Passos no escuro
1 outros passos no escuro
Notas iniciais
Espero que gostem
Hannah andava apressada pela rua vazia, já tarde da noite, e o único som que ouvia era dos seus passos ecoando na calçada molhada pela chuva fina que ainda caia, abraçando-se com força para proteger a si mesma e aos papéis que carregava em uma pasta, só queria chegar a algum lugar mais movimentado e pegar um táxi para casa, arrependida de ter ficado até aquela hora no escritório, contudo o serviço estava atrasado e seu chefe, Rick, havia pedido para terminá-lo ainda hoje, antes da apresentação do dia seguinte, porém ela não esperava que isso demorasse tanto assim e que já estivesse tanto escuro e as ruas tão desertas por causa da chuva, quando saiu do prédio da empresa. Perdida nos seus pensamentos, Hannah não percebeu que outros passos se aproximavam pelas suas costas, se encolheu ainda mais preocupada, mas um homem passou por ela, andando rapidamente a fim de fugir da chuva, então relaxou. Algum tempo, depois escutou outros passos muitos próximos a ela, mas não quis olhar para trás, acelerou e pensou que poderia ser outro trabalhador que também ficara até tarde no escritório, porém este foi seu último pensamento, pois sentiu um forte ardor atravessando seu pescoço, depois algo quente escorreu pelo seu peito, tentou mas não conseguiu gritar e tudo ficou escuro.
- Foi rápido, ela não sofreu muito, carótidas e traqueia seccionadas por trás, por um instrumento bastante afiado, sem sinais de hesitação – relatou o perito ao detetive Daniel, enquanto esse olhava para jovem e bela mulher deitada na calçada em uma poça de sangue coagulado, um tanto liquefeita pela água da chuva, com a cabeça quase separada do corpo, os seus objetos espalhados em sua volta, a bolsa aberta, uma pasta com vários papéis molhados pela chuva e pelo sangue.
- Já sabem quem era ela? – O detetive perguntou ao policial ao seu lado, enquanto passava a não no cabelo louro que começava a rarear.
- Achamos o seu crachá. O nome dela é Hannah Peres, 23 anos, trabalhava logo ali nas Empresas Wilton, deve ter ficado até mais tarde trabalhando, saiu sozinha. Provavelmente foi uma tentativa de assalto, o dinheiro sumiu.
- Pode ser – o detetive não acreditava nisso – mas foi muita violência para um simples assalto, não há sinais de ferimentos de defesa, ela foi pega por trás, de surpresa. Talvez um crime de caráter sexual, vamos esperar pelo legista.
O detetive pensou como a mulher, mesmo morta, ainda era bonita, um desperdício, possivelmente seria mais um crime sem solução.
- Já avisaram a família? – O detetive Daniel perguntou ao policial ao seu lado.
- Ainda não.
- Eu cuidarei disso – Daniel avisou, saindo do local.
Sarah acordou assustada com o telefone, pensando quem ligaria aquela hora da manhã, estava ainda zonza de sono, não entendeu quando o homem do outro lado da linha se apresentou como policial, detetive Daniel, e depois perguntou se era da residência de Hannah Peres.
- Sim, ela mora aqui. Aconteceu alguma coisa com ela? – Sarah perguntou, preocupada.
- Você é parente dela? – o detetive quis saber sem mudar o tom da voz.
- Sim, ela é minha prima, moramos juntas.
- Qual é o seu nome?
- Sarah – respondeu, sem paciência e insistiu – Aconteceu alguma coisa com Hannah?
- Lamento informá-la, mas a senhorita Hannah Peres está morta – o policial informou, com frieza.
- Não, não é possível – Sarah se desesperou, com o telefone sem fio na mão, bateu na porta do quarto de Hannah e não esperou a resposta, entrou, encontrando a cama ainda arrumada, ela ficou em estado de choque o fone deslizou da sua orelha, devia ser algum engano, algum erro da polícia.
- Senhorita! Senhorita! – os gritos do policial ao telefone a trouxe de volta a realidade.
- Como aconteceu? – Sarah indagou com um fio de voz.
- Gostaria que viesse a delegacia para explicar melhor .
- Claro, me dê o endereço, mas antes preciso avisar meus tios.
Sarah desceu até o sofá, ainda com o telefone na mão, tentando criar coragem para dar a terrível notícia aos tios, tinha que se arrumar para ir até a delegacia, para saber o que houve, percebeu a luz da secretária eletrônica piscando insistentemente, assim ela esticou a mão e apertou o botão, a máquina comunicou que tinha uma mensagem, se assustou ao ouvir a voz da prima
- Sarah, aqui é Hannah, não se preocupe vou trabalhar até mais tarde, outra vez, nos vemos amanhã.
As lágrimas desceram pelo rosto de Sarah, deixar mensagens uma para outra era um hábito que adquiriram, logo que vieram da sua cidade no interior, para estudar e trabalhar. Na noite anterior, Sarah chegou tarde em casa da redação do jornal onde trabalhava, não percebeu que Hannah não estava, pensou que a prima estivesse dormindo, apesar que nos últimos tempos, ela havia chegado várias vezes tarde do trabalho, dizia que estavam desenvolvendo um grande projeto, que ocupava muito do seu tempo.
Em uma última tentativa, ligou para o número do telefone celular de Hannah que chamou até entrar na caixa postal, em desespero tentou de novo, mas em vão.
Na delegacia, o detetive Daniel recebeu Sarah, ela percebeu o ar de espanto que passou pelos olhos deles, provavelmente pela semelhança entre ela e sua prima, muitos achavam que eram irmãs gêmeas.
- Senhorita Sarah, lamento a sua perda.
- O que aconteceu?
- Sua prima foi assassinada – foi como um balde de água fria na sua cabeça.
- Mas quem reconheceu Hannah? Como sabe que era mesmo Hannah? – Sarah ainda não podia acreditar que a prima estivesse morta, talvez fosse apenas um engano.
- Encontramos o crachá e os documentos, as fotos batem, e o dinheiro havia sumido, por isso achamos que é um latrocínio – Daniel explicou, sem demonstrar emoção.
- Muita violência por alguns trocados – Sarah afirmou, inconformada, pois sabia que Hannah nunca andava com muito dinheiro na carteira.
- Talvez um ladrão desesperado. Um drogado em crise de abstinência. Quem sabe? Vamos tentar de tudo para descobrir o culpado, mas não temos nenhuma pista. A área em que ocorreu o crime não tinha câmeras de segurança.
- Ela levou um tiro? – Sarah estava curiosa sobre a morte da prima.
O detetive demorou um pouco para responder, com se quisesse poupá-la.
- Não, ela teve a garganta cortada – Sarah levou a mão a boca, seu estômago ficou embrulhado e ela teve vontade de vomitar.
- Quer um copo d’água? – Detetive ofereceu quando a viu branca como papel e com as mão tremendo.
- Sim, por favor.
A água deu um certo conforto a boca amarga e a garganta seca, ela não podia acreditar que algo parecido pudesse ter acontecido com sua prima.
- Vocês duas se parecem, ou melhor, se pareciam muito – o detetive Daniel observou, pois ela e Hannah tinham o mesmo cabelo castanho escuro e ondulados e olhos da cor âmbar, mas a prima sempre foi mais bonita, tinham a mesma idade e cresceram juntos, amigas, quase irmãs, passaram toda a vida juntas, agora não sabia como seria sem ela por perto – Sua prima tinha algum inimigo? Algum namorado ciumento?
-- Não que eu sabia – Sarah respondeu depois de um momento de pausa — Hannah era um amor. E nunca namorou ninguém sério desde que nos mudamos para aqui. Ela vivia para o trabalho.
- Então, nada de diferente estava acontecendo com ela? – quis saber o detetive, Sarah refletiu por um pouco mais de tempo antes de responder.
- Não, só este projeto novo, que a fazia trabalhar até tarde e, às vezes, nos fins de semana. Mas a vida dela era absolutamente normal.
- Senhorita, este é meu cartão. Liguei-me se lembrar de algo ou se tiver alguma dúvida — Daniel entregou seu cartão a Sarah, realmente com esperança que ela ligasse para ele.
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