Passional

1 Gallagher, Maddison.


Os pés chutavam distraidamente folhas e galhos secos que apareciam em seu caminho. A trilha que cortava o bosque era como qualquer outra na cidade: deserta, silenciosa e cercada por árvores e arbustos que impediam de forma eficaz que grande parte da iluminação natural ainda presente àquela hora do dia iluminasse o percurso como deveria. Maddison deu dois toques suaves no fone em seu ouvido direito, logo a melodia que precedia os vocais da Taylor Swift começou a ecoar em seus ouvidos. Ela ajeitou a alça da mochila em seu ombro e colocou uma mecha de cabelo castanho para trás da orelha enquanto cantarolava em sincronia com sua artista pop favorita.

…They'd say I played the field before I found someone to commit to…

Sabia que provavelmente seu pai lhe esperava com uma bronca assim que chegasse em casa, só porque não avisou que ia se atrasar depois das aulas. Torcia para que a foto que enviou depois de ver suas ligações perdidas servisse como desculpa e como álibi perfeito, que ele entendesse que ela apenas havia sido descuidada de não ter avisado que ia se encontrar com Aimée para terminar o trabalho de História… Embora isso não justificasse o fato de ela estar indo para casa só agora, mais de três horas depois.

Ainda assim, sentia-se leve. Os lábios levemente inchados e dormentes se contorciam em um sorriso distraído e que não sabia como controlar, sempre que sua mente voltava ao que fazia há pouco. Os beijos, os toques… A simples lembrança tão recente fazia o corpo de Maddison se aquecer e ignorar o vento gélido que passava por entre as árvores e atingia seu corpo. Ah, ela adoraria poder falar disso com alguém… Mas nem mesmo Aimée entenderia. E Chrissy com certeza contaria tudo ao seu pai na primeira chance que tivesse, e ele, certamente, daria um jeito de destruir a única coisa boa que tinha lhe acontecido em muito tempo. Desde que sua mãe foi embora, era a primeira vez que ela se sentia bem de verdade nessa cidade… Então o melhor mesmo era continuar mantendo aquele segredo somente para si mesma, ao menos até que pudesse ser dona da própria vida e das próprias decisões.

— Ai, merda…!

Em um momento de distração, seu pé foi de encontro a uma raiz um pouco mais alta que se destacava do chão no meio da trilha, o que a fez tropeçar e dar alguns passos desajeitados até conseguir recuperar o equilíbrio. Esse era o problema de pegar trilhas que não se conhecia muito bem, ou, neste caso, uma trilha que era completamente nova para ela… Se fosse o caminho de sempre, saberia se guiar até mesmo de olhos fechados! Mas como já estava muito atrasada, acabou aceitando a sugestão de pegar aquele atalho.

Agora desperta de seus devaneios, a garota achou ter ouvido algo. Algo além da voz que ecoava os versos “then I'd be the man…” em seus fones de ouvido, que foram rapidamente silenciados com um simples toque do seu dedo indicador.

Olhou ao redor, em direção ao horizonte e depois desviando o olhar mais para os lados. Primeiro à esquerda e depois à direita, encontrou somente arbustos e árvores que dentro de alguns dias estariam cobertas pela neve, mas agora as folhas se mesclavam em um caos ordenado e verde, marrom e laranja. Antes de finalmente se permitir sentir aliviada, Maddison fez o óbvio e se virou, percorrendo com os olhos o caminho do qual tinha vindo. Já nem era possível ver a estrada… Mas poderia ter ouvido um carro?

Depois de alguns segundos finalmente voltou a olhar para frente e chegou a quase tocar novamente em seu fone para voltar à música, mas se conteve. Com a mão erguida e o indicador preparado, deu atenção para uma sensação esquisita que a alcançou de repente. Não tinha ouvido nada, mas era uma sensação instintiva e irracional de que não estava sozinha.

Maddison não tinha medo de cruzar trilhas que cortavam os bosques e florestas de Stowe sozinha. Como grande parte das pessoas nascidas e criadas ali, fazia isso desde criança. Também não tinha medo do escuro, mas, mesmo que tivesse, esse não seria o caso… Mesmo com a vegetação densa, ainda tinha luz natural suficiente para ser confortável de seguir a trilha sem se preocupar com sombras estranhas e coisas surgindo em sua visão periférica para lhe causar medo ou algo assim.

Ainda assim, ela hesitou em ignorar aquele sentimento inquietante e acabou virando um pouco a cabeça para o lado, olhando por sobre o ombro. Sustentou o olhar no caminho pelo qual tinha vindo por um segundo ou dois e, quando estava prestes a deixar para lá e continuar seu caminho, achou ter visto algo se mover.

Semicerrou os olhos e esperou até que a figura escondida nas sombras das árvores se revelasse. Quando aconteceu, soprou um riso discreto, se sentia um pouco idiota por ter se deixado abalar e ter ficado tão hesitante.

— Ah, é só você…

Claro, a mesma pessoa que tinha lhe sugerido seguir aquela trilha também deveria usá-la como atalho. Maddison riu de si mesma e retirou os fones, colocando-os no pequeno bolso frontal de sua saia jeans. Imaginava que agora teria uma companhia pelo restante da trilha, então decidiu deixar sua playlist de lado. Pelo menos até que seus caminhos se separassem de novo, o que aconteceria ao chegarem na estrada na outra extremidade do bosque. Enquanto empurrava os fones para o fundo do bolsinho com a ponta dos dedos, ela ouvia os passos se aproximando devagar.

— Se tivesse dito que já estava indo para casa também, eu teria esperado. — deu suavemente de ombros enquanto pegava o celular no bolso de trás. — Não é como se 15 minutos fossem fazer diferença na bronca que eu vou levar…

A jovem comentou com um ar de ironia sobre a própria situação, os olhos mais atentos à tela do celular enquanto checava brevemente as notificações, aguardando que os passos de sua companhia inesperada se aproximassem o suficiente para que pudessem seguir adiante.

Maddison só estranhou o silêncio quando já era tarde demais.

Deixou o celular cair quando foi pega de surpresa pela pressão repentina que cercou seu pescoço, pelo objeto que pressionava sua pele com firmeza e a impedia de respirar. Engasgou-se antes mesmo de começar a sufocar, com as unhas arranhando a própria pele enquanto instintivamente tentava afrouxar o que quer que fosse que a privou do ar com tamanha violência.

O coração batia forte no peito enquanto caía de joelhos. Os galhos e pedras furando a pele de seus joelhos deviam ter causado alguma dor, mas o pouco de consciência que ainda lhe restava estava mais focada na sensação agonizante de dor e desespero de buscar pelo ar que nunca chegava aos seus pulmões. No ardor que se espalhava pelo peito e subia de encontro à sua garganta fechada à força, contra sua vontade. Seu pescoço estava quente, a pele sangrava onde suas unhas tinham aberto pequenos cortes enquanto buscava por liberdade… A visão estava turva, indo embora antes mesmo de sua consciência se esvair por completo…

Antes que pudesse sequer tentar se dar conta, Maddison Gallagher estava morta.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.