Passagem
1 Capítulo 1
Andava calmamente através da fina neblina. Não possuía expressão alguma no rosto. Apenas seus olhos conseguiam transmitir um leve fio de paz. Nada mais, nada menos. Segurava uma pequena maleta marrom, e estava vestido com um sobretudo preto, um chapéu de mesma cor e um terno risca-de-giz. Possuía uma mancha vermelha no peito, porém aquilo não parecia afetá-lo.
Porém, contrastando com aquela atmosfera calma, o ar se enchia re-pentinamente de barulhos ensurdecedores, como gritos, choros, buzinas, motores. Aquilo realmente não parecia fazer muito sentido. Junto com os barulhos, vislumbres de certas emoções pareciam se adentrar no rosto do homem, tomando-o aos poucos, como uma memória distante que tivesse vindo à tona. O rosto dele começou a se deformar pelas emoções: terror, dor, surpresa. Quando estas, junto com os barulhos, iam finalmente embora segundos depois, não havia resquícios da lembrança no rosto do homem; apenas paz.
Estava simplesmente indo para o trabalho naquela manhã, como qualquer dia. Comeu pão com geléia, bebeu café, trocou de roupa, despediu-se do filho e saiu para pegar o metrô. Caminhava normal-mente, pensando em seu trabalho para aquele dia, quando viu uma cena que o fez parar.
Não deveria ter parado.
Aquela neblina que envolvia o ambiente não foi capaz de fazer o homem passar pelo banco esculpido em metal preto sem percebê-lo. Sentou-se, colocando sua mala no chão, e esperou. Apenas esperou, com uma paciência infinita, algo que não tinha certeza que realmente viria. O tempo passava sem que ele se desse conta. Ora, ele não surtiria efeito nenhum, se é que sequer existia naquele lugar.
Afinal, o que era aquele lugar?, perguntou-se o homem. Sempre quis saber o que aconteceria após o incidente. Aliás, todos querem saber o que acontece. Bom, logo iria descobrir. Aquele era apenas um meio-termo.
Dois homens encapuzados saíam correndo de uma loja, cada um com uma arma na mão e um saco cheio na outra. Todos o que estavam no caminho dos assaltantes abriram espaço.
Ele não.
Deu um soco de direita em um, que caiu no chão atordoado, e começou a imobilizar o outro, que largou sua arma e o saco na débil tentativa de buscar um pouco de ar. Porém, o homem não percebeu que o outro ladrão não havia desmaiado. Cautelosamente, pegou sua arma e, quando o homem derrubou o outro no chão, atirou em seu peito desprotegido. Ele caiu no chão, soltando um grito abafado de dor. Enquanto os dois assaltantes prosseguiam em sua fuga, as pessoas que viram a cena correram, na tentativa de ajudá-lo.
Por isso que estou aqui, pensou ele, sentado no banco. Parece que foi há muito tempo, quase não me lembro.
Um trem silencioso chegava, cortando a neblina. Vagarosamente, parou em frente ao banco onde estava sentado o homem, junto a outras pessoas que não paravam de chegar. Lentamente, ele pegou sua mala e andou até o trem. Ele era negro, um pouco cinza até, provavelmente por causa da fumaça que soltava. Com certeza era muito velho, a ponto de não se saber exatamente sua idade.
Porém, quando o homem estava quase chegando à porta do trem, sentiu que estava sendo puxado por trás. Aqueles mesmos sons que ouvira pouco tempo antes voltaram com mais intensidade, e ele sentiu que se esvaía aos poucos.
A ambulância estava correndo pela avenida, desviando de carros e motos. Dentro dela, os paramédicos tentavam a todo custo ressuscitar o homem que havia sido baleado, ao mesmo tempo em que comentavam sobre ele.
— Sabe como ele foi baleado?
— Hum?
— Ele parou um assalto.
E, com uma advertência para se afastar, deu mais um choque no peito do homem com um desfibrilador.
Ele sentiu uma dor imensa, de repente, e caiu no chão. Os outros passageiros olharam brevemente para ele, porém continuaram a embarcar no trem, Omo se aquilo não fosse grandes coisas. O homem começou a se rastejar para tentar subir no trem, porém estava difícil combater a dor. Às vezes, parava para gritar, porém queria subir no trem. Uma vez dentro dele, a paz voltaria, e ele poderia até se encontrar com Joanne.
Outro choque com o desfibrilador fez o dedo do homem se mover bem levemente. Os médicos se animaram por um momento, porém ainda estavam perdendo ele. A ambulância parou no hospital e de lá o homem saiu em uma maca, os paramédicos correndo para dentro da sala de emergência.
Quase lá. Faltava bem pouco, talvez uns dois metros, para que chegas-se ao trem. O homem começou a rastejar mais rápido, enquanto a figura negra e alta apenas observava.
Quase lá. Seus dedos quase tocavam o solo do trem. Mais alguns segundos, talvez menos, e a paz voltaria. Pelo menos por enquanto não estou sendo eletrocutado.
Ele foi colocado em cima da maca. Médicos, enfermeiros e paramédicos corriam para todos os lados, procurando outro desfibrilador. Ele estava se esvaindo, e com certeza os médicos não poderiam deixá-lo ir.
O desfibrilador foi achado, e correram para o homem, preparando tudo. Só mais alguns segundos, e te traremos de volta.
Ele alcançou o chão. Com uma dor enorme, içou-se para dentro do trem, com toda a força que possuía. Vamos lá, ele pensou. Só mais um pouco.
O desfibrilador estava pronto. Abriram a camisa do homem, limparam o sangue que jorrava e se prepararam.
Afastem-se!, pediu o médico.
Sentiu um choque muito grande, que percorreu todo o seu corpo. Caiu quase sem forças, e sentiu que estava voltando. Não podia. Não queria. Com uma última força, puxou novamente.
O pulso estava diminuindo cada vez mais. Os médicos desesperaram.
Não!
As portas foram fechadas. Ele estava deitado no chão. Imóvel.
Nós o perdemos, falou o médico, com pesar em sua voz; ele nunca se acostumara a esse momento. Os aparelhos foram, um a um, desligados e guardados, enquanto o corpo era levado e uma enfermeira tentava contatar os parentes do falecido. Uma sombra negra pairava naquela sala.
Levantou-se e, sentindo novamente a paz, sentou-se em um dos bancos vagos, ao lado de Joanne.
— Então você veio.
— Não podia deixar que você embarcasse sozinho. Sou sua mulher, porém nem a morte nos separa.
— Vejo que não.
— Você tem um lugar no céu, ao meu lado. Seu ato foi muito heróico, sabia?
— Sim, agora percebo. Parece que foi há anos.
E, abraçado à mulher, olhou por um momento para a figura encapuzada. Não era possível ver seu rosto, porém ele sabia quem ela era. Ela acenou levemente para ele e virou-se para ir até outro vagão.
A morte não é tão ruim assim, afinal.
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