaque me irrita, suas roupas me irritam, seu jeito me irrita, tudo em você me irrita.
Augusto ficou em silêncio e encarou o enteado. Sem dizer uma palavra, se virou e saiu.
Jonas se sentou na ponta da cama e abaixou a cabeça, arrependido de ter dito aquilo tudo.
21 de janeiro de 2013 às 2:57
Todos tinham dormido, menos a pequena Lívia. Seus pesadelos contínuos e costumeiros a deixavam acordada todas as noites, encarando as trevas e gemendo bem baixinho para os pais não ouvirem. Mas naquela noite não fora as trevas que a deixaram acordada e sim barulhos. Sons estranhos vinham de lugares próximos a ela. E o medo a comandava.
Mas como que por um impulso, a garota se levantou de sua caminha improvisada, ao lado dos pais e procurou por ele.
Seus cabelos castanhos se esticavam até a cintura e seu ursinho de pelúcia não saía de seu colo enquanto caminhava até a cozinha. Os sons se aproximavam.
Tick-Tock-Tick-Tock. Era como um relógio, porém alto e incomodador.
Uma porta. Lívia se lembrava que seu pai jogara o papel-de-parede azul lá dentro. Mas não viu ninguém entrar no lugar.
Ergueu suas mãos à maçaneta e a abaixou. Seu coração disparou, um de seus maiores medos, o medo do imprevisível, a fazia tremer, mas continuou em frente e abriu a porta.
Nada além de vento saiu do lugar. Um vento muito forte que fez seus cabelos voarem e seu rosto estremecer. Não durou 3 segundos e o vento parou, o som também.
Lágrimas percorreram o rosto da pobre menina. Mas pelo menos agora ela poderia dormir tranquilamente...
Antes de fechar a porta e voltar a deitar, deu uma olhada melhor para o interior do cômodo escuro e só havia velharias jogadas em uma escada. Forçou as vistas para dar uma melhor olhada para o fundo, no escuro total, onde viu algo brilhando...
Lívia gritou, algo a puxou para dentro do lugare o silêncio dominou a casa.
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