Passe para o meu submundo

1 A primeira vez que falamos, mostrarei meu mundo.


Texana voltou ao camarim, o rosto suado, a maquiagem pesada já borrada. Seus olhos verdes ainda eram o destaque em seu rosto fechado. Tinha aquele olhar pesado de sempre, como alguém que no fundo da alma sofre incessantemente. Aquele tipo de agonia que não passa, apenas dorme em algum lugar fundo e escuro da alma. Texana era uma jovem diferente das demais naquele lugar. Não fazia aquilo por ego, diversão ou por drogas, como algumas.

— E aí. Conseguiu fechar alguma coisa no show de hoje? — perguntou Marina, uma das únicas com quem ela conversava ali.

— Um tiozinho carente não tirava os olhos de mim. Mas cê sabe né? Olhar todos olham, mas colocar a mão no bolso que é bom... nada. Ai Mari, você não se sente cansada às vezes?

— Claro né amiga, 20 minutos dançando nesse salto, cansa mesmo! Ontem mesmo cheguei em casa com a "batata da perna" doce. Precisei até de pomada.

— Não, esperta! Tô falando cansada dessa vida. Cansada de dançar e se vender, não poder se envolver, não poder se apaixonar. Ou ter que sempre mentir, envolver as pessoas numa trama de mentiras...

— Ai amiga, para de neura. Negócio é faturar uma grana e vida que segue. Vou indo, viu? Já deveria estar na segunda música e ainda tô aqui. Fui!

Ao dizer isso, deu uma última pincelada de Blush importado no seu rosto e saiu toda pomposa rumo ao palco.

Texana ficou ali, pensando no que estava fazendo da sua vida. Decidiu tomar um ar. Tirou seu salto, vestiu uma calça jeans preta e um tênis. Agora estava mais próxima da sua forma habitual. Pegou seu maço de cigarros, guardou um "beck" entre os cigarros e caminhou em direção à saída .

— Fala, Sombra.

— E aí, gata. Fraco hoje? Ó, se for fumar bagulho já vou avisando que vai ter que dar a volta no quarteirão. Tá sujando pro meu lado, gata.

— Tá bom, mon'amour. Já volto hem.

Dizendo isso, começou a caminhar tranquilamente, estava pegando seu "beck" para acender, quando virou a esquina e se deparou com uma garota sentada no ponto de ônibus, chorando. Era uma moça até bonita, vestia uma calça jeans rasgada, uma camisa de alguma banda do estilo "sou adolescente e quero me matar." Usava também uma pesada jaqueta preta, do estilo "Jessica Jones." No entanto, a Jessica estaria quebrando o ponto e não chorando nele.

— Moça, tá tudo bem? Precisa de alguma ajuda? — perguntou Texana, realmente preocupada com a garota.

— Eu tô bem, quer dizer... esse é o pior aniversário da minha. Mas o que eu poderia esperar? — disse a jovem cabisbaixa.

— Ei, quer dar uma "bola"? — disse Texana, oferecendo o cigarro de maconha àquela jovem desesperada.

— Nossa... Não sei se devo. Não tenho o costume.

— E ficar chorando pelas ruas faz parte dos seus costumes? Ou hoje você está quebrando suas regras?

Texana sentou-se ao lado da moça, pôde observar seu profundo olhar castanho. Pôde ver melhor seus traços delicados, lábios torneados e o rosto vermelho pelo recente choro. As duas engataram uma conversa, a moça, revelou seu nome. Vitória. Vitória era o nome daquela flor chorosa. Contou que estava fazendo 18 anos. Que há tempos queria entrar em uma boate que ficava logo ali, mas que fora barrada. Não pelos seus 18 anos recém feitos, mas por ser uma mulher.

— "É um clube para homens bem sucedidos" nas palavras daquele segurança babaca que me barrou. Acredita nisso, Tex? -ao dizer isso seu rosto enrubesceu — Posso te chamar assim?

— Então, Vitória... acho que não nos encontramos por acaso -disse isso com um olhar que pegava fogo e um sorriso discreto — Vem comigo. Tenho um presente de aniversário para você.

Pegou nas mãos geladas da Vitória e a puxou delicadamente. Enxugou seu rosto e arrumou uma mecha de cabelo rebelde. Saíram de mãos dadas em direção ao lugar que tantas vezes ela odiou, mas que agora seria seu paraíso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.