Passado Obscuro
47 Capítulo 46 - Eu Te Amo
Notas iniciais
Andávamos em direção à saída em passos largos e rápidos, com todos parecendo mais ansiosos do que a própria Ginna. Ela permanecia sentada na cadeira de rodas, acariciando sua barriga.
– Você já sabe o sexo? – perguntei a ela, que parou o que estava fazendo e me encarou com um sorriso tímido.
– Eu quis deixar como uma “surpresa”. – declara piscando um olho para mim. – Mas ando pensando em alguns nomes. Se for menino, será Fred ou Albert. Agora, se for menina, eu não faço a menor ideia.
– Ainda faltam quatro meses para o nascimento. – esclareço colocando a mão no seu ombro. – Você terá tempo de sobra para decidir.
– Você pode ir na frente com o seu pai, Jane? – pergunta-me Sara abrindo o porta-malas do carro. – Acho melhor eu cuidar de Gin no banco de trás.
– Claro, sem problemas.
Eu entro na frente do carro e rapidamente tomamos o caminho para casa. Com Ginna saindo do hospital, tudo parece estar tomando o mesmo rumo que estava antes. É bom estar de volta, com essa família, eu quero dizer. Com as brincadeiras, e até mesmo com as brigas.
Nunca pensei que iria ficar tão feliz em voltar. Em ter a minha vida, que antes não parecia nem um pouco perfeita, de volta. Em poder perceber que não há vida perfeita. Só há a vida que você tem.
E acredite, você tem que aproveitar cada segundo dela antes que alguém o faça por você.
***
– Não acredito que está fazendo tão calor assim! Não seria para o verão começar apenas semana que vem? – indaga Gin com a respiração ofegante.
– Acredite, ontem estava pior. – Sara diz arrastando a mala de Ginna em direção a casa. – Vamos entrando meninas, eu fiz uma sopa de legumes que vai arrasar com a comida do hospital.
– Isso não é muito difícil de acontecer. – Ginna sussurra para mim, com um sorriso sapeca no rosto. Sara se vira para nós com uma cara feia. – Ah, mãe, eu só queria dizer que a sua comida é muito boa!
– Sara, a melhor chef de cozinha dos Estados Unidos! – eu falo, levantando a mão para o céu e sorrindo grande. Ginna gargalha, o que faz a sua mãe ficar ainda mais brava.
– Eu não acredito que... – uma buzina interrompe Sara. Olhamos todos para a rua, onde uma moto preta vem andando calmamente em direção a casa. Ian estaciona atrás do meu Fusca.
Meu pai me encara.
– Não quero que demore muito. Vamos servir o jantar as 7:00 horas em ponto.
Eu assinto com a cabeça.
Sara, meu pai e Ginna entram na casa e eu rumo ao encontro de Ian. Ele está parado, encostado em sua moto e com seu comum sorriso simpático.
– Oi Jane. – ele fala quando eu chego perto o suficiente dele. Ao contrario do que eu estava prevendo, Ian não tenta me beijar ou me abraçar, ele apenas balança a cabeça, em sinal de comprimento.
– Oi. – respondo um pouco sem jeito. – Não esperava te ver tão cedo.
– Eu vim aqui porque precisava mesmo falar com você. – ele esclarece, coçando a nuca em sinal de nervosismo. – Sobre aquela discutição no telefone...
– Não precisa dizer nada, Ian. Nós dois erramos e sei que não foi por querer. – ele dá um passo à frente e encosta no meu ombro com a mão direita.
– Eu... Nós... – Ian balança a cabeça, a fim de organizar seus pensamentos. Depois de um tempo, começa de novo. – Noite passada eu não consegui dormir direito. E meus pensamentos foram para você, sabe? A gente sempre se deu bem, né?
– A não ser naquela vez que você errou aquela bola na sinuca! – brinco, batendo de leve em seu braço. Ele ri.
– Mas... Eu entendo você. – acho que fico com uma interrogação na testa, porque Ian recomeça a falar, explicando o que quis dizer. – Na nossa briga, você disse que amava Andrew. E, Deus, como eu fui burro de não perceber isso antes!
Eu fico quieta, desvio o olhar do dele por um instante. Depois, tomo coragem e o encaro novamente.
– Por que está falando isso?
– Jane, eu te amo, – primeiramente eu fico com o coração mais apertado do que já estava. Amar? O que? – mas não do jeito que Andrew te ama. Não do jeito que você ama ele. Você é minha melhor amiga. E... Acho que confundi as coisas.
– Oh, Ian... – eu abro os braços e me jogo em seu pescoço, começando um abraço que há muito tempo eu queria dar. É isso. Eu nunca tive duvida, sempre soube que meu coração pertencia a Andrew, mas fiquei insegura de machucar Ian, porque eu também amo ele, como melhor amigo.
– O que significa isso?! – separei-me de Ian rapidamente e olhei nos olhos de Andrew, que estava parado à alguns metros de nós.
– Não é nada disso que você está pensando, Andrew. – Ian quem fala isso, colocando as mãos para cima, como se dissesse “Sou inocente”.
– Não venha com essa frase para cima de mim, seu idiota! – rapidamente Andrew avança para cima de Ian e pega no colarinho da sua camiseta, o forçando na moto dele.
– Andrew! – grito pegando no seu braço e o puxando com toda a minha força. – Pare já com isso! Andrew!
De repente, um grito enche os meus ouvidos. Não vem da rua, não vem da nossa briga. Vem de dentro da casa. É uma mulher. É Ginna.
Minhas pernas automaticamente se viram e começam a correr o mais rápido que consigo para a porta da casa amarela. Vejo alguns vultos atrás de mim, possivelmente Andrew e Ian me seguindo.
– Ginna! – grito assim que escancaro a porta. Mais um grito, vindo dessa vez do andar de cima da casa.
Subo os degraus de dois em dois e quase tropeço no ultimo. Chego primeiro que todos e vou direto para o quarto de Ginna. Assim que abro a porta fico sem palavras.
– Gin?
O quarto está uma tremenda bagunça. As roupas de Ginna estão por todos os lados do quarto, jogadas por todos os cantos. Há papeis no chão, a sacada está totalmente aberta, as gavetas reviradas e a cama toda bagunçada.
Ginna está sentada no chão, no meio do quarto, como se tivesse caído lá. Há um papel em sua mão e ela treme muito. Lagrimas correm por suas bochechas.
– O que houve aqui? – pergunto desviando de tudo que está no chão e andando em direção a Ginna.
Ela não me responde, apenas chora.
Andrew , Ian, Sara e meu pai entram no quarto com caras surpresas. Todos olham em volta parecendo mais confusos do que eu estou. Sara rapidamente senta ao lado de Ginna e abraça a filha.
– Shh... Shh... – ela faz esse som a fim de acalmar a filha. Passa a mão no cabelo claro de Gin e deixa que a filha chore em seu ombro. – Vai ficar tudo bem, já passou querida.
Gin solta o papel que tinha em mãos e abraça a mãe com força. Eu rapidamente caminho até onde o papel voou e o agarro entre as mãos.
“Esse filho também é meu. Assim que ele nascer você vai pagar por estragar a minha vida.
– H.”
Quando acabo de ler o papel, começo a tremer também. Não é possível. Não, não, não. Justo agora, que eu estava tão feliz, que Ginna tinha finalmente se recuperado.
Ao meu lado, Andrew coloca a mão em meu ombro. O encaro com lagrimas nos olhos e, sem pensar duas vezes, me aconchego no seu abraço.
H de Horror.
H de Harry.
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