Pasta de Dentes
1 Capítulo único
Notas iniciais
E vejam, por exemplo, o pobre homem que agora, apressado, sai de seu trabalho, cansado. Pega seu carro, dirige até em casa, dorme sozinho. Acorda preocupado se colocou ou não o despertador para tocar: Colocou. Volta a dormir, não sonha ou pelo menos não lembra. Não lembrava de nenhum sonho que lhe tivesse ocorrido desde antes de oficialmente desistir de seu último sonho acordado.
Acorda, toma café, escova os dentes. Olha fixamente para o creme dental dentro do tubo, acha que está prestes a ter uma idéia revolucionária sobre o modo como as pessoas enxergam o creme dental, sua função, pensa que mais um pouco e resolverá pela boca os problemas do mundo. Tem certeza que está quase... está quase... e não consegue jamais completar o pensamento. Vai para a cozinha.
Esqueceu que não deveria escovar os dentes antes do café da manhã e depara-se com um problema que tomou para sua vida como extremamente complexo: Tomar café e voltar ao banheiro ou simplesmente esquecer o café? Para, a sua mente oscilando parece palpitar dentro de sua cabeça, quer ser criativo, achar uma solução diferente para isso, que não tenha sido tentada. Quer fazer algo original, nunca tentado, algo que lhe quebrasse a rotina e lhe libertasse do processo mecânico matinal que ocorria sempre da mesma forma. Senta na mesa com uma sensação de fracasso e suspira pesado. Toma o café pensando em quanto tempo perdeu pensando se devia tomar: Uma máquina seria melhor que ele. Uma máquina não ficaria indecisa e contudo não conseguiria criar: Exatamente igual a ele.
Volta ao banheiro, abre a pasta de dentes e a encara com ar desafiador. Gostava de dizer de vez em quando que aquilo era algo em que ele se envolvia, que, naquela pasta, em algum lugar, tinha um parte do ser dele, uma assinatura única de sua arte incompreendida pelas pessoas que superficialmente olhavam (ou nem isso) para esse creme todos os dias antes de levá-lo para a boca sem consideração. Mas ele estaria, admitia, mentindo. Ele até podia trabalhar na parte criativa da criação das pastas de dentes, mas o que fazia? Integrava um sabor seguindo as pesquisas de tendência. Decidia se o creme deveria brilhar ou não, se deveria ser comestível, se as crianças gostariam que o creme dental saísse em forma de estrelinha. Era como responder uma questão a,b,c,d,e. Ele podia não entender direito de criação, mas reconhecia que aquilo não era.
Nem olha para o creme dental, leva-o junto à escova para a boca, sem consideração. Sai para o trabalho, o pobre homem.
Dirige, chega no trabalho e encontra seus colegas discutindo sobre mulheres e carros e filmes do Clint Eastwood. Não menciona que deviam tentar falar sobre o trabalho, sabia que era inútil. Aquelas pessoas já tinham percebido a impossibilidade da gênese, o cubículo inexpansível de idéias daquele lugar. E durante a tarde, lembrando que tinham que fazer alguma coisa, alguém fala “Cereja. As pessoas gostam de cereja.”. E pronto. Nisso se resume o trabalho, até os fins dos dias.
Sai do trabalho e lembra que o dia seguinte é feriado. Vai na rua ,encontra uma mulher ou algo que é muito parecido com uma mulher. Ele não sabe, está bêbado. Tem lapsos de memória e talvez, para a vida dele, fosse mais interessante que os tivesse durante o dia todo. A mulher esfrega os seios em suas mãos, ele podia sentir que não havia sutiã. Fecha suas mãos e os agarra, provocando um grito de espanto e satisfação. Isso não provava muito, mas para sua mente bêbada, era uma mulher. Uma mulher que o levava para o canto de um banheiro com luzes apagadas e o atirava contra a parede enquanto ele esquecia de sua vida inútil e sem propósito, de seu carro que fez questão que fosse azul quando o comprou, mas só o usava para ir ao trabalho. A mulher tentava o despir, e o homem prendeu seus olhos em um copo de Whisky. Creme dental de Whisky. Whisky de creme dental. Todos os bêbados ficariam felizes com a idéia. E talvez depois deprimidos. Mas iriam esquecer depois, isso era bom, pensava. Não lembrou até onde a mulher chegou aquela noite. Apenas se lembrava do copo de whisky.
Dia seguinte, encontra outra garota. Essa é diferente, como todas as outras. Ele se aproxima, conversa, tenta disfarçar o miasma deixado por uma série de fracassos de se relacionar com pessoas a longo prazo. Eles conversam por um bom tempo embora talvez os dois estejam entediados com todas as conversas de uma vida monótona. Não demora muito para que os dois fiquem em silêncio. Ela também é chata. Ele pensa em uma desculpa para ir embora mas gastou toda sua originalidade na noite anterior com o copo de Whisky. Ela balança as mãos, olha para os lados, diz que tem que ir, marcou com um amigo. Ele se despede. Ela se despede. E de repente ele a segue, até a saída do parque que, apesar de ainda não mencionado, é onde eles estão. E eles conversam se despedindo a melhor conversa de cinco minutos que tiveram em suas vidas, embora eles não soubessem do que estavam falando. Tudo armado agora e ele está perto de estabelecer, ao que parece outro relacionamento de curto prazo. O mais provável é que, como quase sempre, dirá que trabalha como freelancer e que ganha bem, e que não comprou aquele carro parcelado em quatro anos e que não é carente e dependente emocional de qualquer pessoa que lhe dê um mínimo de atenção e que não tem nada a ver com creme dentais e que gostaria de conhecer ela melhor. Ela pode ou não se encantar, e se acontecer de se encantar por alguma coisa, ainda terão alguns encontros, uma aproximação lenta, ela é uma moça comportada e chata. Aos poucos, poderão, quem sabe um dia, beijar e talvez ele a leve para a cama.
-Eu trabalho em uma fábrica de cremes dentais. Eu ajudo a escolher os sabores, os formatos, esse tipo de coisa. Sério.
Em seguida, veio o beijo.
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