Notas iniciais
Drabble inspirado na frase "São Paulo" da minha fic "27 Vozes". "São Paulo passou dias no aeroporto após o fim da Ditadura. Quando ele saiu de lá, estava se sentindo finalmente completo." Aproveitem, PhoenixOfWind

São Paulo não conseguiria afirmar com certeza quando tempo havia passado desde que ele entrara naquele aeroporto. Poderiam ter sido cinco dias ou três semanas, ele não sabia, nem se importava com isso. Tempo era relativo, e ele sempre fora paciente.

Sentado numa das poltronas num canto isolado do saguão do aeroporto, São Paulo lembrava-se de esperas mais longas, mais agoniantes. Esperas menos confortáveis, embora suas costas começassem a protestar por causa da desconfortável poltrona. Ele mudou para uma posição que ele esperava que fosse melhor. Não era. Ele suspirou. Interrompendo seus pensamentos (que já migravam para memórias de outras coisas mais desconfortáveis do que uma simples cadeira de aeroporto), uma família entrou pelas portas principais do prédio, conversando baixo, e assentou-se no saguão vazio.

(Na verdade, não fazia muito que ele havia esvaziado. Até a pouco, inúmeros encontros, lágrimas e abraços estavam sendo trocados, consequências do último avião que pousara, vindo da Europa.)

Pouco a pouco, o local foi enchendo, seus ocupantes mirando as portas duplas da área de desembarque com uma mistura de apreensão e nervosismo. Muitos que ali estavam nem mesmo conheciam as pessoas que esperavam, somente o que haviam ouvido de histórias sussurradas no meio da noite, em tons velados de orgulho, contadas por integrantes de suas famílias. São Paulo, por outro lado, sabia muitas coisas sobre estes que retornavam. Ele sabia seus nomes e seus rostos, seus passados, o porquê deles terem ido embora e o motivo que os fizera retornar. Ele sabia detalhes não importantes sobre cada um deles, como quais eram suas cores favoritas ou o jeito que seus rostos enrugavam-se quando sorriam.

(Em alguns casos, o o próprio estado era o culpado pela extinção desses sorrisos, e o conhecimento disso fazia com que ele também não conseguisse mais sorrir.)

Aquele seria o último vôo. Depois dele, São Paulo seguiria o conselho dado por Rio de Janeiro e abandonaria sua quase eterna vigília. Ele pegaria um táxi na saída do aeroporto, e, depois de tantos anos, finalmente voltaria pra casa.

(Em sua mente, o paulista já conseguia ver os sorrisos cansados de seus irmãos, que, também, retornavam, pouco a pouco, ao lar. Muitos deles carregavam feridas, tanto em seus corpos quanto em suas mentes, mas seus olhos estariam brilhantes. A esperança havia retornado. Os estados novamente iriam unir-se, não mais separados, presos em jaulas de vidro.)

Os portões de desembarque abriram-se, deixando passar os passageiros daquele último vôo. Vários olhavam em volta, atordoados, em busca, talvez, de algo, ou alguém, que deveria estar ali. Perdidos. Outros eram recebidos com abraços e beijos, e, às vezes, um tapinha nas costas, de maneira constrangida e não familiar. Lentamente, os "estrangeiros" reaprendiam a língua-mãe, semi-esquecida, e tentavam se comunicar, com a voz embargada e um resquício de sotaque. Alguns traziam famílias, outros voltavam sozinhos, embora tenham partido acompanhados.

(O coração de São Paulo batia e doía por cada um deles. Seu povo, seus filhos.)

Quando, já tarde da noite, ele destrancou a porta da Casa, as lágrimas já secas em seu rosto envelhecido, e encontrou muitos outros de seus irmãos adormecidos em cima dos sofás da sala (eles mesmos tendo retornado de suas vigílias), o estado percebeu. As feridas continuariam abertas, mas todos eles já haviam completado a primeira parte da recuperação. Aquele tinha sido o último vôo, o último dia. São Paulo estava completo novamente.

Notas finais
Então?