Passado, Presente e Futuro
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Voltamos para Washington sem uma pista concreta sobre o paradeiro do assassino de Eli David. Não era para menos. Rodamos Berlim toda atrás de pistas falsas que o Mossad nos deixou.
Esse era o relatório oficial.
— Há algo mais que queria me dizer sobre Berlim, DiNozzo?
Sim, Chefe. Tem, eu e Ziva quebramos – mais uma vez – a regra 12.
Mas eu só falaria isso se estivesse completamente maluco, ou desesperado para tomar um tapa na cabeça. Ao invés eu disse:
— Não, Chefe. Nada.
A regra número 12 e aquela boate. Aquela dança. Ah, Ziva...
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Mesmo aqui no hospital, depois do acidente que quase nos matou eu tento manter a postura de que nada me afetou.
Contudo é mentira. É lógico que me afetou. E me afetaria mesmo se tudo aquilo não tivesse acontecido em Berlim.
“As palavras de meu pai ecoaram na minha cabeça: Um dia, Ziva, alguém especial irá te tirar para dançar.
E ali estava ele. Me tirando para dançar. Sem nenhuma piada, sem nenhuma preliminar estúpida. Tony simplesmente pegou a minha mão e me levou para a pista de dança.
Eu já sabia que ele faria qualquer coisa para que eu ficasse ao lado dele. Quais foram as suas palavras ao me resgatar na Somália? Ah, sim, eu acho que não consigo viver sem você, Ziva David.
Ele havia sido torturado, tinha apanhado e estava sendo ameaçado. Tudo para poder me salvar.
Naquele momento meu coração soube, soube exatamente que era ele. Mas Tony. Ah, Tony. Você sempre cheio de suas conquistas, histórias, garotas perfeitas que poderiam estar na capa de uma revista ou em uma passarela. Quem seria eu perto delas?
E assim nós levamos a nossa relação. Sempre perturbando um ao outro, às vezes com meras infantilidades, outras vezes nossas provocações eram um pouco além.
O pouco além que tivemos no final do meu primeiro ano junto ao NCIS. O pouco a mais que tivemos em Paris.
Mas nós dois sempre dávamos um jeito de colocar um ponto final em algo que não tinha começado. Porém, esse algo sempre esteve ali. Estava ali desde o primeiro dia em que nos vimos.
Você no telefone, falando algo sem sentido para alguém que só você sabia quem era.
Era tão estranho e irritante para mim que eu precisei te levar ao limite, te provocar. E essas provocações continuaram até hoje.
E poderiam continuar, afinal, eram parte de quem nós somos. É a sua personalidade e a minha. Mas, também, é a medida de nossa relação. Que graça teria se não nos provocássemos?
E então veio isso. O assassinato do meu pai, e aquele lado preocupado seu, aquele lado e aquele olhar que eu vi na Somália voltaram. E, os sentimentos que eu tentei esconder por baixo da minha máscara de Agente treinada à exaustão pelo Mossad, borbulharam de novo.
Erámos nós dois, sem a supervisão e as regras de nosso Chefe, em outro país. Parecíamos dois adolescentes livres dos pais por um final de semana. Tínhamos uma missão. E também horas de voo lado a lado e um único quarto de hotel para dividir.
E tinha você, com seu charme, seu sorriso. E a surpreendente capacidade de conseguir atrair a minha atenção dentro de um local completamente abarrotado, quando atravessou aquela pista de dança e me tirou para dançar.
Por meros segundos fomos eu e você. Sem nada. Eu estava, novamente, em seus braços. E a sensação era boa. Era ótima. Era como estar em casa.
E foi ali que percebi que era você o tempo todo. Era você quem me tiraria para dançar e levaria o meu coração. Como se meu coração já não fosse seu...
Porém, como tudo o que acontece entre nós, nada seria fácil. E não foi. Mas valeu a pena.
E como valeu.
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Ela estava parada perto do bar. Eu estava perto da porta. Cobríamos todo o lugar. Só tinha um problema: a distância entre nós dois.
Ziva parada do outro lado, seu olhar de gata pronta para atacar me enfeitiçando. Como sempre foi. Foi apenas olhar para ela que eu não pude resistir.
Precisava de uma ideia para fazê-la dançar comigo.
Lógico, a pista de dança. Um nos braços do outro. Enquanto dançamos, podemos “vigiar” o local.
Caminhei em direção a ela. Era impossível de se imaginar que a mulher da minha vida estivesse bem na minha frente todo esse tempo.
Peguei a sua mão, não me importei em perguntar.
Eu e ela. Ela e eu.
Ziva David, essa sensação de te ter em meus braços. Essa forma como você fica perto de mim.
Eu acho que sei o que é isso.
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É amor? É mesmo amor? Ou é só a tensão que sempre emanou entre nós dois. Não é só provocação? Tem algo mais dentro daqueles olhos verdes. Algo que eu nunca vi ali. Pelo menos não enquanto ele falava de todas as outras.
Era algo que eu percebi a pouco tempo. Era um brilho que só existia quando ele estava comigo. E só comigo.
Passo a passo ele caminhou até mim. Pegou a minha mão e me guiou até a pista de dança.
Era o ritmo da música ou o meu coração pulsava mais rápido? Essa sensação era tão... estranha... mas ao mesmo tempo tão reconfortante.
Eu o sentia. Cada pedaço de mim tinha plena consciência de que ele estava ali, a distância entre nós era mínima, praticamente inexistente.
Era só ficar na ponta dos pés. Um rodopio a mais e eu, enfim, poderia roubar um beijo.
Seria só um beijo. Um beijo que poderia ou não confirmar as minhas suspeitas.
Essa estranha sensação poderia ser amor?
Eu e Tony?
Sim... poderia.
Agora, eu seria corajosa o suficiente para contar a ele? Seria corajosa o suficiente para esperar pela resposta dele.
Eu não tenho essa certeza.
Mas, mesmo assim, eu posso sentir, nossos corações batem em sintonia. E, mais uma vez, sou tomada pela vontade louca de beijá-lo.
Tony seria a minha ruína e minha salvação.
Quando finalmente tomei coragem para enfrentar o meu medo. Tivemos que nos separar.
Poderíamos resolver tudo e, ainda, passar mais uma noite aqui. Eu tinha que descobrir a verdade sobre nós.
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Berlim foi o nosso divisor de águas. Foi lá que notamos a verdade. E então, mal tínhamos aterrissado em D.C. e tentaram nos separar.
E ela, ela voltou a ser a ninja distante que apareceu na minha frente há oito anos atrás. Eu tinha que trazer a minha Ziva de volta.
A minha parceira. A minha amiga. A Ziva que eu pude, finalmente, conhecer por completo na Alemanha.
Mas ela não me deixou entrar novamente. Ela estava focada na vingança. Na sua própria e na de Vance.
Eu poderia esperar a sua dor passar. Mas eu queria o contrário, eu queria estar lá, a ajudando quando doesse mais.
E quando a dor dela se tornou insuportável. Quando ela viu que a vingança não levava a nada, Ziva me deixou.
Pediu um tempo para se despedir do pai. É claro que sim, como negar um pedido desses?
Mas esse tempo virou dias, esses dias semanas. Essas semanas, meses. E ela não voltou.
Ela queria recomeçar. Lá, em Israel. Ela abriu mão de tudo, da cidadania americana, da carreira de agente federal, do NCIS, da equipe, da família, de mim. E foi se refugiar no outro lado do mundo.
Eu tinha visto o que perder um grande amor faz com uma pessoa. Vi bem de perto. Isso não aconteceria comigo. Eu iria atrás dela até no fim do mundo. Eu já fui torturado para trazê-la de volta. Iria para o inferno se precisasse.
Mas, eu deveria saber, ela sabia que eu faria isso. E sumiu. Não deixou nenhum rastro.
Foi quando eu percebi, para encontrar Ziva David, primeiro eu precisaria conhecer quem Ziva David era.
Andei por grande parte do Oriente Médio atrás dela. Conhecendo o seu passado para tentar entender o que ela queria para o futuro.
Foi quando eu a encontrei. No mesmo lugar onde ela tinha nascido. Ziva voltou ao passado para se encontrar.
Mas como explicar isso para o restante da equipe?
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Nessa fazenda eu precisava fazer duas coisas. Saber quem eu era e o que eu tinha virado.
O que aconteceu com a menina que queria ser bailarina? Quando foi que eu troquei as sapatinhas e o tutu, pelas botas de combate e calças cargo?
Quando foi que a garota que sonhava com o príncipe encantado, virou uma assassina?
Isso tudo era minha culpa ou tinha o dedo de mais alguém?
A única certeza que tinha era que: de uma forma ou de outra eu queria voltar no tempo, expiar os meus pecados e recomeçar do zero.
E para que isso acontecesse eu precisava ficar sozinha. Isso era o que a minha mente me dizia, já meu coração. Ele não me deixou esquecê-lo.
Eu precisei chamá-lo, conversar com ele nem que fosse por mensagem. Tentei vê-lo uma última vez, aquela última vez em que eu tentaria memorizar seus olhos verdes, seu rosto, seu sorriso e o som da sua voz, para que eu pudesse guarda-lo só para mim, para quando a saudade apertasse, eu pudesse acessar essas memórias e fingir e sonhar que ele estava do meu lado, mas a chamada de vídeo nunca foi atendida.
Logo depois, ele me respondeu. Conversamos sobre o que eu estava fazendo. Ele, brincalhão como sempre, me perguntou se eu o queria aqui. Sem pensar, disse que sim.
Sua resposta, conte até um milhão.
Mentalmente eu comecei a contar, mas tinha certeza que ele não viria. E, então, eu segui a minha peregrinação para me encontrar.
Passei por lugares que me marcaram desde criança. As ruas de Tel Aviv me lembravam Tali, a fronteira com a Palestina, Ari e seu destino traçado desde cedo.
Revi antigos amigos. Revisitei lugares onde pensei que eram o meu lugar. Mas eu ainda tinha a sensação de que não era ali. Talvez Israel tivesse deixado de ser o meu lugar ou eu que nunca pertenci a essa parte do mundo mesmo.
Contudo eu continuei, os Estados Unidos também não eram aonde eu pertencia. Eu não poderia viver lá depois de tudo o que aconteceu. Depois de tudo o que perdi por lá.
Quando dei por mim, estava na fazenda onde nasci. De todas as coisas que eu poderia herdar, esta era a única que eu realmente me recusei a desfazer. Era aqui, o único lugar onde eu realmente havia sido feliz.
A pequena e inocente Ziva David que corria feliz pela casa, ora seguindo o irmão mais velho, ora sendo seguida pela irmã mais nova.
Quase pude ver essa cena quando abri a porta. Imaginei três crianças correndo pelo corredor, senti o cheiro de algo que minha mãe cozinhava e pude ouvir a voz dela.
Foram bons tempos. Tempos felizes e despreocupados que não voltariam jamais. Nada seria como antes.
Se eu não posso voltar no tempo, talvez eu deva mudar quem eu sou. E recomeçar de onde eu havia parado, quando fui me juntar ao Exército Israelense.
Sim. Eu seria uma nova Ziva. Longe de tudo o que me ensinaram. A assassina não existe mais. O meu passado é só isso. Passado.
Custei me decidir sobre isso. E quando eu estava pronta para fazer a ligação final, que cortaria os últimos laços com o que eu era. A única pessoa que poderia me fazer desistir de recomeçar bateu na minha porta.
Eu não pude acreditar que ele estava aqui. Que ele realmente tinha vindo depois do meu convite.
Eu estava certa naquele bar em Berlim. Eu realmente vira algo diferente nos olhos dele.
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Quando ela abriu aquela porta, pude notar que ela já havia tomado uma decisão. Qual era e sobre o que era, eu não saberia dizer.
Mas eu tinha uma missão. Levá-la de volta para casa comigo. Eu não sairia de Israel sem ela.
Eu tentei convencê-la de todas as formas. E ela me deixou entrar mais uma vez na sua vida. Eu vi as promessas de nova vida que ela havia feito. E também conheci o que ela queria ser.
A pequena Ziva queria ser bailarina.
Por mais que me doa dizer isso, ainda bem que não foi. Senão, como eu a teria conhecido.
E, ali, dentro daquela fazenda, isolados do mundo, longe de tudo, de todas as coisas e de todas as regras, fomos o que Berlim nos deixou ser.
Fomos Ziva e eu.
Trocas de juras de amor são desnecessárias quando o amor está na sua frente a tanto tempo.
Mas algumas vezes eu quis dizer. Será que doeria tanto falar um “Eu te amo”? Contudo eu preferi demonstrar.
Passamos dias assim, mas eu teria que retornar. D.C. me chamava.
Nós dois fomos ao aeroporto, mas somente um voltou.
Ela não veio. Disse que não poderia.
Eu insisti, como viver sem ela a partir de agora?
Antes de me beijar, ela pegou meu rosto em suas mãos e disse: “Tony, você é tão... amado.”
Ah, se eu soubesse que estas seriam as últimas palavras que eu ouviria de sua boca. Se ao menos eu soubesse!
Eu parti ainda pensado nela. Rezando que ela mudasse de ideia e viesse logo depois.
Mas o depois veio e ela não voltou.
Ela nunca mais voltou.
Foi então que o meu mundo desmoronou.
Um incêndio de grandes proporções em Israel. Em uma fazenda. Na fazenda do Ex-diretor do Mossad Eli David.
Sem sobreviventes.
Ela fora morta em um ataque.
Minha Ziva nunca mais retornaria para mim.
Como eu poderia investigar um crime desses estando tão longe?
Tinha perdido o chão. Tinha perdido a mulher da minha vida.
Mas Ziva, ela ainda tinha o dom de me surpreender.
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Eu devo ser alguma espécie de masoquista para ter aceitado que ele ficasse aqui comigo por todo esse tempo.
Eu já tinha a minha decisão tomada. Eu não voltaria. Não poderia e não queria voltar.
Porém eu o deixei ficar. Deixei que ele entrasse de vez na minha vida e no meu coração para, então, deixa-lo ir.
E eu realmente quis dizer que o amava. Eu precisava dizer.
Mas tive medo. Então troquei.
Tony, você é tão amado.
Deixei o sujeito implícito. Mas ele saberia o que eu quis dizer.
E quando aquele avião decolou, levando para longe de mim o homem que tinha o meu coração, eu me preparei para nunca mais pensar nele. Não pensaria mais nele e nem em nada que ficou para trás.
Para cortar os laços, fiz a ligação mais difícil da minha vida.
Quando terminei de me despedir daquele que virou o meu pai, eu quase pedi desculpas. Mas isso é algo que não se faz com ele.
Me perdoem todos. Me perdoe Tony.
“Regra 51 – Às vezes você está errado”.
E eu estava errada. Eu não cortei laço nenhum. Pois, nove meses depois, a prova viva do meu amor por Tony e de que eu nunca o esqueceria ou esqueceria a minha família, chegou ao mundo.
Eu a chamei de Tali.
Tali David DiNozzo.
Seus cabelos eram loiros e cacheados. Seus olhos castanhos iguais aos meus.
Minha pequena lembrança. Nossa filha, Tony.
Eu comecei milhares de cartas para dizer a ele que ela existia. Tentei tomar coragem para escrever e enviar.
As escrevi. Todas. Desde o momento em que descobri estar grávida. Tirei fotos também. Mês a mês. Tali teria um álbum completo. E ele teria a prova de que eu queria contar.
Só, como sempre, me faltou coragem de fazê-lo.
Então o tempo passou. E eu ensinei a Tali quem era o Ába dela. Sim, Tony. Ela sempre saberia quem você é. Mesmo longe, você é parte da vida dela.
Nunca me importei em cria-la sozinha. Tali era meu orgulho, minha alegria. Meu melhor presente e lembrança. E, com ela ao meu lado, eu pude finalmente recomeçar. Me tornei uma nova pessoa. Era mãe, ou ima em tempo integral.
Até que vieram atrás de mim e dos segredos do meu pai.
Segredos estes que há muito eu queimara.
Pedi ajuda a uma pessoa que pensei que jamais pediria.
Orli Elbaz foi a quem eu confiei a minha filha e minha história falsa.
“Leve-a até Tony. Ele, enfim, saberá dela.”
Se eu pensava que dizer adeus a ele doeu. Dizer adeus ao nosso bebê doeu muito mais.
Eu pensei em escrever algo. Dizer que sentia muito por nunca ter contado sobre Tali. Mas seria uma forma de dizê-lo que eu mentia.
Então eu dei uma dica. A foto. Nossa foto tirada em Paris. E com isso eu quis dizer: “Leve-a para Paris, Tony. Um dia eu encontro com vocês lá.”
Tali se foi e eu me escondi. E permaneceria assim para poder proteger a minha família.
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Ela estava morta. Eu não poderia acreditar. Eu não permiti que ela morresse. Não hoje, nem nunca.
Uma coisa era viver sem vê-la. Sem conversar com ela. Mas sabendo que ela poderia aparecer a qualquer momento. Outra, completamente diferente, era saber que a remota possibilidade de vê-la não existia mais.
Por que você deixou que te matassem, Ziva? De todas as pessoas no mundo, era você a única que eu tinha certeza de que nunca seria pega de surpresa.
Mas aqui está. A confirmação de que um corpo foi encontrado. E essa confirmação vem do Mossad. Seus antigos amigos. E para piorar a situação. Orli Elbaz em pessoa está aqui.
Eu já não aguento as notícias pela televisão. Ouvi-las de alguém que poderia ter te visto a apenas alguns dias era demais para mim.
Contudo, Orli não vinha sozinha. Ela tinha uma garotinha ao lado dela. Tali. Foi assim que ela me foi apresentada.
Era a sua filha.
É minha filha.
Tali é nossa filha.
E você nunca me disse nada. Por que Ziva? Era só me dizer que eu iria o mais rápido possível.
Agora eu tenho uma filha. E ela não tem mais a mãe. E eu não sei falar hebraico. Deveria ter aprendido com você, Ziva. Durante os anos que te tive ao meu lado. Mas nós só notamos essas coisas quando não as temos mais.
Não aprendi com você, mas vou aprender por Tali.
Sim, eu vou cria-la. Hoje, ela é a pessoa mais importante para mim.
Por quinze anos, eu só soube ser um agente do NCIS.
Agora eu serei um pai pelo resto da minha vida. E, pode ter certeza, Ziva, eu entendi a sua intenção. Vou leva-la para Paris, afinal, você ama aquela cidade. E, também, vou ensinar à nossa garotinha tudo sobre você.
Você não será somente uma lembrança em um porta-retratos.
Será uma constante na vida dela. Na nossa vida.
Eu te amo, Ziva David. Deveria ter dito antes que fosse tarde demais.
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Fiz uma promessa que eu permaneceria escondida até que o perigo que rondava a minha família acabasse.
Acontece que eu não previ que os casos em que trabalhei escondida, voltariam às mãos do NCIS, e muito menos às mãos da equipe de Gibbs.
Parecia uma triste e infeliz coincidência que a agente que ocupou o meu lugar fosse insistente ao ponto de descobrir sobre meu escritório. Sobre meus diários, sobre tudo.
Confesso que ela fez um bom trabalho. Eleanor Bishop é uma boa agente e uma pessoa com bom coração. E, se Gibbs confiou nela ao ponto de tê-la na equipe dele, eu também confiaria.
Sim, alguém precisava saber que estava viva. Esse alguém, Bishop.
“Eleanor Bishop,
Pela segurança da minha família.
Mantenha o meu segredo a salvo.”
Eu sei que é um fardo, mas era necessário. Ninguém poderia saber, ainda, que eu estava viva. Pelo menos não agora.
Se tudo desse certo, um dia eu agradeceria pessoalmente à Bishop por isso. E faria Tony agradecer também.
Porém, menos de quatro meses depois de tudo isso, eu precisei intervir. O perigo era tamanho que lidar com isso às escondidas não daria certo. E, também, por quem era o alvo.
Não era Tali, não era Tony.
Era Gibbs.
Tinha chegado a hora.
Foi, para dizer o mínimo, estranho voltar àquela casa em Alexandria. Estive lá algumas vezes. Me escondi naquele porão por um tempo. E estava voltando para um lugar que não tinha mudado nada nos últimos seis anos.
Até mesmo um barco ainda era construído no porão. Qual seria nome desse? E como ele o tiraria dali?
Achei estranho quando Gibbs perguntou o que eu queria agora.
Tinha vigiado a casa a noite inteira e não tinha visto ninguém entrar ou sair dali.
Mas não havia tempo.
— Olá Gibbs!
Ele ficou lá parado, como se visse um fantasma. Por fim, a única coisa que disse foi: “Ziver”.
Eu tinha sentido falta desse apelido.
E nós tínhamos que salvar a vida dele.
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— Ába, você vai me levar para escola hoje, ou será o vovô?
— É claro que sou eu, pequena!
— Eu não sou mais pequena! – Ela protestou alto. E a semelhança com a Ima era tamanha que o coração até apertou.
— Tudo bem, Tali. Nada de atrasos. Essa é a sua última semana de aula no ano.
— Eu sei, ába. Posso te pedir uma coisinha?
Tali poderia me pedir o mundo que eu daria um jeito de trazê-lo para ela.
— Diga.
— Podemos ir a dois lugares?
— Antes da aula? Não temos tempo, filha!
— Não... – ela balançou seus cachinhos loiros. – nas férias.
Ponderei, sempre viajamos, mas ela parecia querer um lugar específico.
— Onde é, então? – Peguei a sua mãozinha e caminhamos para a porta.
— Quero ver o vovô Gibbs.
Vovô Gibbs... se ele descobrir isso eu vou perder a minha cabeça só com o tapa que eu vou ganhar...
— Tudo bem, você quer ir para a América. E onde é o outro?
— Israel.
Ah, Tali? Por que justo lá? E esse pedido tinha que ser feito justo no dia de aniversário da morte da sua mãe.
— Ába? – ela me olhou preocupada pela minha falta de resposta.
— Vamos sim. Qual primeiro?
— Mérica! – Ela disse feliz.
— Vamos fazer surpresa para todos?
— SIM!! – Tali começou a pular.
Talvez seja uma boa hora para ela ir ver onde tudo começou afinal de contas...
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Era estranho estar de volta ao prédio. Logo que entrei fui bombardeada pelas lembranças.
Meus primeiros minutos junto com o NCIS foram justamente com Tony. E quando vi aquela mesa, a primeira, que tinha a visão direta para o corredor do elevador, meu coração saltou uma batida, na apreensão de vê-lo sentado ali. Mas ele tinha saído, e agora o agente que a ocupava era McGee. O bom, doce e sempre sorridente McGee.
Olhei para ele e não pude acreditar o que seis anos fizeram a ele. No fim das contas, era realmente muito tempo para ficar longe de todos.
Ele me recebeu de braços abertos, com um forte abraço e dizendo que tinha sentido minha falta.
— Também senti a sua, novato. – Usei o apelido que ficou tão característico dele.
Olhei para a minha esquerda. Minha antiga mesa. Hoje, ocupada por Bishop, que ainda não estava ali. A terceira mesa, a mesa do novato, hoje era ocupada pelo Agente Nick Torres. Contudo eu quase pude ver nós três fofocando alguma coisa pelas costas do Gibbs. Tony, McGee e eu.
Me permiti olhar em volta. As paredes laranjas ainda estavam ali. As grandes janelas com vista para a baía também. Olhando um pouco mais alto, a porta do MTAC, o quarto andar, e a porta da diretoria. Leon Vance não estava ao alcance da visão. Mas me lembrei de uma outra diretora. Aquela que me trouxe para cá.
E ao pensar nisso eu refleti, realmente faz tempo.
Fiquei sabendo que Abby tinha saído, e se mudado para Londres. Ducky se aposentou e agora é o historiador da agência. Cargo mais do que apropriado para quem sempre gostou de contar histórias. Jimmy, agora Doutor Palmer, assumiu a autópsia. Meu confidente do porão finalmente fora reconhecido.
— Tudo bem, Ziva? – Gibbs me perguntou, como sempre aparecendo do nada.
— Sim, Só relembrando da primeira e última vez em que estive aqui. – Respondi sincera.
— Muita coisa mudou desde que você apareceu aqui pela primeira vez, Ziver. – Ele soou nostálgico.
— Eu sei que sim. Talvez tudo tenha mudado, menos eu. Às vezes me pego vivendo do passado. – Divaguei.
Gibbs me deu um meio sorriso. Ele, melhor do que ninguém, sabia sobre isso.
Estávamos atrás dos assassinos há mais de uma semana. Tínhamos algumas pistas. Mas, a melhor delas, no levava à Norfolk. Fomos todos para lá. Se déssemos sorte, isso acabaria hoje.
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— Ába, tem certeza de que todos vão gostar de nos ver? – Tali parecia apreensiva desde que desembarcamos em Washington.
— Mas é claro, filha! Por que esse medo todo? – Disse a pegando no colo.
— Não sei. É que tá doendo aqui! – Ela apontou para a barriga.
—Você quer dizer que você está com um frio na barriga? – Não contive o sorriso.
Tali balançou positivamente a cabeça, concordando com o que disse. Eu a abracei mais forte.
— Vai passar quando você ver todo mundo. – Garanti a ela, mas Tali não estava assim tão certa.
— A Tia Abby vai estar lá? – Me perguntou com o rosto escondido no meu peito.
— Não, a Tia Abby está em Londres. Mas você vai poder ver o McTio, o Gibbs, o Ducky, o Tio Jimmy, a tia Ellie.
— É vovô Gibbs! Ou Chefe! – Tali bateu pé.
— Tudo bem. – Estava me preparando psicologicamente para receber a encarada do Chefe quando a minha filha o chamasse de vovô.
Chegamos no Estaleiro, e foi até fácil poder entrar. Ao que parece os guardas ainda se lembravam de quem eu era, e conseguir um passe de visitante tanto para mim, quanto para Tali foi rápido.
Passamos pela segurança final e entramos no elevador.
O mesmo elevador onde eu tomei tanto tapa na cabeça. Onde eu fiquei preso com a Ziva. Onde o Chefe resolvia que era um bom lugar para se ter uma reunião.
E, quando Tali apertou seus braços com mais força ao redor do meu pescoço, eu pude sentir o mesmo que ela. Um frio na barriga que eu não soube explicar.
O elevador fez o seu ding anunciando que estávamos no andar certo. Dei um passo para fora e me preparei para começar a mostrar à minha filha onde havia conhecido a Ima.
Assim que entramos no andar, Tali ficou maravilhada com a cor das paredes. E, logo depois, não conseguiu desgrudar o olhar das janelas. De lá ela via a baía, e para a alegria dela, tinha um “barcão parado na água”.
— Aquele lá é um torpedeiro da Marinha, filha. E ele não está parado na água. Está atracado no porto.
Tali deu de ombros e me lembrou Ziva quando confundia as expressões, assim que me respondeu.
— Foi isso que eu quis dizer.
— Tudo bem, Ziva David. – Aprestei a ponte do seu nariz — Vamos continuar o tour?
— Sim! Mas depois eu posso subir no tropeiro?
— Torpedeiro. E não posso te prometer isso. Já não sou mais um agente.
— Será que o vovô Gibbs deixa?
Foi logo depois dessa pergunta que dei conta que éramos observados.
— Vovô Gibbs. Não tenho certeza de como Jethro vai reagir ao ser chamado assim, Anthony.
Só tinha uma pessoa em todo o prédio que me chamava assim.
— Ducky! Quanto tempo! – Dei um passo para abraçar o bom doutor Mallard. – A aposentadoria te fez bem!
— Realmente muito tempo, Anthony. Principalmente quando vejo o quão grande nossa adorada Tali está!
— Oi Tio Ducky! – Tali respondeu tímida.
— E vocês, estão aqui para? – Ducky começou, porém foi interrompido pela chegada do elevador e pela correria de Tali quando viu...
— Vovô Gibbs!!!! Vovô Gibbs! – Ela correu até o Chefe, que mesmo surpreso, conseguiu pega-la a tempo antes que ela caísse.
— Tali! Mas como? Quando foi que... – Era raro ver que alguém tinha surpreendido o Chefe.
— Olá Chefe! – Cumprimentei, mas não fui mais a diante. Pois, quando Ellie saiu do elevador, mais alguém saiu do lado dela. E não era o agente Torres.
Eu conhecia aqueles cabelos ondulados. Eu sonhava com aquela voz.
— Ziva?! – Seu nome não foi mais do que um sussurro.
— IMA! IMA! IMA! – Tali rapidamente esqueceu o “Vovô Gibbs” e correu para os braços da mãe.
Eu estava paralisado. Aquilo ali era um sonho.
Por dois anos, depois que disse adeus a ela em Israel, eu quis que essa cena se concretizasse. Que ela, enfim, decidisse voltar e aparecesse no prédio.
Agora, depois de quatro anos do meu afastamento, ela reaparece. No mesmo local que eu a conheci.
Meu cérebro custou processar a informação.
“Ziva está morta”. Era o que eu dizia para mim mesmo.
Mas, como ela estava morta, se ela estava ali, sendo abraçada pela minha filha? Nossa filha.
Eu só tive a certeza quando ela levantou o olhar na minha direção. Ela dizia tanto só com aqueles olhos castanhos:
Sinto muito.
Eu te amo.
Eu sei que tenho muito o que explicar.
Eu senti tanto a sua falta, Tony.
— Tony. – Alguém me chamou, mas eu não estava mais nesse mundo. – DINOZZO! – Eu voltei para este mundo, quando uma mão encontrou a parte de trás da minha cabeça com um estalo dolorido, seguido por uma gargalhada de Tali.
— Ela está mesmo aqui, Chefe? – Eu precisava de uma confirmação de que aquilo era real. E como a minha cabeça doía, decidi que, pelo menos Gibbs, era a única presença que eu podia provar que estava ali.
— Sim, Tony. Eu estou aqui. – E aquela voz ecoou nos meus ouvidos de novo.
— Ába! A ima!! – Tali desceu do colo de Ziva e veio para me puxar para o reencontro mais inesperado.
De início eu resisti. Tive medo de ser um sonho e quando eu finalmente pudesse alcançar as suas mãos, eu acordaria e todo o processo do luto diário se reiniciasse.
— A vida não costuma dar segundas chances, Tony. Vá logo. – Gibbs me ordenou.
E eu fui. Tive plena consciência do sorriso de Ellie e McGee quando passei por eles dando só um aceno de cabeça. Outras pessoas pararam para ver a cena. Algumas delas estavam ali quando eu fui embora, depois das notícias daquele dia 17 de maio.
— Você está mesmo aqui? – Perguntei incerto.
Ziva tinha lágrimas nos olhos quando me respondeu.
— Sim, Tony. Eu estou aqui, e eu sinto tanto. – Ela me abraçou, mesmo segurando Tali em um dos braços.
— Mas como? Você...
— É uma longa história.
— Mas por que aparecer aqui? Por que você não foi para...
— Por que eu tinha que proteger, vocês Tony. Minha família corria perigo. E quando ficou insustentável, eu tive que reaparecer. – ela sussurrou a resposta.
Foi quando notei o tempo do verbo.
“Tinha”. “Corria”.
— Acabou, então? – Olhei em seus olhos.
— Sim. Agora tudo está acabado. Para sempre. – Ela me sorriu.
— Então, você?
— Sim. – Lágrimas e um sorriso ainda maior foram a minha melhor resposta.
Eu tinha que saber o que havia acontecido. Mas como se trata da Ziva, eu sei que ela teve um grande motivo para isso tudo.
Confesso que de início foi difícil de acreditar e depois de aceitar que ela tinha feito isso comigo, com Tali, com todos. Contudo, depois eu percebi que o mais importante não era saber o motivo, e sim ficar feliz que ela estava viva. Era saber que aquela dor que eu sentia toda vez que o dia amanhecia, não voltaria mais. Não havia mais luto, havia uma família para ficar unida.
E como o Chefe disse, a vida nem sempre te dá segundas chances. Mas eu fui sortudo o bastante para ganhar a minha.
Hoje, seis meses depois do reencontro em Washington, vamos, finalmente, ser uma família de verdade.
Nada mais importa, a não ser que deixamos o passado para trás, e só trouxemos para fazer parte do nosso presente e do nosso futuro a nossa família.
Porque nosso futuro tinha que ser aqui. Em Paris, onde tudo se tornou real pela primeira.
Notas finais
É claro que pelo menos um casal de NCIS teria que terminar feliz em Paris. Agora eu me pergunto, o que Paris tem que enfeitiça tanto esses casais dessa série, hein?
Agradeço por quem leu, e por quem esperou por essa história.
Até a próxima!!
Xoxo
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