Passado: Uma Caixinha de Surpresas
2 A Entrega da Garota
Notas iniciais
21/03/1997 — Nasce uma pequena garota, que aqui entre nós, parecia um garoto a primeira vista. E talvez a segunda também. Uma criança mais forte, fisicamente, que qualquer outra. Uma semideusa, prole de Bia.
A deusa de cabelos negros segurava sua filha recém-nascida, embalando-a. Mesmo sendo a personificação da violência, seu rosto era sereno e seu sorriso reconfortante.
(...)
Bia retornou ao mundo mortal para encontrar o pai da garota. A criança adormecida, jazia enrolada em um lençol vermelho-sangue, enquanto a deusa entrava na base do exército de Nova York sem ser notada. Vagarosamente, abriu a porta de um dos alojamentos, encontrando um homem forte, alto e careca, que estava sozinho lá dentro, tomando uma xícara de café. Ele a fitou e cuspiu o gole que acabara de levar a boca.
–B-Bia...O que faz aqui?! — Ele arregalou os olhos quando os mesmos encontraram o pacote vermelho no colo da morena.
–Desculpe, Charles. Não posso ficar com a criança e-
–Criança?! O que significa-
–Calado! — Os olhos da deusa ficaram levemente avermelhados -Nossa filha!
–Mas... — Ele se levantou, com a face aterrorizada e caminhou até a deusa. Ela se acalmou, fazendo os olhos voltarem a serem azuis.
–Charles. — Ela estende a prole para o pai -Cuide dela. Ela será uma de minhas melhores crias. — Um sorriso se forma nos lábios dela -Ela não parece violenta, mas esse é o sangue que ela carrega. A hora que lutar para valer... — Ela solta um curto riso, mas aterrorizante -Haverá sangue...
Ele ainda fitava a deusa estendendo o bebê. Como ele iria cuidar da criança no exército? Seus oficiais não permitiriam...E poderia ser demitido! Tinha vontade de expulsar ambas dali. Sua mão direita percorreu a cintura e agarrou o cabo de sua pistola semi-automática, apontando para a morena e a garota. A deusa riu, fazendo o mortal suar frio.
–Ha ha! É sério isso? Atire e veja o que acontece!
–O-olha que eu atiro! Você é imortal, mas a criança não!
Bia continuou sorrindo maleficamente e Charles atirou. Para ela aquele disparo foi em camera lenta. Simplesmente colocou a palma da mão na frente e o projétil parou, sem encontrar o destino.
–Já disse. Cuide da criança! — Ele percebe os olhos tristes dela e solta um suspiro, guardando a arma.
–Me dê então... — Ele segura a garota, fitando seu rosto de joelho amassado -Tem certeza que é uma garota?
–Tenho, seu idiota! — Ela bufa -Droga, tenho que voltar! Feche os olhos, mortal. — Ela deixa um beijo na testa da filha, enquanto ele fecha os olhos. Então, Bia assume sua forma divina, sumindo em luz.
Charles fica sozinho com a garota no colo. O que faria agora? Ele a fita. Agora estava acordada e observava ele, com seus grandes olhos negros. Uma lágrima escorre na face do homem e a filha leva sua mãozinha até seu rosto, enxugando-a.
–Eu...Sou...Pai! Mas...Qual seu nome? — Ele percebe um papel dobrado perto dela e lê:
"Seu nome é Menelau, nome do lendário rei de Esparta."
Com violência, Bia.
–Depois reclama quando eu falo que parece um garoto! Esse nome é de um rei! Um R-E-I! — Ele bufa -Mas...Se eu trocar algumas letras de lugar e tirar outras...Manu! Que tal? — A garota ri com o novo nome -Será Manu então!
Decidido, o marechal vai até o seu superior e consegue uma licença para cuidar da filha.
(...)
Um ano depois, em sua cidade natal, Mukilteo...
Charles sorria de orelha a orelha com a filha andando e chamando-o. Infelizmente não poderia mais tê-la nos braços todo o tempo. Suas férias terminariam e ele teria que voltar ao seu posto de marechal no exército. Teria que decidir entre levar a garota consigo ou colocá-la em uma creche em período integral. Charles decidiu tentar a segunda opção, mesmo sabendo que Manu era filha de Bia, deusa grega da violência, ira, disputas, força física e ânimo. Mas o pai acreditava em outra qualidade da mãe da garota. O altruísmo.
–Char, char! -A garota vai até ele e depois puxa a barra da sua calça, tentando chamar atenção.
–Desculpe, tenho que voltar para o trabalho...Vou contratar alguém para ficar com você, okay?
Manu fica meio desapontada, enquanto Charles ligava para a creche.
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