Notas iniciais
nossa, eu esqueci completamente de postar isso mais cedo aoisjxpaoeasoa sorry

Era noite. Não que isso o perturbasse. Anos com sua própria embarcação o prepararam para ser acordado bruscamente; seja por um marinheiro aparvalhado ou uma ameaça inimiga. A luz de seu lampião nunca apagava, porque ele também já se acostumara a acordar procurando algo. Algo que nunca estava lá.

Hoje, porém, era diferente. Devia ser madrugada; a zoeira de seus tripulantes fora substituída pelo roçar do vento contra as velas do navio. Deitado, ali, ele ouvia as tábuas rangendo e cordas resmungando entre si mesmas. Esses sons eram comuns depois de certo horário, mas nunca antes ele tinha ouvido um suspiro vindo da porta.

Ao acordar, ocasionalmente, era difícil separar realidade de sonho; então ele a considerou uma visão, os resquícios de seu imaginário. Não seria a primeira vez, nem a última. Alguns de seus subordinados, à noite no bar, riam dos homens cuja mente não era mais deles; aqueles que deixavam seus corações (metaforicamente, claro) no cais ao partirem, mantendo uma donzela nos olhos quando nada mais servia de âncora.

Ele nunca participava. Seu problema não era uma moça de vestido de renda e espartilhos cor-de-rosa; não, isso era muito fácil. A mulher inalcançável que o perseguia noite e dia era tão imprevisível e selvagem quanto o mar em si; seu espírito em tormentas constantes. O vento e as tempestades não tinham rédeas dentro de sua mente e, por vezes, lançavam-no numa espiral de confusão.

Por quanto tempo ele não desejou poder ser sua Estrela do Norte; por quantas noites ele fervorosamente desejou que a maldita bússola apontasse para ele, e somente ele? Mentiria se dissesse que não contava os dias desde que a vira soltar velas novamente, ao nascer da manhã, sua sombra saudosamente beijando-lhe as feições antes de partir.

Àquela noite, no entanto, as marés a lançaram ali, quieta à sua porta. Seu rosto abrandado na luz irregular da lamparina de vela, suas margens borradas e emaciadas. Ele piscou algumas vezes, para ter certeza de que não sonhava.

Levantou devagar, enchendo os olhos com sua forma, e parou no meio da cabine. Ela largou da porta e deu dois passos para perto dele; ergueu a palma e cobriu boa parte do lado esquerdo do rosto dele com seus dedos.

- Achei você. – ela falou baixinho, como se oferecesse um segredo.

Era fácil pensar que ela fazia como a mãe ou o pai; cobrir descaso sobre relacionamentos e deixar a outra pessoa pensar o que quisesse. Mas, como ele descobriu com o tempo, ela não tinha o menor problema com expressar afeição, nem escondia seus olhares e sorrisos perto dele. Não era nenhum de seus pais.

Ele não tinha ar para falar. Ela limpou a garganta.

- Estamos atracados ao cais. Gillian me ajudou a subir no navio; vão esperar até meio-dia...

Ele a cortou no meio da frase, colando seus lábios com determinação. Seus braços vieram, firmes, em volta de sua cintura e a puxaram para perto. A mão esquerda dela veio parar sobre sua escápula e se torceu num punho, segurando a camisa dele em seus dedos. A outra mão foi para seus cabelos, torcendo-os em nós e os desfazendo sem compromisso.

Quando se separaram, ele murmurou: — Seis meses.

- Hmm.

- Procurei você, desta vez.

- Ninguém alcança o Pérola – ela disse no mesmo tom. Seu hálito batia na altura do pescoço dele. – É parte do charme.

- Como me achou?

Depois de todo esse tempo, ela não respondera essa pergunta; porém agora ela inspirou fundo e abaixou a cabeça, e ele soube que a resposta mudaria.

- A bússola. – ela umedeceu os lábios, sinal claro de embaraço. – Ela me levou aqui.

Engoliu. – Ela aponta para mim?

Ela riu um pouco, e ele pode vê-la sorrindo. – Ela sempre apontou para você. Provavelmente, sempre irá.

- Todos esses anos? – ele perguntou, incrédulo.

- Todos os onze anos.

Onze anos. Onze anos desde que eles finalmente ficaram juntos. Relativamente juntos; não havia como ficarem no mesmo lugar, quando eram os dois capitães famosos e desprendidos. Ela precisava de sal no ar e água sob os pés, e ele, do vento e do barulho da tripulação. Tentar acorrenta-los a um lugar seria como arrancar de um pombo as asas. Tão imprevisíveis quanto eram aos 20, só que agora tinham uma reputação nos mares. Tanto ele por ser filho do pescador de almas, quanto por ser um dos capitães mais disciplinados e poderosos; ela, por saquear navios durante a noite sem ser percebida.

Só que agora ele estava cansado. Cansado de limpar tábulas de convés, cansado de pilhar e acordar sozinho. Precisava de chão.

Seu foco voltou para a mulher em seus braços. Ela pôs a cabeça no vão entre a clavícula dele e o ombro, olhos fechados e o corpo balançando como se fosse uma nereida, ou a corrente do mar. – Parece exausta.

- Uau. Depois de todo esse tempo, você ainda não sabe como falar com uma mulher.

- Ei. Você sabe o que eu quis dizer.

- Aham. – murmurou. – Estou exausta.

Ele se moveu para ajuda-la a entrar na cama; mas ela o parou com uma mão no peito. – Que foi? – ele perguntou, piscando devagar.

- Eu vim atrás de você por uma razão.

O brilho nos seus olhos era forte demais para ser somente a luz. Ele chegou mais perto, preocupado. – Amor? Que foi?

Nem respondeu ao apelido; só fechou os olhos e soltou um fio de ar. – Não consigo fazer isso mais. – pausou. – Quero uma casa. Não sou meu pai; não posso passar o infinito cercada por madeira e velas de pano negro. Preciso passar a tocha.

Perdeu o fôlego. Tomou-lhe as mãos. – Agora? – perguntou com voz falha.

- Não agora. – ela respondeu incerta. – O Pérola precisa de um herdeiro. Eu só queria te falar que, não importa o que você acha que eu queria antes, tudo que eu sempre desejei foi um lar. Você é meu lar. Sempre foi.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!