Past Life
2 Aparentemente, um diagnóstico
Notas iniciais
Quanto tempo eu dormi? Minha cabeça dói. Não consigo pensar, eu nem sei se...
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Estou tão confusa. Simplesmente não sou capaz de abrir os olhos. É uma ressaca? Eu nunca mais vou beber na minha vida. Isso é uma voz? Esquece, vou voltar a dormir...
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Quanto tempo estive acordada dessa vez? Meia hora? Cinco minutos? Minha boca está seca.
Me sinto pesada. E me sinto nua. Será que eu transei? Eu não lembro. Oh, céus.
Um barulho desconhecido e constante está me deixando nervosa também, além da luz que atinge minhas pálpebras agora.
O que eu fiz ontem à noite? O que há de errado com o meu cérebro afinal?
Tudo está nebuloso e só me vem à mente coisas estúpidas. Memórias antigas, fora de ordem, indo e vindo. Meu pai lendo jornal no café da manhã; a macarronada da minha vó borbulhante na panela de ferro; eu cortando meu próprio cabelo em frente ao espelho de casa, com doze anos; Boris, o cara que tirou minha virgindade... Não. Essa lembrança não.
Agora, um copo de café em cima de uma mesa bagunçada... A varanda de um apartamento desconhecido no pôr-do-sol... tudo sem controle invadindo meus pensamentos. Essas eram mais nítidas. Mas outras parecem escorregar, inalcançáveis. Um borrão aqui e outro ali somente. Exceto uma, que pisca de imediato em meio à confusão, como um letreiro neon de lanchonete.
Pinã colada.
Aí está. Essa é a razão do meu sofrimento.
Talvez fosse melhor me concentrar em voltar ao sono. Mas tem algo no meu rosto e, assim que me mexo, sinto várias coisas me prendendo no lugar.
Com esforço, encaro um acesso venoso no braço direito e eletrodos espalhados pelo peito. A visão não é boa, pois, metade é obstruída pelo respirador.
Não, não, não.
O pânico me atinge, começo a me remexer, tirando qualquer coisa conectada a mim, ao mesmo tempo que flashes da noite passada surgem.
E com isso, a porcaria de um dos monitores está me denunciando, apitando loucamente, terminando de rachar a cabeça já dolorida.
Bem, estou internada em um hospital. Vestida em uma espécie de avental de amarração frouxa.
Não é qualquer hospital, no entanto. Deixando de lado os aparelhos e a cama metálica de regulagem, poderia facilmente ser um quarto de hotel, com mesinha e cadeira para um café, televisão gigantesca, tapete decorativo... E o que é esses arranjos de flores maravilhosos?
Que diabos.
Isso vale mais que um ano do meu salário de estagiária, com toda certeza.
De onde o Sistema Público conseguiu grana para uma instalação dessas é um mistério para mim.
A porta abre assim que sento.
— Srta. Weasley, que bom que acordou! Estávamos esperando esse momento. — A mulher, uma enfermeira de meia idade, sorri gentil. — Como se sente?
— Hum, bem, obrigada. Com sede. E a minha cabeça dói.
— Certo, trarei um analgésico logo. Mas isso é o esperado, não se preocupe, querida. — Ela é prestativa e logo um copo plástico com água gelada aparece na minha mão.
E eu quase deixo cair o líquido em cima de mim porque, de repente, percebo minhas unhas. Veja bem, eu sempre as roí, é vergonhoso o estado delas a maior parte do tempo e tento as esconder sempre que possível nos bolsos dos casacos. Luvas também são ótimas opções no inverno. Mas elas estão... maravilhosas agora. Longas e quadradas, perfeitamente cuidadas e pintadas em um tom de vermelho escuro. Será que coloquei alongamento ontem? Besteira, não tenho um tostão furado.
— Eu estou em um hospital, certo?
— Você não se lembra de como chegou aqui?
Balanço a cabeça.
— Não. Estou um pouco confusa para ser honesta.
— Isso é porque você ficou desacordada por alguns dias. Não lembra do acidente? Bem, sou sua enfermeira, Poppy Pomfrey.
Acidente... Acidente... Ah, consigo lembrar. Claro. No final da noite, quase indo embora do bar, fui acertada com uma garrafa por um cara.
Deve ter sido uma pancada feia mesmo.
— É. Acho que sim. Prazer, Rose — digo tolamente. — Então... que horas são?
— Isso é perfeitamente normal, os sedativos ainda estão agindo. São quase duas da tarde. — Ela aperta levemente minha mão. — O doutor vem em um segundo, tudo bem? Vou chamá-lo, mas você gostaria de mais alguma coisa?
Olho ao redor e sei o que preciso.
— Meu celular. E a minha bolsa, se não for pedir muito.
Minha barriga ronca e eu prefiro ignorar.
— Está tudo aqui no cofre. — Ela indica, caminhando para perto da estante que só agora noto. — Tenho a chave, pois sou sua responsável técnica.
Ela coloca as coisas com cuidado no meu colo.
— Aqui, seu celular... Sua mãe o manteve carregado. Ah, e seu noivo está à caminho, o avisei assim que a vi pela câmera — acrescenta ela, e começa a falar alguma outra coisa.
Noivo?
Eu não estou ouvindo mais. Aquilo ali, seja o que for, não é meu celular. Nem minha bolsa.
E eu não tenho um noivo. Nem sequer tenho um namorado!
O que diabos está acontecendo?
— Mas essas não são minhas coisas! — exclamei, sem tirar os olhos dos objetos.
Tarde demais, vejo que a enfermeira saiu do quarto.
Ótimo.
Minha cabeça gira, e eu volto a adormecer, agora abraçada pateticamente aos pertences de uma mulher desconhecida.
**
Acordo com a mesma enfermeira de ontem aqui. Ela deixa um suco de maçã, biscoitinhos de água e sal e uma gelatina.
Dessa vez, não estou com o respirador e os eletrodos, somente o soro. Menos mal.
— Bom dia, querida — diz ela, enquanto anota alguma coisa na prancheta. — Como está se sentindo? Eu sou Poppy, sua enfermeira.
— Você já disse isso. — Falo um pouco rabugenta, sentando. — Me sinto melhor, a cabeça não dói tanto.
— Então você lembra de mim! Isso é um ótimo sinal! Mostra que saiu do estado de amnésia pós-traumática. É um estágio normal de confusão após uma lesão na cabeça.
Paro de cheirar a gelatina, que ainda não sei se é de laranja ou tangerina.
— O que quer dizer? Esteve aqui da última vez que acordei.
— Ontem à tarde? — Poppy questiona, e eu aceno. — Aquela não foi a primeira vez que conversamos. Você tem acordado algumas vezes por dia e logo voltado a dormir.
— Mesmo? E o que eu dizia?
Ela se encolhe um pouco.
— Você estava um tanto ininteligível, mas mencionou algo sobre uma pia entupida? Ou seria uma goteira? Algo a ver com água ...eu não sei.
Legal. Fico espalhando por aí os problemas da minha quitinete até quando não estou sã.
— Bom, você parece inteiramente coerente agora — conclui ela feliz, mais para si, afofando meu travesseiro.
A enfermeira vai embora com a promessa de vir me ajudar com o banho daqui a pouco. Olho para o lado, e ali está a bolsa Louis Vuitton na mesinha auxiliar.
Não teria problema em dar uma olhadinha, certo? Nunca tinha visto uma de perto antes. A pego com certa culpa, mexer nas coisas dos outros é errado. Eles realmente deveriam ser mais cuidados, isso deve ser de uma ricaça da ala privada do hospital.
— Senhorita Weasley? — Levo um susto e deixo a bolsa cair com um baque no chão ao lado da cama. — Desculpe, não quis a assustar. Fui informado que já estava acordada e achei por bem checá-la antes que adormeça mais uma vez.
Meus olhos pairam no crachá do jaleco de imediato. Dr. Dean Thomas.
Ele deve ter notado minha expressão relaxar, e então, continuou.
— Bem, sou o neurologista-chefe do departamento clínico, ando acompanhando seu caso desde sua chegada. Como se sente?
Paro um instante para refletir.
— Um pouco estranha, e meu braço esquerdo parece não estar funcionando direito...
— Certo. — Ele diz, fazendo uma anotação. — Vamos dar uma olhada nisso; talvez precise de alguma terapia. Mas primeiro, se me permite, gostaria de fazer algumas perguntas. Perdoe-me se elas parecerem óbvias.
Endireito a coluna, curiosa. Outra médica, um pouco mais nova, está logo atrás do Dr. Thomas, não sei há quanto tempo ela está aqui no batente da porta com os braços cruzados.
— Você pode me dizer seu nome?
— Rose Granger-Weasley — respondo de pronto. Ele assente, conferindo sua pasta.
— E qual seu ano de nascimento?
— 1996.
— Muito bom. Agora, Rose, quando você bateu seu carro, você bateu forte a cabeça no para-brisa, foi constatado um pouco de inchaço no cérebro, mas parece estar com sorte. Eu ainda preciso ter certeza mesmo assim, — ele ergue a caneta. — Siga a ponta da caneta, vou movê-la de um lado para o outro, ok?
Isso era inacreditável. Eu sabia que tinha algo errado mesmo.
— Com licença! — eu espano da minha cara o pequeno objeto, como se fosse um mosquitinho chato, pedindo a atenção do médico. — O senhor me confundiu com outra pessoa. Eu não bati de carro.
Ele abaixa a cabeça com a testa franzida, olhando novamente para o arquivo em mãos.
— Aqui diz que a paciente esteve envolvida em um acidente de trânsito.
Ele olha por cima do ombro, procurando uma confirmação da mulher loira.
Alô? Sou eu quem estava lá.
— Bom, eles devem ter escrito errado, trocado as fichas, não sei. — Digo firme. — Eu estava em um bar lá em Brixton¹ com duas amigas quando uma briga de torcedores de futebol começou e fui atingida por uma garrafa de vidro. Agora eu me lembro bem.
Eles trocam olhares.
— Definitivamente foi um acidente de trânsito. — A mulher murmura. Quem diabos é ela, afinal? — Dois veículos, lado a lado. Eu estava de plantão no dia, o outro motorista teve leves esfoliações.
— Eu não posso ter estado em uma batida de carro. — digo, escandalizada. — Para começo, eu não tenho um carro. Eu nem mesmo sei dirigir!
É claro que eu gostaria de dirigir. Um dia. Quando pudesse pagar o curso. E pudesse arcar com os custos de um carro. Preferi passar a vez para meu irmão, Hugo, quando meus pais se propuseram a pagar, pois com as dificuldades financeiras que estamos passando... papai fez um empréstimo altíssimo para começar uma loja de logros com um tio meu, que até agora não estava dando retorno. Além da internação da vovó Molly. E eu não precisava, morava em Londres, onde o metrô é nosso melhor amigo.
— Você não tem uma... — ele virou a página, lendo alguma coisa. — Uma BMW Coupé?
— Uma BMW? — Dou um riso oco. — Você está falando sério?
— Mas aqui diz...
— Olhe, — eu o interrompo, tentando engolir a nota de desespero na voz. — Eu vou dizer para você o quanto uma estagiária da Malfoy & Co ganha, e em troca, você me fala se acha que consigo comprar uma BMW. Ou qualquer outro carro.
O Dr. Thomas abre a boca para responder, mas a mulher o impede, batendo no seu ombro, apontando para alguma coisa no papel.
Ele pigarreia.
— Rose, nós encontramos uma coisa na sua tomografia. Mas pode não ser nada.
— Tem algo de muito errado comigo, não tem?
Minha cabeça viaja para todos os tipos de diagnósticos horríveis que já pesquisei no google durante uma madrugada de insônia.
Ai.
Isso não estava bem. Nada bem.
— Rose, quero te perguntar uma outra coisa. — Ele me encara fixamente, mas usa um tom gentil. — Você pode me dizer em que ano nós estamos?
— Que ano nós estamos?
— Não entre em pânico, — assegura ele. — Faz parte do procedimento.
Mordo o lábio antes de responder.
— É 2017. — Falo, por fim.
— Certo. — Ele senta-se na beirada da cama. — Rose, hoje é dia 7 de novembro de 2020.
Ele continua me observando, acompanhando minha reação, com o rosto sério. Resolvo dar uma olhada na sua colega, que parece não achar engraçado também.
A dor de cabeça parece pedir passagem de novo.
Mas aí, eu entendo. É uma pegadinha, claro.
— Ha-há. — Reviro os olhos. — Péssimo momento para gracinhas, doutor. Alice quem mandou inventar uma dessas, né? É a cara dela-
— Não estou brincando.
— Ele está dizendo a verdade, Srta. Weasley — diz a mulher, que pelo crachá, chama-se Claire. Ela sai apressada por um instante, sem tempo para que eu pense em nada, voltando com um jornal.
— Isso pode ser um choque, mas é a verdade, querida. — Dr. Thomas soa pesaroso. — Sente sua mente embaralhada?
— Um... um pouco. Mas isso é o futuro! Não pode ser verdade. Eu teria o quê? Perdido três anos da minha vida?
— Você não perdeu, só não se lembra ainda. Veja.
E a moça entrega o Daily Mail de hoje.
Engulo as palavras, lendo aos tropeços as notícias, observando a data no canto superior, os filmes no cinema, as fofocas das celebridades...
Leva um tempo, mas tiro os olhos do pedaço de papel para encarar o neurologista à minha frente, falando em um fio de voz.
— Eu não entendo. Eu estou ficando louca?
— Não! — Descarta ele categoricamente. — Rose, acho que você está sofrendo do que nós chamamos de amnésia retrógrada. É uma condição que pode ocorrer após uma grande lesão. A sua parece ser prolongada.
Ele continua falando, mas nada faz sentido para mim. Eu sei tudo o que fiz no dia do acidente. Lembro de tudo mesmo, até o almoço que comi. Se me perguntassem o que fiz aos cinco anos, eu igualmente poderia responder. Ou qualquer outro ano dos meus vinte e um anos de vida. Não era verdade. Simplesmente não era.
Mas de alguma forma, eu não me sinto a mesma. Isso faz algum sentido?
Minha respiração começa a falhar, e sei que outra crise de asma vai começar. Como sempre acontece, nos piores momentos possíveis.
Imediatamente, me colocam no oxigênio, assustados.
Levou pelo menos uma hora inteira para que me acalmassem e me assegurassem que não era algo definitivo — pelo menos as chances de recuperar algumas lembranças eram altas. Em algum momento.
— Posso pegar o jornal outra vez? — Peço, suplicante.
É realmente 2020.
O que significa que eu devo ter... eu devo ter 24 anos.
Meu. Deus.
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