Notas iniciais
Desculpem a demora, eu estive fora por um tempo, e desanimada por outro. Mas aí o capítulo.

Recostada em uma das colunas do refeitório, sua perna dobrada de modo que seu pé encostava na coluna atrás de si. De longe, ela não parecia nem um pouco ameaçadora. Sua estatura colaborava com isso. O fato de ela ser magra e muito alta trazia um ar meio... desengonçado. Porém eu sabia que não era bem assim. Podia visualizar facilmente ela usando tal característica a seu favor, fingindo ser desastrada e desengonçada, fazendo seu oponente pensar que ela nem valia à pena a luta, e logo nocauteando-o, de forma que ele nem percebesse o que o atingiu.

Ao me aproximar mais, vi que ela tinha notado minha presença, pois logo ela assumiu uma postura vigilante, erguendo a adaga incrustada de pedras.

– Ah, é você. — ela disse, dando de ombros.

– Estava esperando outra pessoa? Se estiver, posso voltar mais tarde. — provoquei.

– Já está tarde. Tarde demais. Espero que funcione.

Eu não entendi nada, apenas assenti, pois não haviam respostas irônicas ou sarcásticas que se aplicassem no momento.

Ela agarrou meu braço e me arrastou em silêncio até os chalés. Um chalé em especial. Chalé 15.

– Que chalé é esse? — perguntei.

– É onde vamos ver se você realmente estava falando a verdade sobre seus sonhos.

– A falta deles, Mia. — corrigi

Ela não respondeu e, segurando meu braço novamente, me carregou para dentro.

Por fora, o chalé não tinha nada demais, era apenas branco com fracos desenhos de nuvens. Por dentro era um tanto diferente do de Zeus. Obviamente o espaço era o mesmo, mas a arrumação, por ser de forma diferente, fazia parecer que eram dois mundos completamente diferentes. Apesar de estar escuro, pude perceber que o chão era macio, por causa do fofo tapete marfim que se estendia pelo chalé inteiro. Um feixe de luz repentino me deu uma pequena noção de como era lá.

Camas eram o que não faltava, e prateleiras cheias de roupas de cama, lençóis, edredons e travesseiros estavam presas à parede a cima de cada cama. Olhei para cima e vi o desenho da fachada um pouco mais detalhado. As nuvens do teto eram tão bem desenhadas que poderiam até ser reais. Por pouca luz adentrar o lugar — pude ver que as cortinas tapavam grande parte da luz solar -, não consegui enxergar muito bem as pessoas que estavam deitadas nas camas. Não eram muitas, e não produziam som algum além da respiração.

Mia seu um tapa na sola do pé de uma garota negra, de cabelos pretos emaranhados. Ela vestia um pijama rosa de bolinhas brancas.

– Ai! — exclamou a menina.

– Clarie, você me prometeu que me ajudaria, mas preciso de você acordada para isso.

– Eu tô acordada. — respondeu Clarie, bocejando.

– Aqui está a garota que te falei, Ella. Ela disse que não tem tido sonhos desde que chegou ao Acampamento.

– Bem, isso é — bocejo- estranho. Semideuses costumam sonhar muito. Não mais que eu e meus irmãos, mas muito.

– Qual é, você vai acabar dormindo de novo. Para de papo e resolve isso logo. É verdade ou não? — Mia reclamou.

– Posso? — Clarie ignorou Mia, se dirigindo a mim. — Chegue mais perto.

Embora eu não soubesse o que ela queria fazer comigo, por um movimento involuntário, obedeci. Ajoelhei ao lado da cama dela e abaixei minha cabeça, encarando o chão. Senti seus dedos gordinhos pressionando meu crânio e então eu já não estava mais lá.

Eu estava em um bosque, cheio de névoa pesada, que me fazia apenas querer dormir. Bocejei vendo as árvores com suas folhas tão verdes que doíam meus olhos. Algumas poças de água ladeavam umas arvores como se tivesse chovido há pouco tempo, porém a água não parecia água. Era azulada e parecia que pequena parte da névoa era sugada para dentro das poças. Como se fosse um aquário trocando de água, no caso um ambiente trocando seus, hm... ares.

– Onde estou? — perguntei ao ver Clarie em pé na minha frente, enquanto eu, já sentada, fazia força para levantar. Pude ver que ela não era nem um pouco tão bonita quanto parecia à pouca luz.

– Num estágio mediano. Mas o que há com você? — ela parecia perturbada.

– O que quer dizer com — bocejo- isso? — perguntei.

– Isso não importa agora. Durma.

Como se eu precisasse só da autorização dela, adormeci. E pela segunda vez naquela noite, apareci em outro lugar.

Era um lugar amplo, no estilo grego, com colunas até o teto — que por sinal, era muito alto. Nas paredes laterais pendiam todo tipo de armas, algumas delas que embora eu achasse que nunca tinha visto, reconheci.

Uma garotinha — devia ter uns 5 anos — saiu de onde eu estava e corria em frente. Seus cabelos eram loiros e cachinhos pendiam em seus ombros. Ela corria de braços abertos e eu podia ver suas mãos gordinhas se agitando a cada passo. Pude ver também que ela tinha uma pulseira preta estranha, mas como ela corria para longe, não enxerguei direito.

– Hero, pode parar de correr por favor? — uma voz masculina pediu, gentilmente. Ou eu achei que fosse gentilmente, pois apesar de seu tom ser gentil, sua voz não era nem um pouco gentil. Soava... bruta.

A menina correu e se escondeu atrás de uma armadura prateada e começou a rir com a mão tapando a boca e olhando em minha direção. Eu sabia que ela não podia me ver, então olhei para trás e pude dar uma boa olhada no homem cuja voz eu havia ouvido.

A voz caia muito bem nele. Ele era alto, e quando digo alto, quero dizer muito alto. Era corpulento e seus músculos saltavam em sua camiseta apertada vermelha. Ele usava uma calça de couro e coturnos. Seus olhos estavam tapados por um par de óculos escuros que caía muito bem nele. Não era bonito, mas ameaçador. Ameaçador de um jeito talvez... Bom?

– Hero! Eu sei que você está aí, menina. Estou te vendo.

Olhei para trás e Hero já não estava mais atrás da armadura, e sim atrás de uma das altas colunas, caída no chão abraçando a barriga de tanto rir.

– Pai! — outro homem que estava encoberto pelas sombras chamou o primeiro.

– O que fazem aqui, meus filhos? — o primeiro homem perguntou.

– O cara lá de cima requisitou sua presença. Parece que é sério. — respondeu uma terceira voz.

– Não posso largar a menina sozinha. — o pai explicou.

– Nunca pensei que fosse viver para ver você assim, pai.

– E olhe que você tem a imortalidade, irmão.

– Vocês dois vão cuidar dela até que eu volte. — esbravejou o pai.

– Na boa, não nasci para ser babá.

Embora os dois filhos estivessem encobertos pelas sombras, o pai não. Ele tirou o óculos e achei ter ouvido os filhos arquejando.

– Volto logo. Cuidem da Hero até lá. — o pai saiu, marchando.

Olhei para a menina novamente. Ela não ria mais. Parecia curiosa com o fato do homem ter saído e era o levantar de sua sobrancelha que mostrava isso- além de ser muito fofo. Pude ver seu rostinho redondo e seus olhos tão verdes quanto o mar. Ela se levantou e veio andando lentamente até parar exatamente onde eu estava. Parecia que ela estava dentro de mim, era bizarro. Eles começaram a sair das sombras.

– Oi, pequena. Somos os tios Fred e Damon.

Eles deram um passo à frente e a última coisa que enxerguei foram os olhos deles. Negros por completo — sem parte branca- , espalhando o medo e o terror.

Acordei num pulo. O que não ajudou nem um pouco meu ombro. O movimento brusco fez doer até minha alma. Talvez não tivesse sido apenas o movimento. A dor de cabeça era insuportável. Gritei agarrando meus cabelos e me afastando da cama de Clarie e me deitando no tapete macio em posição fetal.

– Ella! O que...

– Ela está muito bloqueada. É estranho... Consegui abrir uma pequena brecha em seus sonhos, mas podem haver efeitos colaterais. A dor de cabeça provavelmente é um deles. — Clarie explicou.

– Faça isso parar! — choraminguei. — Por favor.

Mia veio e se sentou ao meu lado, fazendo carinho em meus cabelos.

– Era verdade? — Mia perguntou.

– Você não tem ideia, não é? — Clarie soltou uma risada cínica — Ela vai melhorar em alguns minutos. Você tem uma bomba em mãos, e quando ela explodir... — e dormiu.

Mia se levantou e pulou na cama de Clarie, sacudindo a garota pelos ombros. Gritou o nome dela, tirou seu travesseiro, deu tapas em seu rosto, mas nada funcionou. Era como se Clarie tivesse morrido. Mia desistiu e voltou em silêncio para o meu lado.

Ficamos daquele jeito até minhas lágrimas secarem completamente, que foi quando minha cabeça parou de tentar explodir. Foi quando me sentei e ela se assustou, soltando meus cabelos.

– Você está bem? — perguntei.

A Mia podia ser a chata que fosse. Podia ter ameaçado minha vida, podia ter pressionado uma adaga contra meu pescoço, mas quando ela viu que eu tinha dito a verdade, ficou ao meu lado.

– Se eu estou bem? A chorona aqui é você, Ella. — ela mostrou um sorriso triste. — Está melhor agora? O que você viu, Ella?

– Eu... Não me lembro.

Notas finais
Se quiser favoritar, vá em frente, não vou reclamar, viu?