Notas iniciais
Obrigada por ter chegado até aqui, obrigada por acompanhar e pans. Desculpe a demora, eu passei o mês na praia e não tive tempo, MAAAAAAAASS aí vai, espero que goste :)

– Desde que me entendo por gente, não tenho mãe. Eu e minha irmã morávamos com nossa tia, que nos tratava como filhos. Eu a tratava como mãe, já minha irmã... Ela nunca foi muito calma. Sempre inquieta, parecia procurar motivos para se revoltar.

“No nosso aniversário de 13 anos, ela pediu de presente uma viagem para um acampamento de férias. Ela chegou até a chamar nossa tia de mãe. No fim, nossa tia permitiu que viéssemos. Eu não sabia de nada, mas foi um sátiro que entregou a ela um panfleto falso do Acampamento para que ela pudesse mostrar à nossa tia e vir.

“Chegando aqui, nos mostraram o filme de orientação, o que explicou tudo. Éramos semideuses, e de repente, tudo era diferente. Fomos muito bem recebidos no chalé de Apolo, treinados e instruídos. Ela era uma das melhores arqueiras daqui, sabe? Talvez tenha sido isso que chamou a atenção de Ártemis, ou talvez a sua teimosia e insistência quando se tratava de algo que ela queria, eu não sei.

– Ártemis? Mas ela não é uma deusa?

– É sim. Ártemis fez o pacto de castidade, então ela não tem filhos, apesar de ter chalé aqui. Mas ela tem um grupo de garotas que ela chama de “Caçadoras”. As Caçadoras são garotas adolescentes que se juntam a Ártemis e permanecem com ela até a morte, segundo o juramento. – olhei para ela com uma expressão de curiosidade e ele logo explicou – O juramento é pelo que as Caçadoras precisam passar para se tornarem efetivamente. Elas juram que não se envolverão com garotos e, em troca, Ártemis dá a elas a imortalidade, elas não adoecem ou envelhecem, mas podem morrer em batalha.

Ele parou e ficou em silêncio, olhando para frente, mas não havia nada lá. Pensei que não deveria ter perguntado nada, que ele não contaria mais nada, mas depois de alguns segundos ele continuou.

– Um tempo depois que eu e minha irmã chegamos aqui, as Caçadoras apareceram e ficaram um tempo no chalé de Ártemis. Acho que elas estavam em missão ou algo do tipo. O caso é que quando Ártemis viu minha irmã, sugeriu que ela se juntasse às Caçadoras. Minha irmã mais que depressa fez o juramento. Eu acho que talvez no intuito de contrariar novamente, mas não havia a quem contrariar. Até hoje não entendo mais da metade das escolhas dela.

“As férias acabaram e grande parte dos campistas se despedia. Eu havia decidido que ficaria aqui, porque queria aprender mais sobre tudo. A verdade é que me apaixonei por isso aqui, e não queria voltar mais para casa. Uma manhã, minha irmã apareceu para mim, chorando, segurando sua aljava nas mãos. Ela disse que tudo o que queria era voltar para casa, que não aguentava mais. Eu não entendi nada, mas ela não me deu muito espaço para perguntar. Disse que se arrependia e queria que eu a desculpasse. Embora eu não soubesse do que estava falando, a desculpei e disse que a amava, disse que ela era a melhor irmã do mundo e que para qualquer coisa que precisasse, poderia contar comigo. Ela me deu sua aljava mágica, que tinha ganhado ao completar o juramento, como “uma lembrança dela”, me abraçou e depois se soltou, correndo em direção à entrada do Acampamento.

“Depois de um tempo eu ouvi boatos de que ela havia corrido para os meios tradicionais para quebrar o juramento e deixar de ser Caçadora, mas não sei se eram verdadeiros. Nunca deixei de amá-la apesar de tudo. Talvez ela tivesse muitos problemas, mas eu não teria como saber. Ela guardava tudo para si, e explodiu.

– Que meios tradicionais?

– Um garoto. — ele respondeu, dando de ombros.

Opa.

– Espera. Pelo que eu entendi, Ártemis meio que rejeita os garotos. Por que ela deixou que você ficasse com a aljava? – perguntei e ele riu

– Ártemis gosta de mim. Talvez seja pena, talvez eu a faça lembrar o irmão, eu não sei. É engraçado.

– Mas... Você nunca mais a viu, Luc?

– Algumas vezes sim. Todo ano, no natal, eu vou para casa comemorar com minha tia, mas há uns três anos ela saiu da casa da minha tia, então eu nunca mais a vi. Sinto a falta dela, muito mesmo, mas não há nada que eu possa fazer.

– Ah, entendo. Não sei o que dizer...

– Então não diga. Não precisa. Eu estou bem, Ella. Mesmo.

Ele se levantou e eu fiz o mesmo. Talvez eu não pudesse mesmo dizer nada, mas o que eu podia fazer, fiz. O abracei. Foi um abraço caloroso e senti nossa enorme diferença de altura. Enorme. Talvez eu fosse baixa demais. Talvez ele alto demais. Talvez os dois.

Quando nos soltamos, vi um sorriso em seu rosto. Um sorriso puro, genuinamente feliz.

– Vamos antes que comecem uma rebelião por sua causa.

Eu dei de ombros e ele riu.

Ele pisou no dispositivo no chão, voltando a ser pequeno e quadrado, e o colocou no bolso.

Partimos floresta afora. Dessa vez, sua mão já segurava a minha. Havia um sentimento fraternal naquele gesto, embora eu não soubesse explica-lo.

Ouvi um barulho vindo de trás de nós. Primeiramente imaginei que fosse minha imaginação pregando peças, mas depois da segunda vez, parei, fazendo Lyu parar também.

– Que houve, Ella?

– Você não ouviu... — o barulho ecoou mais alto – isso?

– Isso o...

Lyu não pôde terminar. Era como se eu sentisse que ele estava lá, mas não soubesse dizer, então de repente ele surgiu. Uma coisa de uns dois metros e meio de altura — altura suficiente para ficar bem camuflado na floresta – surgiu. Eu diria que “brotou” do chão. O monstro estava bem perto do meu pé e eu tinha meu arco em mãos, mas congelei e minha visão embaçou. Lyu tentou me jogar para trás dele, num movimento protetor, mas não conseguiu, e eu entendi o motivo da minha visão estar embaçada. O monstro havia mordido meu tornozelo direito. Não senti nada porque estava em estado de choque. Tentei mexer minha perna, mas nem meus braços eu controlava mais. Não fazia ideia se a mordida continha veneno ou se simplesmente eu estava apavorada. Bem, o segundo era fato. Lyu se afastou um pouco e atirou duas flechas. Não saberia dizer onde ele acertou, nem se acertou, porque ainda não enxergava, mas o monstro me soltou. Finalmente consegui me mexer, mas não fui muito bem sucedida nesse feito. Tentei andar para trás no intuito de me afastar do monstro, mas tropecei em alguma coisa e acabei caindo sentada, um pouco mais afastada, mas ainda perto.

Ouvi uma saraivada de flechas passando por mim em direção ao monstro.

Ouvi passos na minha direção e braços passando à minha volta.

Ouvi sussurros com meu nome enquanto alguém corria me segurando no colo.

Ouvi um nome familiar sendo chamado quando senti finalmente a claridade do sol em minha pele.

Ouvi um grito feminino assustado.

Então não ouvi mais nada.

...

Acordei assustada praticamente gritando. Algo que nem fui capaz de fazer. Não fui capaz de fazer nada. Absolutamente nada.

Olhei à minha volta e percebi que estava em um lugar fechado. Parecia bastante com a sala em que eu acordei na Casa Grande, mas era muito mais comprida e cheia de macas. As paredes brancas tinham entalhes em madeira e algo como um brasão pendurado em uma das paredes. Parecia em taco de beisebol com duas cobras enroladas nele.

Vi que aquelas outras macas mais pareciam camas e pareciam fazer parte do cenário muito mais que aquela maca em que eu acordei deitada na Casa Grande, aliás, eu era a única lá. O lugar estava completamente vazio. Sentei-me e não, a maca não fez barulho algum.

– Não esperava que você acordasse tão rápido. Como se sente?- alguém falou comigo.

Embora a voz me fosse familiar, não me lembrei de imediato e comecei a procurar de onde vinha ao invés de responder.

– Ella, você acordou? – a mesma voz insistiu então eu reconheci.

– Acordei, Nick.

Ela surgiu de uma porta à minha esquerda que estava entreaberta com algumas coisas que não identifiquei nas mãos.

– Como se sente?

Isso me lembrou da mordida, que eu havia esquecido por um momento. Estiquei a perna e vi o estado da minha canela. Uma mordida de mais ou menos 50 cm de comprimento marcava minha perna, começando no tornozelo. Os dentes do monstro deviam ser bastante afiados, pois cada um dos muitos buracos de dentes marcados ali exibia carne viva. Aparentemente a Nick estancara o sangue enquanto eu estava desacordada. Doía, mas não muito. Contraí e estiquei o pé e fiz o mesmo com a perna. Senti algumas fisgadas muito fortes, mas nenhuma dor insuportável.

– Estou bem. — respondi, apoiando o pé novamente no chão — Você sabe o que houve?

– Eu esperava que você me respondesse, na verdade. — ela sorriu

– Eu não... — comecei a falar, mas senti que faltava alguém — Onde está o Lyu?

– Ele é conselheiro do chalé de Apolo, teve que ir ver os últimos preparativos do caça. — ela respondeu, dando de ombros.

Contei a ela o que sabia do incidente enquanto ela pingava alguma coisa em meus machucados, imaginei que fosse um remédio. Ardia. Muito.

– É normal terem monstros na floresta. Ajudam em treinamentos ou até mesmo no caça. Só é estranho um ataque desse tipo.

– Ah não! O caça! Eu vou poder participar, né?

– Se conseguir andar e quiser ferrar sua perna mais ainda, vai na fé.

– Sério?

– Não. – ela respondeu e passou novamente pela porta.

Eu havia me preparado o dia inteiro para o caça e não poderia participar? Achei injustiça. Não era culpa minha aquele monstro ter me mordido. Talvez fosse culpa minha a gravidade do ferimento, mas não importava. Eu precisava participar daquilo.

Nick surgiu novamente, mas dessa vez com uma sacola transparente na mão cheia de quadradinhos escuros. Ela abriu a sacola, tirou um quadrado e o analisou. Me entregou.

– O que é isso?

– É de comer, Ella.

Relutante, comi. Uma sensação quente passou por mim acompanhada do melhor sabor do mundo, tão bom que era inexplicável.

– Quero mais. — pedi, lambendo os dedos.

– A não ser que você queira morrer queimada de dentro pra fora, você... Ah, esquece. Não.

Eu ri e levantei, minha perna doía, mas menos, como se o quadradinho tivesse feito a dor diminuir. Fui andando até ela, mas quando ela entendeu o que eu queria fazer, já era tarde, estiquei o braço de modo que minha mão agarrou a sacola. Abri e peguei mais um quadradinho antes que ela conseguisse arrancar a sacola de mim pulando do meu lado. Joguei o quadradinho na boca sem morder antes que ela pudesse fazer alguma coisa.

– Vem cá, você quer morrer mesmo, não é? — ela perguntou ironicamente.

– Olha só, a gorda aqui precisa se abastecer, valeu? E esse troço é muito gostoso.

– Esse “troço” se chama ambrosia, e se você comer muito disso vai queimar de dentro para fora. O certo é comer apenas uma porção, mas já que você quer morrer mesmo. — ela deu de ombros.

Não senti muita coisa diferente da primeira vez, apenas a sensação quente havia se tornado mais quente.

– Eu não posso nem sair daqui? Devem estar preocupados comigo, o Pablo, o Gu, a Madu...

– O Will não? — ela perguntou, me interrompendo.

– Quem?

– O Will, Ella. Alto, olhos verdes, jeito reservado, te deu aula de esgrima...

– Eu sei quem é o Will, mas por que todo mundo me pergunta do Will?

– Ah, não sei. — ela falou, dando de ombros, mas me pareceu que mentia.

– Falando em Will, por que ele te olha daquele jeito?

– Ele me olha de um jeito específico?

– Não sei, parece um olhar culpado...

– Ah.

Ótimo. Ah. Explicou muito. Sentei de volta na maca e fiquei pensando em um modo de escapar daquele lugar. Minha perna talvez atrapalhasse, mas... Quando olhei para a perna, me espantei. Não havia praticamente mais nada lá, e algo me dizia que era obra da ambrosia. Minha perna não doía e comecei a cogitar distrair a Nick e correr, mas ela fechou os olhos e respirou fundo, e eu percebi que seria a segunda longa e triste história do meu dia. Eba.

– Há alguns anos, o Will tinha uma namorada. O nome dela era Lilly. – o verbo no passado me assustou, mas não interrompi. – Eles eram muito felizes. Era o casal do Acampamento. Eles eram engraçados e simpáticos e todos os amavam. O Will era umas dez vezes mais sorridente naquela época.

“Há aproximadamente um ano, uma profecia foi recitada para a Lilly e ela teve que partir em uma missão. Ela pôde escolher dois campistas para acompanha-la. Esses foram o Will e o melhor amigo dele, Chris La Rue. Eles partiram. Duas semanas depois, com todos preocupados com eles, Will apareceu no alto da colina, servindo de apoio para Chris, que nem conseguia mais andar. Ambos estavam completamente acabados. Machucados por todo o corpo, de roupas rasgadas e completamente manchados de sangue, tanto deles quanto de monstros.

“Lembro daquele dia como se fosse ontem, sabe? Todos ficaram se perguntando da Lilly embora a resposta fosse óbvia. Acho que ela era tão querida por todos que ninguém foi capaz de acreditar. Enchiam o Will de perguntas, e quando mencionavam o nome dela, ele ficava completamente mudo. Como se o mundo tivesse desaparecido. Depois de uns dias, desistiram de perguntar e fizeram um funeral simbólico, porque não havia corpo.

“O Chris passou semanas aqui, na ala hospitalar, mas não resistiu. – percebi que ela hesitou ao dizer a última palavra. – Ele passou um tempo sofrendo aqui. A namorada dele não saía de perto dele. Ela parou sua vida para ficar aqui, ao lado dele, e sempre dizia que tudo ia dar certo embora ambos soubessem que não. O estado dele era crítico, mas ele se recusava a falar qualquer coisa sobre o que havia acontecido na missão, então não tinham nem como descobrir o que se passava com ele. – vi uma lagrima escorrendo pelo canto de um olho dela, embora tivesse passado a mão rapidamente para secar – Foi uma morte triste, mas ele morreu feliz.

“Quanto ao Will, era de se esperar que ele ficasse mal. A namorada e o melhor amigo... Ele passou meses em silêncio. Só treinava. E treinava. Parecia que a esgrima havia se tornado a melhor amiga dele. Mas depois de um tempo as pessoas foram voltando a entrar na vida dele, isso por causa do Davi, que até ia praticar esgrima só para cuidar do irmão. Eles acabaram virando melhores amigos e a “dupla impossível” do caça.

– Dupla impossível? – perguntei.

– É como chamam os dois. É praticamente impossível passar pelos dois. Talvez na semana que vem você os veja em ação.

Pensei que não esperaria a próxima semana, mas não falei nada. Eu ainda precisava bolar um jeito de fugir de lá.

– Eu sei que é triste e tudo, e explica muito o Will ser como é, mas, sem querer ser grossa, o que eu tenho com isso?

– Ella, ele não tentou nada com você, tem certeza?

Sim, ele havia tentado. E conseguido. Duas vezes. Mas pensei o que aquela história toda teria a ver com ele supostamente gostar de mim. Porque querendo ou não, era muito estranho uma pessoa beijar outra do nada sem nem conhecer. Resolvi contar, afinal, o que poderia acontecer de ruim? A Nick era confiável e eu tinha certeza disso.

– Bem, ele me beijou. Ontem.

– Eu imaginei.

– E hoje.

– Então, o que acontece é que a Lilly era igual a você.

– O QUE? – gritei. Um garoto me beijar sem me conhecer era uma coisa, mas um garoto me beijar por eu ser igual à namorada morta dele... Não, cara.

– Ela era ruiva, mas fora isso, iguais. Por fora, é claro. Ontem mesmo percebi que não podia ser você. As pessoas têm falado muito sobre isso, sabia? Acham que você é ela. O fato de você ter perdido a memória ajuda muito a terem essa impressão.

– Como você percebeu que eu não era ela? – a verdade era que eu realmente estava começando a imaginar se eu não era a Lilly. Poderia ser. Mesmo. Talvez eu tivesse sido curada quando o Will achava que eu estava morta, mas a cura tivesse custado minha memória. Era bastante possível.

– Uma pessoa pode perder sua memória, mas não perde quem é. A Lilly era, bem, a Lilly. Doce, delicada, carinhosa.

Já você... Bem, Ella, digamos que esses adjetivos não se aplicam tanto a você.

– Ou seja, eu sou uma ogra. Valeu.

– Quase isso. – ela riu, e vi que ela tinha realmente certeza daquilo. – E ela era minha melhor amiga. Eu a reconheceria. Não é você.

– Infelizmente.

– Nada disso. Seja você, Ella. Você não precisa se prender a nada, não vê como isso é maravilhoso? Você pode construir seu futuro sem precisar olhar para trás, pode viver o presente sem se importar muito. Você não carrega luto ou tragédia. Você é livre de tudo e pode criar seu próprio passado começando agora. Sem a influência de ninguém, mas somente a sua.

Olhando por aquele lado realmente era incrível, e foi naquele momento que quis me desligar de toda essa história de passado. Eu não queria lembrar. Não precisava daquilo para viver.

– Nick? Você não explicou o olhar culpado do Will pra você.

– Sabe a namorada do Chris? – ela perguntou

– Aquela que quase morreu junto? Pelo que você me disse, ela foi quem mais sofreu, de todos da história.

– O nome dela é Nicolly. Sou eu, Ella. O Will matou o amor da minha vida.