Passado, Presente ou Futuro
4 Capitulo IV
Acordei e Pablo já não estava mais lá. Avistei, através da janela, o sol, todo majestoso e alguns campistas agitados, fazendo alguma coisa aparentemente importante.
Sentei-me e massageei as têmporas, lembrando da noite passada.
– Bom dia, Mioja!- Pablo surgiu e eu dei um pulo de susto.
– Você me assustou, garoto!
– Estava fazendo coisa errada, né?- ele sorriu.
– Mas é claaaaaro. — sorri de volta e me levantei, fui até o espelho e me encarei. Fora o meu cabelo estar um monstro, eu não era tão feia assim. Comecei a fazer alguma coisa no cabelo, mexendo as mechas loiras pra lá e pra cá. — Você sempre acorda cedo?
– Sim, mas não está cedo. Aliás, como você acordaria cedo depois de ontem à noite?- ele perguntou e eu congelei. Como ele sabia do que tinha acontecido? Era pra ele estar dormindo.
– Como você...?
– Eu acordei quando percebi que você tinha saído da cama. No primeiro momento, fiquei apavorado e preocupado, você era responsabilidade minha. Mas quanto te vi na porta e vi que o Will estava lá, voltei a dormir.
Terminei meu cabelo, e o que tinha feito era uma trança, fiz automaticamente sem ter a menor noção do que estava fazendo. Fiquei apavorada com aquilo, mas não disse nada sobre.
– Você viu o Will?- que ótimo, eu nem tinha entendido direito o que tinha acontecido, mas o Pablo já estava sabendo.
– Sim, sabia que qualquer coisa que qualquer um dos outros que não vi, mas imagino quem sejam, perguntassem ou fizessem, ele iria te defender. É isso o que ele faz quando gosta de alguém, e eu tinha certeza que ele iria gostar de ti.
Achei estranhamente conveniente ele acordar antes de todo mundo ir embora e eu e o Will...
– Gostar de mim?
– É... Ele é um cara legal, logo você vai gostar tanto dele quanto eu, ou mais.
– Ou mais?
– Está tudo bem? Você está repetindo o que eu falo.
– Repetindo o que você... Ai desculpa.
Ele se sentou ao meu lado e ficou encarando a parede oposta. Fiquei encarando também. O silêncio me matava e resolvi contar, afinal que mal faria? Se eu fosse ficar por lá teria que arrumar amigos, e por que não o Pablo?
– Pablo, sobre ontem à noite... — eu comecei.
Alguém bateu na porta toc-toc toc. De novo toc-toc toc.
– Vai lá, Mioja, sou mais velho.
– Vai você, está mais perto da porta.
– Sou velho e cansado.
– Desmaiei ontem.
– Você é mais nova.
– Percebeu que você só tem uma desculpa? Já percebi que você é velho. Vai logo e para de enrolar. — mostrei a língua pra ele, que riu.
Pablo se levantou e abriu a porta, lá fora, um garoto tão alto quanto ele ou mais, esguio, de cabelos pretos nem tão curtos, olhos castanho claros, barba por fazer. Tinha um meio sorriso no rosto, que o fazia ficar mais bonito.
– Oi Gustavo! O que faz aqui?
– A Ella está aqui, não está?- Gustavo perguntou.
– É... Aqui. Quem você seria? — a pergunta certa seria quem sou eu, mas como aparentemente ninguém de lá era apto a respondê-la, não era uma pergunta muito válida.
– Meu nome é Gustavo. Sou filho de Zeus, seu irmão e seu instrutor.
– Você que vai ser o instrutor da Ella? Que ótimo! O mais novo conselheiro! — Pablo disse, sorrindo, mas logo ficou sério. — É, soube da missão e do Terry. Lamento.
– Não sou conselheiro, Pablo. Sabe disso. A Maria tem feito o trabalho muito bem sozinha, nem precisa de um sub conselheiro. E depois do que aconteceu com o Terry...
– O Terry não foi culpa sua. Ou de ninguém. E o chalé 1 precisa de outro conselheiro, a Maria é forte e consegue, mas merece um descanso. Sabe que meu voto é em ti. — Pablo enfatizou batendo nas costas do Gustavo
– Valeu, Pablo. Mesmo. — se virou pra mim- Vamos ao refeitório agora. Imagino que não tenha comido nada ontem pelos horários em que esteve acordada.
– Estou morrendo de fome, mas... Gostaria de trocar de roupas, essas estão um tanto... Acabadas. — apontei para as coisas que eu usava que nem poderiam ser chamadas de roupas. Eram frangalhos. Restos de tecido. Pedaços de cinzas e de folhas tostadas.
– Imaginei isso. Bem, a Maria imaginou. Vamos encontrar com ela no refeitório e depois do café, vamos ao chalé pegar roupas dela emprestadas e você toma um banho.
– Okay, Gus. — eu disse e me virei para o Pablo — Você vem, Miojo?
– Ainda não. Tenho assuntos a resolver. Encontro vocês lá.
...
– Bem, antes de tudo, devo lhe avisar que a melhor parte da sua refeição deve ser ofertada aos deuses, ou a um deles.- Gus me alertou- Quando eu era novato deixaram pra me avisar por último. Não foi legal.
– A quem? Deuses? Não to entendendo.
– Ah, verdade, esqueci que preciso explicar tudo. Bem, me imite e tudo vai dar certo.
Imitei. Ofertei comida a Zeus e tal, mas o Gus o chamou de querido pai e chamei de ‘babaca que quer me ajudar’, esperei que ele se importasse com a grosseria, mas acho que não teve diferença, já que a oferenda pegou fogo do mesmo jeito.
Sentamos numa mesa, que ele chamou de mesa do chalé 1, com algumas pessoas, que ele chamou de filhos de Zeus.
– Você poderia começar me explicando essa coisa toda de chalés e conselheiros e números e deuses. –pedi.
– É bastante coisa. Cada chalé tem um número e um deus é seu patrono. Não do chalé em si, mas dos campistas do chalé. Por exemplo, o nosso chalé, seu e meu, é o chalé de Zeus, o chalé 1. A Maria é a conselheira, e o sub conselheiro do chalé, o Terry, faleceu há uma semana. Zeus é o pai de todos os campistas do chalé 1. Os conselheiros de cada chalé cuidam para que tudo corra bem separadamente e... — ele foi interrompido
– E aí, trolho?- uma garota falou. A reconheci pela cartola.
– Sabe que não gosto que me chame de trolho. — Gus respondeu, se sentando ao lado dela.
– Ui, desculpa. – ela levantou as mãos e se virou para mim- Oi, Ella.
– Oi... Seu nome é Maria, né?
– Maria Eduarda, mas me chamam de Maria.
– Prefiro Madu. — eu disse e ela sorriu
– Como estão os preparativos pro caça de hoje à noite?- alguém do outro canto da mesa falou, aparentemente para a Madu.
– Digamos que vai ser bastante... Interessante. — ela sorriu maliciosamente e a mesa inteira gritou, em comemoração.
– Não acredito. Bomba de laranja. Ele se supera a cada vez. — Gus falou depois de um tempo em silêncio.
– Ele não tem noção, né? Ele vai acabar se machucando feio por causa dessas coisas. — Madu respondeu.
– Que? Quem? Anh?- eu perguntei.
– O Gui Pedroso. Acabou de deixar na mesa de Hades uma laranja que vai explodir. -Gus falou
– E a Larissa Kiriliuk vai pegar. O namorado dela, o Filipe Muliterno, além de ser esquentadinho, é filho de Ares.
Foi o que aconteceu. A tal garota, de cabelos e olhos negros e lábios extremamente vermelhos, pegou a laranja, que voou pra todos os lados, inclusive nas roupas e no rosto dela.
Imediatamente o namorado, esguio, de olhos claros e cabelos escuros com pequenos cachos castanhos ameaçando cair nos olhos, se levantou bruscamente e foi até uma das mesas, agarrou a gola da camisa de um garoto que ria desesperadamente apesar de estar provavelmente sendo ameaçado de morte. O garoto, no caso o Gui, não tinha o que temer, era maior que o filho de Ares, mas não parecia se preparando pra uma luta e continuava a rir.
Algo aconteceu e o Filipe acertou o nariz do Gui com tudo num muito barulhento soco. Ou será que o barulho era do nariz? Todos ficaram quietos apenas observando. Sangue escorrendo. Nossa, muito sangue escorrendo. O Gui se endireitou e deu um soco na orelha do Filipe que o deixou tonto. Ele cambaleou para trás e cairia, se um amigo dele não o tivesse segurado. O Felipe e o Roberto se colocaram ao lado do Gui. Uns 2 outros garotos se colocaram ao lado do Filipe. 3 contra 3. Os seis se encaravam, mas ninguém se mexia.
– MAS QUE MERDA TA ACONTECENDO AQUI?- Pablo gritou ao chegar e logo se pondo no meio dos dois grupos. Alguém começou a falar, mas ele não deixou- QUER SABER? EU NÃO QUERO SABER QUEM COMEÇOU. QUERO SABER QUE TODOS VÃO TERMINAR ESSA BABAQUICE AGORA. — ele gritava mas ao mesmo tempo parecia calmo e contido.
– Você não manda na gente, Pablo. — Filipe falou.
– Não mesmo. Não sou seu pai. Na verdade, estou dando graças aos deuses nesse minuto por isso. Acho que nem seu pai deve te aguentar. — Filipe começou a argumentar. –Eu não quero saber, Filipe. Na boa, vai à merda com seus ataques ridículos de raiva. Sabe que se eu quisesse acabava com isso agora contando ao Quíron, então abaixa a tua bolinha aí. O melhor que tu faz é sair, vai treinar, sei lá.– se virou para os garotos que estavam com o Gui enquanto o Filipe saía do refeitório seguido pelos amigos. –Roberto, leve o Gui pra ala médica.
Todos voltaram a conversar alto como antes, afinal, a briga tinha acabado, mas por causa da conversa alta eu não consegui ouvir o que o Pablo disse ao ouvido do Gui assim que ele saiu pra ala médica, só deu pra ver um sorriso no rosto de cada um e o Pablo dando tapinhas nas costas do Gui.
Depois que o Roberto levou o Gui, o Pablo abraçou o Felipe e os dois foram pra uma mesa e começaram a conversar, empolgados.
– Achei que tivesse me dito que não podemos sentar à mesa de outros chalés, Gus. — eu disse.
– É, mas hoje é sexta, dia de caça e chalés que têm aliança, podem se juntar. — ele explicou.
– Bem, eu terminei, vamos?- Madu chamou.
Olhei pra mesa mas já estava satisfeita, não aguentaria comer muito mais.
– Por mim vamos. E você, Gus?- falei.
– Bem, eu estou terminando aqui. Vão na frente, vocês vão fazer coisas de garotas mesmo, não estou nem um pouco afim de ficar dando opinião em roupa.- ele sorriu ao terminar a frase.
– Até parece que sou dessas. A Ella também não é. — ela hesitou. — Não é, né Ella? Me diz que não.
– Eu não sei nem do que estão falando.- disse, rindo.
– Podem ir, eu passo lá depois pra buscar a Ella. Temos muito pra estudar.
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